J.M. Coetzee - A vida escolar de Jesus

Literatura inglesa
J.M. Coetzee - A vida escolar de Jesus - Editora Companhia das Letras - 264 Páginas - Tradução de José Rubens Siqueira - Capa de Kiko Farkas / Máquina Estúdio - Lançamento: 20/08/2018 (Ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Relembrando o primeiro romance, A infância de Jesus, que originou esta continuação: um homem de meia-idade desembarca, juntamente com um menino que se perdeu da mãe durante a viagem de navio, em um continente não identificado e em uma época não definida, juntos descobrem uma sociedade que oscila entre a utopia e a distopia, uma espécie de campo de refugiados onde impera a ingenuidade e apatia dos moradores, a boa vontade de uns com os outros. Nada é revelado sobre o passado dos personagens ou sobre os motivos que os levaram ao exílio. Neste mundo, representado pela cidade de Novilla, ambos os personagens recebem novos nomes na recepção de cadastramento, o homem passa a se chamar Simón e a criança Davíd. Eles procuram a mãe de Davíd e acabam encontrando Inés, que assume a maternidade da criança. No final do primeiro romance, os três: Simón, Inés e Davíd, fogem de carro de Novilla para impedir que Davíd seja levado para uma escola em regime de internato para crianças excepcionais.

Em A vida escolar de Jesus, novamente o título apresenta uma referência que pode induzir a ideia de algum tipo de contestação religiosa, mas, na verdade, assim como no primeiro volume da série, as comparações com passagens famosas do Evangelho são tão sutilmente insinuadas que, caso não fosse o título, dificilmente perceberíamos essas possíveis conexões. Apesar da mesma narrativa simples e objetiva do sul-africano J.M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura de 2003, já utilizada em outros romances da carreira, principalmente no clássico Desonra de 1999, aqui a ausência de realismo e a superposição de metáforas fazem com que o leitor não consiga entender muito bem para onde está sendo levado e tente buscar um sentido para o enigmático romance, que lhe escapa capítulo após capítulo, mas não há saída possível quando, de repente, nos percebemos prisioneiros do texto hipnótico de Coetzee.

A inusitada família, juntamente com o cachorro Bolívar, chega até a cidade de Estrella onde Simón e Inés conseguem trabalho em uma fazenda local e o pequeno Davíd, com quase sete anos, surpreende a todos com sua inteligência precoce, contudo se torna a cada dia uma criança mais mimada e teimosa. As três irmãs, donas da fazenda, decidem financiar a educação formal do menino que, para evitar a repetição dos problemas ocorridos em Novilla, em uma escola tradicional, é encaminhado para uma Academia de Dança administrada pelo casal Arroyo: Juan Sebastián e Ana Magdalena. Durante o curso, Davíd é bastante influenciado pela bela professora Ana Magdalena e acaba incorporando os nebulosos conceitos místicos de numerologia da Academia que prega uma dança conjunta do corpo e da alma para resgatar os números das estrelas, por meio da música e da dança.
"Para fazer os números descerem de onde residem, para permitir que se manifestem em nosso meio, para lhes dar corpo, contamos com a dança. Sim, aqui em nossa Academia nós dançamos, não de um modo deselegante, carnal ou desordenado, mas corpo e alma juntos, para trazer os números à vida. Assim como a música nos penetra e nos leva a dançar, também os números deixam de ser meras ideias, meros fantasmas e se tornam reais. A música evoca sua dança e a dança evoca sua música: uma não vem antes da outra. Por isso nós nos consideramos tanto uma academia de música como uma academia de dança. (...) Se minhas palavras esta noite parecem obscuras, queridos pais, queridos amigos da Academia, isso só revela o quanto as palavras são frágeis... por isso nós dançamos. Na dança convocamos os números de onde eles vivem entre as estrelas distantes. Nos rendemos a eles na dança, e enquanto dançamos, por obra deles, eles vivem entre nós." (Pág. 72)
Simón e Inés formam um estranho casal, sem qualquer tipo de relação amorosa, o único objetivo comum é a criação e educação de Davíd. No entanto, se torna cada vez mais evidente que eles não conseguem controlar o gênio impulsivo e dominador do menino que se torna um aluno interno por vontade própria, passando toda a semana na Academia. Apesar do esforço de Simón em se aproximar e responder racionalmente e pacientemente aos frequentes questionamentos de Davíd sobre o limbo existencial no qual vivem na nova terra, sem passado e um futuro incerto, nada parece ser suficiente, a criança se afasta gradativamente dos pais adotivos e, principalmente, do pobre e injustiçado Simón. Um escândalo envolvendo o atormentado e apaixonado porteiro da Academia, Dmitri, e a professora Ana Magdalena, irá afetar a sociedade local e o destino dos personagens com consequências trágicas para todos.
"Mais tarde, quando Davíd adormece no sofá e ele está deitado na cama ouvindo os passos de camundongos no teto, ele se pergunta como vai ser a lembrança do menino dessas conversas deles. Ele, Simón, se considera uma pessoa sadia, racional, que oferece ao menino uma elucidação sadia, racional de por que as coisas são como são. Mas será que as necessidades da alma de uma criança são mais bem servidas por suas pequenas homilias secas do que pelo fantástico cardápio oferecido pela Academia? Por que não deixar que ele passe esses anos preciosos dançando os números, comungando com as estrelas na companhia de Alyosha e do senõr Arroyo, e esperar que a sanidade e a razão cheguem a seu tempo?" (Pág. 206)
Um estranho romance de formação que apresenta um pouco de utopia, distopia, alegoria, drama e muita filosofia. Enigmático e com várias interpretações, não dá muitas pistas para o leitor se apoiar, a começar pela misteriosa citação a Jesus no título. Será que os incessantes questionamentos do pequeno e mimado Davíd representam uma oportunidade de salvação para um mundo estagnado moralmente? Talvez o romance represente um alerta para o vazio existencial da nossa época, onde as pessoas vivem um presente vazio e burocrático. Finalmente, um romance corajoso na sua forma e conteúdo, com a marca de gênio de Coetzee que, como sempre, incomoda e faz pensar.

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