Lygia Fagundes Telles - As Horas Nuas

Literatura brasileira
Lygia Fagundes Telles - As Horas Nuas - Editora Companhia das Letras - 256 Páginas - Relançamento: 30/04/2010, Publicação original 1989 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Talvez o livro menos lido e comentado de Lygia Fagundes Telles, "As Horas Nuas", lançado originalmente em 1989, foi o seu último romance publicado, depois dos clássicos: "Ciranda de Pedra" (1954), "Verão no Aquário" (1964) e "As Meninas" (1973). A produção de contos da escritora é bem mais extensa, sendo representada pelo excelente "Antes do Baile Verde" (1970), um marco da literatura nacional — Ler aqui resenha do Mundo de K.

Rosa Ambrósio está caída em seu quarto sob o efeito da bebida, de braços abertos, "crucificada na roupa suja" espalhada pelo chão. Este é o cenário decadente da abertura deste romance que nos coloca logo de início ao lado da protagonista, uma atriz que sofre com os espelhos, não aceita a chegada da velhice e as transformações do seu corpo, o fantasma da morte. A autora utiliza múltiplas vozes narrativas, partindo do ponto de vista da própria Rosa Ambrósio que irá relembrar passagens da sua vida e dos seus amores de forma fragmentada e não linear. Miguel, o primeiro amor adolescente que tem um fim trágico. Gregório, o marido martirizado pelas torturas durante o regime militar e Diogo, o secretário-amante. Outro personagem fundamental na estrutura de "As Horas Nuas", que praticamente divide o protagonismo com Rosa Ambrósio, é o gato Rahul, narrador alternativo da trama e que relembra trechos de suas vidas passadas.  
"Entro no quarto escuro, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio, desabo em cima dessa coisa, ah! meu Pai. A mania da Dionísia largar as trouxas de roupa suja no meio do caminho. Está bem, querida, roupa que eu sujei e que você vai lavar, reconheço, você trabalha muito, não existe devoção igual mas agora dá licença? Eu queria ficar assim quietinha com a minha garrafa, Ô! delícia beber sem testemunhas, algodoada no chão feito o astronauta no espaço, a nave desligada, tudo desligado. Invisível. O que já é uma proeza num planeta habitado por gente visível demais, gente tão solicitante, olha meu cabelo! olha o meu sapato! olha aqui o meu rabo! E pode acontecer que às vezes a gente não tem vontade de ver rabo nenhum."
No desenvolvimento do romance a narrativa alterna para a terceira pessoa e surge a disciplinada e solitária personagem Ananta Medrado, analista de Rosa e atuante em causas feministas de proteção da mulher. O cotidiano organizado e despojado de Ananta está para mudar quando ela começa a acompanhar e imaginar de forma obsessiva os hábitos de um misterioso vizinho do andar de cima. Por meio de seu diário, acompanhamos detalhes dos pacientes e consultas, assim como os primeiros sinais de uma crise existencial, resultado da insatisfação e pavor com uma vida sem sentido e sem paixão. Ela desaparece misteriosamente, sem deixar sinais de seu paradeiro e uma investigação é conduzida por seu primo, Renato Medrado, em um contexto policial.
"Com seu passo silencioso Ananta foi até a janela. Abriu uma fresta para que entrasse um pouco de ar na sala esfumaçada. O vento levantou bruscamente as cortinas. Recuou. Sentou-se e ficou ouvindo o piano (Chopin) na Polonaise que tinha o mesmo tom roxo-indignado do céu. Um crepúsculo violento, ela pensou lançando um olhar de desconfiança para o telefone (anestesiado) e para o divã (vazio) que já tinha mergulhado na penumbra. A manta de lã guardava vagamente a forma do corpo de Rosa Ambrósio que trouxe o gato embrulhado numa echarpe de lã, Ele está com medo da chuva, querida."
Um romance narrado, em sua maior parte, por uma atriz narcisista, decadente e alcoólatra, e seu gato filósofo. Uma chance para Lygia Fagundes Telles nos mostrar mais uma vez a dificuldade da existência nos grandes centros urbanos, a solidão compartilhada no lento desgaste dos casamentos falidos e a perda das ilusões na busca de uma felicidade impossível. Um triste retrato universal — e muito atual — da burguesia e seus pequenos dramas anônimos como só uma grande autora como Lygia seria capaz.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

Vencedores do Prêmio Jabuti 2018

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa

As 20 obras mais importantes da literatura italiana

As 20 melhores utopias da literatura

20 grandes escritoras brasileiras