Jhumpa Lahiri - O Xará

Literatura contemporânea
Jhumpa Lahiri - O Xará - Editora Globo, Biblioteca Azul - 344 Páginas - Tradução de Rafael Mantovani - Capa: Adriana Bertolla Silveira (Female Infanticide, de Rani Jha) - Lançamento: 01/06/2014.

Jhumpa Lahiri nasceu em Londres, filha de indianos, contudo sua família se mudou para os Estados Unidos quando ela tinha apenas dois anos. O seu livro de estreia, uma coletânea de contos lançada originalmente em 1999 com o título de Interpreter of Maladies (publicado no Brasil como Intérprete de Males), foi vencedor do Pulitzer Prize de ficção e do Ernest Hemingway / PEN Award, duas premiações concedidas em 2000. Em 2003 lançou seu primeiro romance, The Namesake (traduzido no Brasil como O Xará). Dez anos depois, em 2013, foi finalista dos prêmios Man Booker Prize e do National Book Award com o romance The Lowland (lançado no Brasil como Aguapés). Atualmente, Jhumpa Lahiri mora na Itália com o marido e os dois filhos e passou a escrever e publicar apenas na língua italiana. Toda a sua obra trata da adaptação cultural de imigrantes indianos vivendo no exterior, tendo, portanto, muito de autobiográfico.

Gógol Ganguli é o protagonista de O Xará, filho de pais imigrantes bengalis que se mudaram de Calcutá para os Estados Unidos nos anos sessenta em busca de melhores oportunidades de trabalho. Depois de um casamento arranjado pelas famílias, o casal jovem e inexperiente encontra muitas dificuldades para se estabelecer longe de seu país natal, Ashoke é professor universitário de Cambridge e Ashima uma dona de casa que sente mais os efeitos da solidão, eles buscam conviver com outras famílias de imigrantes e manter os costumes religiosos e culturais de seus antepassados. Um desses costumes é o procedimento para escolha do nome dos filhos, segundo a tradição todos têm o direito a um nome "bom" (geralmente escolhido pela pessoa mais velha da família) e um nome de "criação" bengali, conforme o trecho abaixo:
"Além disso, sempre existem os nomes de criação como solução provisória: uma prática da nomenclatura que atribui dois nomes para toda e qualquer pessoa. Em bengali esse nome de criação é o 'daknam', que significa literalmente o nome pelo qual se é chamado por amigos, parentes e outras pessoas íntimas, em casa e em outros momentos de descontração. Os nomes de criação são um resquício persistente da infância, um lembrete de que a vida nem sempre é tão séria, tão formal, tão complicada. Também são um lembrete de que uma pessoa não é a mesma para todas as outras. Todos eles têm nomes de criação. O de Ashima é Monu, o de Ashoke é Mithu, e mesmo quando adultos, esses são os nomes pelos quais são conhecidos em suas respectivas famílias, os nomes que os outros usam quando os adoram, quando os repreendem, quando os amam e sentem sua falta. [...] Todo nome de criação é acompanhado de um nome bom, um 'bhalonam', usado como identificação no mundo externo. Consequentemente, os nomes bons aparecem nos envelopes, nos diplomas, nas listas telefônicas e em todos os outros lugares públicos." (p. 37)
O parto de Ashima acaba sendo antecipado e surpreende o casal ainda sem ter escolhido o nome do filho, como o bebê precisa ser registrado antes da saída do hospital, Ashoke, o pai, decide registrá-lo com um nome de "criação" inspirado no escritor russo Nikolai Gógol, uma fixação literária de sua juventude que se tornou ainda mais forte quando ele foi resgatado milagrosamente de um violento acidente ferroviário devido ao fato de ter acenado para o grupo de resgate com o resto das páginas do livro que estava lendo no momento do choque repentino. Como se não bastassem os conflitos de identidade vivenciados por um filho de pais imigrantes, o nosso protagonista ainda terá que lidar com este "pequeno" problema adicional, um nome que não encontra nenhuma semelhança na terra de seus antepassados, assim como no país em  que nasceu, um sobrenome russo que se torna o seu nome nos registros oficiais de nascimento, para eventualmente ser modificado quando houver uma decisão quanto ao seu nome "bom". No entanto, o tempo passa, a carta da avó de Ashima se perde com a sugestão do nome e o protagonista permanece como Gógol Ganguli por toda a infância e adolescência.
"Pois a essa altura, ele passou a odiar perguntas relacionadas a seu nome, odeia ter que explicar o tempo todo. Odeia ter que dizer às pessoas que não significa nada 'em indiano'. Odeia ter que usar um crachá preso ao suéter no dia das Nações Unidas na escola. Odeia inclusive assinar seu nome embaixo de seus desenhos na aula de artes. Odeia que seu nome seja tanto absurdo quanto desconhecido, que não tenha nada a ver com quem ele é, que não seja nem indiano nem americano, mas justamente russo. Odeia ter que conviver com isso, com um nome de criação transformado em nome bom, dia após dia, segundo após segundo. Odeia ver esse nome no envelope de papel pardo da assinatura da 'National Geographic' que os pais lhe deram de aniversário no ano anterior e eternamente presente na lista de estudantes de destaque impressa no jornal da cidade. Às vezes seu nome, uma entidade sem forma e sem peso, consegue mesmo assim incomodá-lo fisicamente, como a etiqueta áspera de uma camisa que ele foi obrigado a usar para sempre." (p. 95)
O casal Ganguli tem mais uma filha, Sonia, que assim como Gógol não se interessa pelas questões de tradição e cultura familiares. Muito a contragosto eles são levados pelos pais para passar temporadas em Calcutá onde se sentem inadequados entre os familiares como se fossem meninos americanos. Esta negação da história familiar — e do próprio nome — permanece por toda a juventude de Gógol que tentará oficializar a mudança de seus registros oficiais para Nikhil Ganguli (um procedimento relativamente simples nos Estados Unidos). Com o amadurecimento, Gógol (ou Nikhil como ele passa a ser conhecido a partir da faculdade) entenderá melhor os sentimentos dos pais, fazendo as pazes com sua origem bengali.

Um romance sensível e muito bem escrito sobre uma história de vida comum, como tantas outras, ao descrever os conflitos de identidade e inadequação dos personagens, certamente irá mexer muito com o lado emocional de filhos de imigrantes de qualquer nacionalidade que reconhecerão muitas das questões e dificuldades vivenciadas por suas famílias para conseguir se inserir em uma nova cultura, sem esquecer de suas raízes.

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