Inês Pedrosa - Desamparo

Literatura portuguesa
Inês Pedrosa - Desamparo - Editora Leya - 296 Páginas - Capa e ilustrações: Gilson Lopes - Lançamento: 15/08/2016

Inês Pedrosa confirma, neste seu sétimo romance, ser uma das vozes mais criativas da literatura portuguesa contemporânea. Desamparo apresenta uma abrangência temática que, ao descrever os movimentos migratórios entre Portugal e Brasil e suas consequências na vida dos personagens, fala de encontros e desencontros familiares, amor e morte. Permeando as questões humanas, uma visão de dois países que buscam encontrar o seu lugar em um mundo cada vez mais globalizado e que cobra um preço alto pelo ingresso na suposta modernidade, o que nem sempre representa uma garantia de melhores condições de vida para portugueses e brasileiros, muito pelo contrário.

Toda a narrativa é desencadeada pela história de Jacinta que morou no Brasil a maior parte de sua vida, tendo sido separada da mãe aos três anos. Ela, assim como os seus três filhos, Rafael, Rita e Raul, desenvolveu um português com sotaque "brasileiro", reflexo das diferenças culturais entre os dois países. Jacinta inicia um movimento de retorno às suas origens quando viaja para cuidar da mãe que ficou em Portugal e acaba se estabelecendo em uma fictícia aldeia chamada Arrifes, próxima à também fictícia e milenar vila de Lagar, testemunha de um passado histórico glorioso, mas que hoje sobrevive às custas do turismo. Este microcosmo social é a representação perfeita para Inês Pedrosa escrever sobre Portugal e seu povo hoje.

