Teju Cole - Cidade Aberta

Literatura norte-americana contemporânea
Teju Cole - Cidade Aberta - Editora Companhia das Letras - 320 Páginas - Tradução de Rubens Figueiredo - Capa de Elisa v. Randow sobre fotografia Placa (2010) de Emmanuel Nassar - Lançamento: 15/06/2012 (Ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Nascido em 1975, Teju Cole é um escritor e fotógrafo nigeriano radicado nos EUA, onde mantém uma coluna no New York Times Magazine sobre fotografia e leciona escrita criativa em Harvard. Seu segundo romance, Cidade Aberta, publicado originalmente em 2011foi vencedor de importantes prêmios literários no mercado editorial norte americano em 2012, como o PEN/Hemingway Award e também finalista do National Book Critics Circle Award. O protagonista é um jovem imigrante nigeriano chamado Julius que guarda muitas semelhanças com o próprio Teju Cole. Vivendo em Nova York, Julius é um estudante de pós-graduação em psiquiatria, separado recentemente da namorada e que costuma fazer longas caminhadas pela cidade de Manhattan, durante as quais observa e comenta, desde o movimento migratório dos pássaros até os monumentos históricos da cidade, sempre com muitas referências à literatura e arte.

O romance certamente tem muito de autobiográfico e é composto, na sua maior parte, por narrativas longas e detalhadas das ruas e habitantes de Nova York, tendo muito pouca ação e diálogos, o que poderá desmotivar leitores pouco acostumados a este tipo de texto reflexivo e, de certa forma, memorialista — um estilo muito comparado ao do escritor alemão W.G Sebald (1944-2001) pela crítica literária. As caminhadas de Julius revelam um sentimento de liberdade que é, na verdade, contrastante com a solidão da vida nas grandes cidades. Ao longo do livro, de forma fragmentada, o protagonista relembra passagens de sua infância na Nigéria em contraponto com a sua condição atual de imigrante.
"As caminhadas atendiam uma necessidade: representavam um alívio do ambiente mental rigidamente controlado do trabalho, e assim que descobri que eram uma terapia, tornaram-se algo normal, e esqueci o que era a vida antes de eu começar a dar minhas caminhadas. O trabalho era um regime de perfeição e competência e não admitia improvisação nem tolerava erros. Por mais interessante que fosse meu projeto de pesquisa — eu fazia um estudo clínico sobre os distúrbios afetivos em idosos —, o grau de minúcia que a pesquisa exigia era de uma complexidade que ultrapassava qualquer outra coisa que eu tivesse feito até então. As ruas serviam como um bem-vindo oposto de tudo aquilo. Cada decisão — onde dobrar à esquerda, quanto tempo ficar perdido em pensamentos diante de um prédio abandonado, onde parar para ver o sol se pôr sobre Nova Jersey ou despencar nas sombras do East Side, de frente para o Queens — era algo irrelevante e, por esse motivo, servia como uma evocação da liberdade. Eu percorria os quarteirões da cidade como se medisse as distâncias com meus passos, e as estações de metrô serviam como motivos recorrentes em minha marcha sem destino. A visão de grandes massas humanas descendo afobadas para câmaras subterrâneas era perpetuamente estranha para mim, e eu tinha a sensação de que a raça humana inteira se precipitava, empurrada por um impulso de morte antinatural, rumo a catacumbas móveis. Na superfície da terra, eu estava com milhares de outros em sua solidão, mas dentro do metrô, de pé entre desconhecidos, empurrando e sendo empurrado em busca de espaço e de uma brecha para respirar, todos nós reconstituíamos traumas não admitidos, a solidão intensificada." (Pág. 14)
Juntando as partes do passado de Julius que são reveladas aos poucos, de forma não linear, o leitor toma conhecimento da sua ascendência nigeriana por parte de pai e alemã pela mãe, heranças culturais tão diversas que fazem da busca da identidade uma das chaves principais do romance. O protagonista nunca está completamente integrado à paisagem local, seja em seu país natal ou nos Estados Unidos, sendo um mero observador da vida de outras pessoas, talvez uma razão para as caminhadas aleatórias pelas ruas de Nova York.

Durante uma viagem de férias na Bélgica em busca de informações sobre sua avó alemã que havia se mudado para lá há muitos anos, o olhar fotográfico de Julius descreve a cidade de Bruxelas e a vida de imigrantes na Europa em um mundo globalizado, mas que revela uma aversão crescente a refugiados, principalmente em uma época pós-Onze de Setembro, com uma série de eventos de ódio racial. É por meio da proprietária do apartamento que ele aluga em Bruxelas, Mayken, e um imigrante marroquino, funcionário de uma lan house, Fariq, que Julius conhece mais sobre a comunidade local e a sensação de não pertencimento.
"Pensando melhor nas afirmações de Mayken, concluí que eu estava enganado. O que Farouq recebia no bonde não eram rápidos olhares desconfiados. Era um medo fervilhante e mal contido. A clássica visão contra os imigrantes, que os encarava como inimigos que competiam por recursos escassos, estava convergindo com um renovado temor do islã. Quando Jan van Eyck retratou a si mesmo num grande turbante vermelho na década de 1430, deu um testemunho do multiculturalismo da cidade de Ghent no século XV, onde o estrangeiro nada tinha de incomum. Turcos, árabes, russos: todos faziam parte do vocabulário visual da época. Mas o estrangeiro continuou um estranho e se converteu num alvo para novos descontentamentos. Ocorreu-me também que eu não estava numa situação tão radicalmente diversa da de Farouq. Meu aspecto  o estrangeiro de pele escura, solitário, que não sorri — fazia de mim um alvo para a raiva sem forma dos defensores de Vlaanderen. Num lugar errado, eu poderia ser visto como um estuprador ou um 'viking'." (Pág. 130)
O conhecimento enciclopédico de Julius, ou é claro do próprio Teju Cole, nas áreas de literatura, arte e cultura, nos proporciona os melhores momentos do livro, seja analisando a biografia e as sinfonias de Gustav Mahler (1860-1911), comentando uma exposição no Museu de Arte Folclórica Americana sobre o desconhecido pintor norte-americano John Brewster Jr. (1766-1854) ou simplesmente descrevendo o ambiente em um vagão de metrô em Nova York, uma das cidades mais fascinantes do mundo, o livro é menos um romance e mais um diário inspirador que certamente despertará o apetite intelectual do leitor.

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