Juliana Leite - Entre as mãos

Literatura brasileira contemporânea
Juliana Leite - Entre as mãos - Editora Record - 256 Páginas - Capa de Leonardo Iaccarino sobre ilustração de Jeanie Tomanek (Paper Doll, óleo e colagem, 2009) - Lançamento: 22/10/2018.

Romance vencedor do prêmio Sesc de Literatura de 2018, Entre as mãos surpreende pela originalidade na construção do texto e uma segurança difícil de se encontrar em uma autora estreante. Alternando passado, presente e futuro, assim como diferentes vozes narrativas, Juliana Leite apresenta ao leitor uma sofrida protagonista chamada Magdalena, jovem tecelã que sobrevive a um grave acidente, passando por um longo período em coma no hospital e um posterior processo de reaprendizado da fala e de reconstrução do corpo, incluindo uma das mãos, severamente queimada, em uma imagem que é uma das chaves do livro: "usar as mãos para sobreviver".

Na verdade, o tema principal do romance é a sobrevivência em um sentido bem mais amplo do que a recuperação física devido aos efeitos brutais do acidente. Magdalena é um símbolo das violências cometidas contra as mulheres em nossa sociedade, agressões que podem ser diretas como o estupro ou mais subjetivas como a dor do abandono e da solidão ou o sofrimento causado por um aborto. Mesmo as dificuldades financeiras, que provocam as pequenas e repetidas humilhações do cotidiano, como entrar em um ônibus lotado, podem representar também uma violência permanente e silenciosa, da qual é preciso sobreviver também.

O romance é dividido em três partes: Trama, Avesso e Linhas soltas, que fazem com que a evolução da escrita reproduza o processo de costurar tapetes, a criação de uma trama que se forma ao entrelaçar linhas soltas de diferentes cores. Fica muito claro para o leitor esta intenção da autora ao intercalar múltiplas vozes narrativas no tempo e no espaço, até que surja gradualmente uma imagem mais nítida do que realmente aconteceu com a protagonista. No entanto, o leitor certamente vai se surpreender com o desenho final que pode desfazer o pretenso entendimento da função e destino de cada personagem no livro.

Na primeira parte, o companheiro de Magdalena acompanha os procedimentos da equipe médica no atendimento de emergência logo após o acidente. Uma descrição bastante intermitente e fragmentada dá as primeiras orientações ao leitor sobre a vida do casal antes do acidente e de como este ocorreu, mas ainda ficam muitas lacunas sem explicação. A narrativa entrecortada parece simbolizar o estado precário da protagonista e a urgência da situação que está ocorrendo, uma luta entre a vida e a morte.
"São cinco ao mesmo tempo, três de azul, dois de branco. Um monitor transmite linhas verdes, apita de vez em quando. Eles só reagem a um dos apitos, o contínuo. Se debruçam sobre ela e empurram o peito contra a cama até que o barulho do monitor volte a ser de goteira. Até agora aconteceu duas vezes. Até agora funcionou. Na última, foi possível ouvir daqui de fora um barulho seco, uma haste se partindo dentro do peito dela. Foi a costela, um deles disse, só pode ter sido. Ficaram de conferir daqui a pouco." (Pág. 13)
Na segunda parte, a voz narrativa muda do companheiro em primeira pessoa para uma Magdalena que, olhando retrospectivamente para o passado, se dirige a si mesma, agora em segunda pessoa, refazendo o caminho da reconstrução do corpo. Neste processo, a história dos seus pais e da família assume um papel muito importante na trama, particularmente a ajuda das tias em todo o tratamento, depois da alta do hospital. A partir deste ponto fica mais claro para o leitor o que realmente ocorreu antes e depois do acidente.
"Me sentei há pouco aqui com as folhas que trazem a tua letra, com os teus objetos guardados, esse conjunto: miudezas que você juntou criando uma costura. Reconheço a tua escolha por escrever a partir dos objetos — começar por aquilo que persistia real, para então compor as circunstâncias ao redor. Assim pareceu ser possível se lembrar do resto, certo?, ou no mínimo pressupor, imaginar. Não faria diferença entre uma coisa e outra, no nosso caso, desde que tivéssemos um registro. Algo em mãos." (Pág. 147)
E aparece, então, a força da escrita na reconstrução e transformação da protagonista em outra mulher, bem diferente e mais forte do que aquela de antes do acidente. A tragédia certamente nunca foi superada, mas a sobrevivência em cada pequena vitória do cotidiano leva a jovem tecelã a um caminho de superação e amadurecimento no qual as atividades manuais e o próprio ato de escrever exercem um papel decisivo de força e resistência.
"Se sentou para escrever uma mulher — um centro, uma casa, um relevo, uma mulher que pudesse ser você, mas que fosse de imediato algo mais do que isso. Algo inexato e, por isso, múltiplo. (...) Começar pelas vozes, era o que você queria. Quais delas você escolheria, como falariam?, um encontro entre elas?, trocas de palavras?, como se resolveriam sobre o que veio antes e depois do teu corpo inexplicavelmente deitado sobre o asfalto?" (Pág. 148)
Na terceira parte, como se deduz pelo título, Linhas Soltas, uma série de fragmentos isolados descrevendo os diálogos no hospital (que eram escritos devido à perda da fala) e também outras passagens, como as alterações nas rezas, um recurso muito bem explorado já na primeira parte, encerram o romance construído sobre uma estrutura que, se não chega a ser experimental, exige bastante atenção do leitor mas se revela no final uma leitura muito recompensadora e envolvente. Mais uma revelação e contribuição importante do Prêmio Sesc para a literatura brasileira contemporânea.

Juliana Leite (Petrópolis, 1983) é graduada em Comunicação Social pela UERJ e mestre em Literatura Comparada pela mesma instituição. Integra a antologia 14 novos autores brasileiros, organizada por Adriana Lisboa. Em 2018, foi selecionada para a residência artística Publication Intensive da revista de arte contemporânea Triple Canopy (NY). Vive no Rio de Janeiro. Entre as mãos é seu primeiro romance.
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