Tobias Carvalho - As coisas

Literatura brasileira contemporânea
Tobias Carvalho - As coisas - Editora Record - 144 Páginas - Capa: Renan Araujo - Lançamento: 22/10/2018.

Vencedor do prêmio Sesc de Literatura de 2018 na categoria de contos, Tobias Carvalho apresenta uma variedade de técnicas narrativas em As coisas, mas sempre com base em uma mesma unidade temática, que ainda enfrenta barreiras para encontrar espaço na literatura brasileira, os encontros e desencontros de um jovem homossexual em nossa época de redes sociais e aplicativos de encontros sexuais. O texto, direto e sem concessões, descreve uma realidade que ainda tem muito de clandestina e é ignorada ou evitada por grande parte da sociedade brasileira, com poucos autores dedicados, como o já clássico Caio Fernando Abreu ou, mais recentemente, João Silvério Trevisan.

Normalmente, como não poderia deixar de ser, trata-se de uma literatura de resistência, marginalizada e impregnada de contestação e ativismo político. No entanto, seria uma injustiça com Tobias Carvalho, aprisionar o seu livro em algum tipo de categoria, como literatura LGBT. Os seus textos extrapolam em muito o caráter panfletário, sendo dotados de rara sensibilidade ao descrever as situações de incompreensão familiar e inadequação social, na escola, no trabalho ou entre amigos. As narrativas, bem-humoradas ou mais sofridas, têm em comum o tom confessional ao falar das relações humanas e do medo da solidão, seja na busca de um amor verdadeiro ou simplesmente por meio do sexo casual e compulsivo, "um tipo mais sofisticado de masturbação" como bem define um dos personagens.

Um dos melhores contos, "O pai", que poderia constar de qualquer antologia de literatura contemporânea, descreve o conflito familiar que muitas vezes norteia a questão da opção sexual dos filhos, não respeitada pelos pais que preferem se preocupar com a opinião dos vizinhos, dos amigos e do resto da família, reagindo de uma forma que leva sempre ao sofrimento de todos, com uma mistura de frustração e ódio. Os trechos abaixo mostram a tensão represada, que pode explodir de um momento para outro, quando a notícia tantas vezes evitada não consegue mais ser contida e a verdade definitiva afasta pai e filho, cada um em sua vida, uma história que, infelizmente, é mais comum do que se imagina.
"Aconteceu pela primeira vez quando contei pra ele. Aconteceu e me atingiu como um tiro, um tiro dentro de uma sala pequena, à queima-roupa. Já havia se passado uma hora. Ele estava no quarto; eu, na cozinha, bem onde estávamos na hora da conversa. [...] Naquele dia, fiquei sentado por uma hora na cozinha. Vi teu choro, quando tu estava ainda sentado, e tua agressividade, toda liberta pelo corpo nos gestos, quando tu quase veio pra cima de mim. Parou porque por um momento conseguiu se lembrar de me olhar. Deve ter visto medo, não raiva. [...] No balcão, havia um faqueiro. Vários cabos de plástico se ofereciam a quem quisesse cortar, prejudicar, desfazer. Olhei pra aquele faqueiro durante vários minutos quando meu pai já estava no quarto, e pensei em como eu poderia abreviar anos de tortura. [...] Agora eu posso finalmente retomar o lugar que era meu quando nasci. Posso ostentar minha saúde enquanto te vejo apodrecer em uma casa escura, consumido pelos vermes que se deliciam mais quando a carne é podre. Talvez tu não tenha percebido ainda, pai. Tu já morreu. Está em alto sono. Congelado em uma década que há muito passou, de olhos abertos pra ver o mundo passar como um trem-bala. [...] Talvez a narrativa que eu escolhi pra mim te dê asco. Talvez teu silêncio dure pra sempre, ou tu apenas mude de assunto. Acho até que tu consegue viver muito ainda. [...] Mas não a minha vida. Pai, essa tu vai ter que deixar pra mim." - Conto "O pai" (Págs 51 a 56)
O autor estreante escreve com coragem e verdade sobre pessoas e sentimentos, sobre um amor que nem sempre é fácil de entender e pode surpreender, mas todos os amores não se comportam exatamente dessa mesma forma? "Amar sobrecarrega, nem bom nem ruim, um tudo que compreende o mundo inteiro, corroendo, viciando, doendo, impossível que não. Não existe nada que traga tanta destruição, ou que pelo menos dissolva tanto os outros sentimentos. O ruim e o bom do amor é que ele inunda." — Jovem autor com literatura de gente grande.

Tobias Carvalho nasceu em Porto Alegre em 1995. Cursa Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e já participou de oficinas literárias. As coisas, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2018, é seu livro de estreia.
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