André de Leones - Eufrates

Literatura brasileira contemporânea
André de Leones - Eufrates - Editora José Olympio - 392 Páginas - projeto gráfico da capa: Elmo Rosa - Lançamento: 27/08/2018

Ao acompanhar a trajetória de dois jovens amigos, Jonas e Moshe, ao longo do período entre 1999 e 2013, de forma não linear e fragmentada, André de Leones vai revelando aos poucos, seja por meio das ações dos próprios protagonistas ou de suas reações aos percalços da vida, personalidades tão marcantes que conquistam a identificação do leitor, não por serem pessoas diferentes ou especiais, justamente pelo contrário, na sua simplicidade e autenticidade acabamos torcendo por eles, para que consigam ser felizes da melhor forma possível, como se fossem também nossos amigos mais próximos.

O romance é ambientado nas cidades de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belém, Buenos Aires e Jerusalém, não necessariamente nessa ordem, e a leitura flui com muita rapidez, sempre movida por diálogos bem construídos e uma constante narrativa visual, quase cinematográfica. O autor passa por eventos recentes da história brasileira, tais como: a ascensão e queda do PT com o governo Lula (2003-2011), o início do mandato de Dilma Rousseff a partir de 2011 e a onda de violentos protestos apartidários em 2013 por manifestantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que os personagens sejam atuantes politicamente, mas mesmo o seu comportamento de desilusão com os rumos do PT, no caso de Jonas, ou com a política de uma forma geral, como demonstra Moshe, reproduz também o sentimento de grande parcela da população, principalmente os mais jovens.