Os capítulos são intercalados por diferentes técnicas narrativas, mas sempre pontuados pela bonita prosa poética da autora, alguns de forma onisciente em terceira pessoa, outros em primeira pessoa por Jacinta, Raul e Clarisse. O trecho abaixo, por exemplo, é conduzido por Jacinta, após ser internada com oitenta e nove anos, vivendo sozinha ela conta apenas com o auxílio de um dos filhos, Raul, que decidiu, assim como a mãe, morar em Portugal com o seu sotaque "brasileiro", mas ele é justamente o filho com menos condições financeiras. É interessante notar como o texto reproduz, na fala dos personagens, características da língua como é falada nos dois países, outra oportunidade ficcional explorada com criatividade.
"O meu pai era o célebre Artur Sousa, o 'Artur Português', como lhe chamavam no meio jornalístico. Era tipógrafo de jornais, chefe de oficina muito amado pelos empregados mesmo sendo exigente e severo com eles. Aquele era o tempo da impressão a chumbo, e eu ficava fascinada com as caixas das letras, como podiam ser tão diferentes entre si. Cada tipo de letra me parecia uma pessoa com a sua personalidade própria. No Brasil, eu sempre fui a Portuguesa; em Portugal, passei a ser a Brasileira – está lá no caderninho da conta da mercearia do meu primo Zé Paulo, que não me deixa faltar nada porque sabe que eu pago: não está Jacinta Souza, está escrito "Brasileira". Agora me dou conta de que, ao contrário do que sempre pensei, isso não é ter falta de personalidade, não – é antes ter personalidade a dobrar. Descoberta tardia; tudo meu é tardio. Como se eu tivesse de aprender a perder para poder ganhar alguma coisa. As mulheres de bata azul querem à força meter-me um iogurte amargo na boca. Um iogurte sem uma gracinha, um pedacinho de fruta, nada. Me deem leite com muito chocolate que eu tomo. Mas isso elas não dão, dizem que dispara a glicose. E eu não consigo pedir. A minha língua transformou-se em pedra, uma pedra pesada e seca." (Pág. 23)
Raul é um dos personagens mais complexos, arquiteto formado no Brasil ele desenvolve a sua carreira profissional em Portugal, a princípio com muito sucesso, mas gradativamente vai tendo muitos percalços profissionais devido à crise econômica por que passa o país, problemas também amorosos fazem com que tenha uma vida solitária e sem esperanças. O seu único objetivo passa a ser cuidar da mãe sem a menor ajuda dos outros dois irmãos que são oportunistas e interesseiros. Raul, decide viver na aldeia de Arrifes, na casa da família, onde morou a avó Margarida e a mãe Jacinta. Existe uma possibilidade de redenção para Raul por meio da relação com Clarisse e a redescoberta da pintura, uma vida simples.
"O pouco que sabia de Portugal chegava-me pelas cartas da avó Margarida – nas quais tudo em Arrifes e arredores era lindo e estava à nossa espera –, da literatura obrigatória da escola, do 'Dicionário prático ilustrado Lello' em três volumes, que caprichava nos verbetes sobre a nobre Lusitânia, e da revista de quadrinhos 'Visão'. Não sei como, mas, no fim dos anos setenta, alguns exemplares desta publicação portuguesa aterravam, de vez em quando, nas bancas de jornais cariocas. Esse pequeno, belo e inocente Portugal sempre havia sido para mim uma possibilidade, uma janela de escape. Por isso me foi tão fácil permanecer definitivamente no país. Após a formatura, decidi vir passar o Natal com a minha mãe e com a mítica 'avó portuguesa' Margarida, a quem, até aos vinte e seis anos, só conhecia por cartas e por telefone. Portugal passava a ser para mim o novo mundo. Um mundo que, não sei porquê – ou antes, sei –, tinha tudo a ver comigo." (Págs. 51 e 52)
Clarisse é uma jornalista desencantada com os rumos da ética nos meios de comunicação (seria um alter ego de Inês Pedrosa, também jornalista?), ela responde a um injusto processo de difamação e se afasta dos grandes centros urbanos para viver em Arrifes. A aproximação entre ela e Raul é uma possibilidade de iniciar uma nova vida, mas será que eles conseguirão superar os seus próprios medos e arriscar tudo em nome do amor?
"Este amor assusta-me; o seu poder de êxtase é tão forte quanto o de amargura. Há dias, enquanto apertava o fecho de um vestido de pássaros coloridos de que Raul especialmente gosta, comentei que precisava de cortar no queijo e no vinho, porque estava a ficar mais gorda. Olhou para mim com um ar crítico e confirmou: 'Engordaste, sim. Uma ginasticazinha também não te faria mal.' Amuei, ele ficou zangado e disse que era triste não poder dizer-me o que pensava. Eu que fazia discursos sobre a honestidade obrigatória nas relações de intimidade, provo agora do meu próprio veneno. Raul tem uma capacidade de me magoar que nunca concedi a ninguém. Creio que nem ele mesmo se apercebe disto – e ainda bem. Não sei se esta vulnerabilidade absurda é um sinal de envelhecimento, ou de pavor de envelhecer. Os meus recursos vão diminuindo; quase não vejo ao longe sem óculos, o peso das pessoas e o peso das coisas cansam-me muito mais do que me cansavam, dou por mim ao espelho a detectar pregas que ontem não existiam no meu corpo. A Lupe diz que a velhice não significa um aumento de sabedoria e, antes pelo contrário, um refinamento de limites e defeitos: medo, mesquinhez, inveja, susceptibilidade, preguiça e orgulho adquirem preponderância sobre as virtudes inversas, naqueles que as tivessem. Um regresso à primeira adolescência, será?" (Pág. 203)
Nesta ponte ficcional entre Portugal e Brasil, Inês Pedrosa criou alguns personagens que representam muito bem esse permanente estado de desamparo que vivemos hoje em nossa sociedade, uma extrema conectividade digital e, contudo, cada vez mais solitários e sem esperanças. Talvez seja o momento de refletir sobre as coisas básicas que deixaram de ser importantes: vida, amor e morte. Simples assim. Um livro para pensar e ainda com aquele tipo de final que arrepia da cabeça aos pés, adoro essa sensação!

Clique aqui para ler a resenha no Mundo de K do romance Fazes-me Falta da mesma autora.
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