António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros

Literatura portuguesa
António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros - 256 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2009   (lançamento em Portugal 1981).

Sempre achei que os piores pesadelos não são aqueles povoados de monstros e situações de terror, pois estes identificamos logo de início como pesadelos; aqueles verdadeiramente terríveis são os que reconhecemos como parte do nosso próprio cotidiano, começando de mansinho e, pouco a pouco, nos envolvendo em uma malha sufocante de espirais infinitas, uma sensação de afogamento em que não percebemos se chegamos ao fundo ou à superfície.

Esta sensação de pesadelo me deixou o romance "Explicação dos Pássaros" de António Lobo Antunes que, com a sua tradicional prosa polifônica, misturando passado, presente e futuro, vai nos desvendando os últimos dias da vida de Rui S., um professor universitário que se vê aprisionado em uma série de situações que ele próprio, por conta de decisões erradas ou mesmo falta de decisões, se deixou envolver ao longo da vida.

Lobo Antunes parece não ter pena de seu protagonista que vai sendo lentamente despedaçado ao longo da narrativa. Depois de uma desconfortável visita à mãe  que morre de câncer em um leito de hospital, parte em uma viagem de carro de final de semana com a segunda mulher decidido a pedir-lhe a separação. Ao longo desta viagem, todo o passado de Rui S. é descortinado, incluindo os detalhes da separação pedida pela primeira mulher (do ponto de vista do protagonista e da mulher), a inadaptação à sua família, sociedade, filhos e amigos, tudo parece levar Rui S. a um final trágico. Por que devemos ler livros assim? Não sei responder a esta pergunta, mas posso assegurar que é um belo exemplo de literatura.

Comentários

Lígia Guedes, disse…
Kovacs,

Quanto mais diversidade de leituras, maior nossa capacidade de enxergar as nuances da alma humana e suas possibilidades, talvez o ponto x da questão de se ler personagens como o protagonista da 'Explicação dos Pássaros', certamente um perfil de homem moderno.

Admiro Antônio Lobo Antunes e respeito a crítica feita por Mario Vargas Llosa em 'Sabres e Utopias' ao elogiar a obra de Jorge Amado por lança um olhar sobre a condição humana sem ingenuidade ou estultice, como ocorre na maioria dos autores modernos que preferem "pensar positivo' através de seus personagens escondendo a realidade vigente. Segundo Llosa, sofrimento, engano, abusos, mentira, estupidez, tudo está presente na obra de Jorge Amado, entretanto, seus personagens apesar de sofrer todas as desventuras do mundo não são suficientes para quebrar a vontade de sobrevivência, a alegria de viver, o esforço sorridente para dar sempre a volta por cima que animam os seus personagens. Bom, Jorge Amado é um baiano à parte, e uma curiosidade é que Llosa quando veio ao Brasil chegou a pensar que a literatura era venerada como ao autor em sua terra natal, conhecido nas ruas, etc, mas logo descobriu que esta não é uma realidade nacional (índice de leitores no Brasil), mas certamente seus personagens ficarão de boca em boca através das histórias contadas de gerações em gerações, como 'Dona Flor e Seus dois maridos', Gabriela, Tieta do Agreste.
Bom, lemos porque queremos conhecer a realidade do outro que diz respeito a nossa, seja latino ou não, mas essencialmente humano.

Agradeço a oportunidade de visita e comentário.
Kovacs disse…
Lígia, muito boa a sua lembrança de Jorge Amado, estou com saudade dos romances dele.
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