Contudo, definitivamente o objetivo do livro não é  discutir a política brasileira, neste seu sexto romance o autor está interessado nas relações humanas, na fragilidade emocional de Jonas e Moshe, nas diferentes formas como essa fragilidade se expressa em cada um deles. Em Jonas, por exemplo, fica nítida a insegurança que o faz chorar na frente do amigo, no balcão de um bar, pelo final anunciado de um relacionamento amoroso. Jonas é um autêntico perdedor em termos afetivos, desde o abandono pela primeira namorada que o faz fracassar no vestibular e se tornar operador de atendimento até a retomada dos estudos e se formar como advogado. Depois, a relação com Manoela onde a vida a dois é sempre definida pelas conquistas profissionais da mulher, de Brasília para São Paulo e de São Paulo para o Rio de Janeiro até descobrir, em um apartamento alugado em Buenos Aires, onde passariam as férias, que está sozinho novamente. Essa dependência fica clara no trecho que descreve as suas reações após a morte do pai.
"Parou diante de uma janela, olhou para o estacionamento lá embaixo. Por um momento, pensou nos carros como uma variedade de caixões dispostos lado a lado. Expostos. Caixões pretos, vermelhos, azuis, brancos, verdes, mas caixões. O lugar como uma imensa funerária. A cidade inteira. Então, lembrou-se do que Manoela dissera naquele quarto de hotel em Garanhuns, uma das coisas de que eu mais gosto em você, Jonas, é que você não é mórbido, e riu ali parado, sozinho. Talvez, eu esteja me tornando isso agora, pensou. Mórbido. Talvez seja uma dessas coisas que vêm com a idade, a morbidez. Um hábito que se adquire, ver o mundo como um cemitério. Se for o caso, vai sobrar alguma coisa em mim de que você goste? Não, melhor nem perguntar uma coisa dessas. Melhor não perguntar nada nesse sentido. Melhor não perguntar nada em sentido algum. Ligar para ela e dar a notícia. Contar o que tinha acabado de acontecer. Dizer justamente: 'acabou'. Dizer: ele completou a 'passagem'. Sim, fazer a ligação e voltar para o quarto, ver o que precisava ser feito, ajudar as irmãs a organizar tudo. Puxou o celular do bolso direito da calça. A bateria no fim. Haveria tempo?" - Capítulo 2 - As Abstenções (Pág. 91)
já Moshe (pronuncia-se Móshê, Moisés em hebraico) tem uma personalidade forte, mas é incapaz de se relacionar emocionalmente; não quer ter filhos e apresenta, em alguns momentos, explosões temperamentais que assustam a sua companheira Iara, fazendo com que ela decida abandoná-lo. Jonas é a única pessoa com a qual ele se sente à vontade para conversar, apesar das diferenças de personalidade. Profissionalmente, Moshe assume uma letargia e apatia que incomoda todos ao seu redor, principalmente quando vai desistindo aos poucos do mestrado para eternizar uma situação temporária como professor de inglês em um cursinho. Na origem do seu comportamento está a tumultuada relação, brigas e separação dos pais, Miguel e Nili. Posteriormente, a inesperada e violenta morte da mãe devido a um atentado realizado por um homem-bomba em um restaurante em Jerusalém, brilhantemente descrito abaixo, justamente quando ela iniciava uma nova vida com o companheiro israelense, Avi.
"Ao imaginar as circunstâncias da morte de Nili, Moshe se perguntava: ela terá olhado para o homem-bomba? Ela o terá visto? Gritado ao perceber do que é que se tratava? Procurado os olhos e a mão de Avi? Ou, caso já estivessem de mãos dadas, apertado? Sim, um último aperto antes e enquanto o ambiente ao redor era destroçado por um ódio tão mais antigo e duradouro que o amor dela por seu marido, ódio palpável como os estilhaços que voaram, rasgando, cegando, desmembrando, mutilando, matando, e talvez entre os destroços alguém depois tenha encontrado as mãos ainda unidas, arrancadas de seus respectivos corpos, simbolizando tudo o que se perdera naquele dia e no passado e também tudo o que ainda se perderá no futuro, tudo o que foi e ainda será pulverizado, devastado, destroçado, assassinado." - Capítulo 6 - Negev (Pág. 237)
No romance os homens estão sempre a reboque das decisões das personagens femininas. Assim como ocorre na "vida real", são as mulheres que iniciam, ou permitem que se iniciem, os relacionamentos e que também os terminam quando assim julgam necessário (e muitas vezes estão certas, diga-se de passagem). Jonas, Moshe e seu pai, Miguel, passam alguns maus bocados com as respectivas mulheres, mas o tom geral é de esperança, como no caso de Miguel que encontra o amor em Belém, casando-se com Sayonara Cristina, apesar dos problemas de afinidade, não exatamente com ela, mas sim com a mãe, integrante de uma comunidade evangélica local, ou Jonas e a nova namorada, Rafaela, um par que todos afirmam combinar em tudo, como durante um inusitado passeio lisérgico no centro de São Paulo.
"Ficaram mais um tempo por ali, jogando conversa fora enquanto o ácido não batia, e então resolveram ir embora, mas não para casa, queriam mesmo estar na rua quando (e se) acontecesse. Deixaram o parque, subiram a Brigadeiro Luis Antônio, de mãos dadas, sem pressa. Só quando chegavam à Paulista é que começou. O céu encoberto, carregadíssimo, e de repente a avenida sangrava luzes natalinas de uma ponta a outra; o colorido tornou-se ensurdecedoramente intenso. O vermelho, o branco e o amarelo, Rafaela parecia senti-los sob a língua, derretendo, e era como se tudo brotasse de seus próprios globos oculares, fosse emanações deles, ondas e mais ondas indo e vindo, escorrendo, arrastando-se pelos concretos acima e abaixo, céu e asfalto, prédios e pessoas." - Capítulo 9 - LSD (Pág. 343)
Dizem que a amizade masculina é mais fiel e duradoura do que a amizade entre mulheres, normalmente ameaçada por algum interesse ou competição entre elas. Talvez, como toda generalização, esta afirmação contenha um preconceito descabido, mas certas características de uma conversa de bar entre amigos são inegáveis, me perdoem as mulheres pela colocação politicamente incorreta. André de Leones soube captar essas peculiaridades com muita sensibilidade e escrever um livro que deixa saudade quando chegamos ao final; mantendo todo o tempo um estilo próprio e seguro, ele confirma o seu nome como um dos autores mais criativos no cenário da literatura brasileira contemporânea.
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