Michel de Oliveira - O sagrado coração do homem

Literatura brasileira contemporânea
Michel de Oliveira - O sagrado coração do homem - Editora Moinhos - 164 Páginas - Capa: Sérgio Ricardo - Lançamento: 2018 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Os contos do escritor e jornalista sergipano Michel de Oliveira, guardam entre si a mesma referência temática, uma tentativa de desconstrução do modelo clássico de masculinidade, como foi idealizado ao longo do tempo, por meio da religião, ciência ou das artes em geral. Na verdade, o autor demonstra como o comportamento do homem nem sempre refletiu a moralidade e a suposta grandeza de caráter da qual tanto se orgulha, muito pelo contrário, agindo na sociedade como uma ameaça para a preservação da própria espécie, alguns representantes do gênero masculino agridem os seus semelhantes e o meio ambiente em que vivem, como constatamos nos flagrantes e vergonhosos atos de misoginia, homofobia e violência em nosso cotidiano.

Os contos são apresentados em uma espécie de analogia com os textos bíblicos o que, como se já não bastasse a provocativa capa – que mostra um "detalhe" característico da estátua David de Michelangelo de cabeça para baixo –, bastante arrojada para os protocolos e algoritmos caçadores de perversões das nossas redes sociais, poderá provocar a reação de grupos que têm demonstrado grande preocupação com a moral e os bons costumes, notadamente na esfera política atual brasileira. Já no primeiro texto o autor deixa clara a linha narrativa que será desenvolvida em sua ficção, apresentando com muita ironia o homem e a mulher com traços bem marcantes, as fêmeas (antes de se chamarem mulheres) "movidas pelo instinto animal de preservar a vida" e vivendo em função dos ciclos da natureza, os machos (antes de se chamarem homens) como um "mal necessário à perpetuação da espécie".
"Ajuntavam-se num recôndito protegido por árvores de densas copas. Quase mulheres, pois ainda não eram. Por algum acidente inexplicável, traziam crias inacabadas nos braços. Ao contrário das coirmãs macacas, cujos filhos aos pelos se agarravam tão logo vinham ao mundo, os nascidos das aberrações primatas eram inaptos. Aquelas quase mulheres, movidas pelo instinto animal de preservar a vida, foram obrigadas por seus filhotes moles a esperar. [...] Passadas muitas estações, firmaram sofisticados vínculos. Elas habilitaram o prenúncio da linguagem, observaram os ciclos da Natureza, perceberam a gestação das plantas, intuíram a fertilidade do solo, dominaram o fogo, criaram os artefatos elementares, estabeleceram os primeiros ritos, se deram conta da morte com filhotes inertes nos braços. [...] Os machos da espécie viviam na ronda dos bandos organizados de fêmeas, comiam os restos, aproveitavam os sobejos e se apropriavam dos despojos. Apresentavam desenvolvimento menos acentuado, com linguagem e contatos rudimentares, além de utilizar artefatos defasados em relação às quase mulheres. Eram um risco, agrediam as fêmeas se sozinhas e podiam devorar-lhes os filhotes. [...] Eles se especializaram na violência, pouco cooperavam com o desenvolvimento da espécie. Ao contrário, eram a primeira ameaça. Viviam isolados, competiam entre si, em parcerias pouco duradouras, para atacar alguma presa ou saquear o que as quase mulheres cultivavam. Mantinham-se à espreita, eram mal necessário à perpetuação da espécie." - Antes de Deus (pp. 11 e 12)
Nesta sua segunda antologia de contos, depois da elogiada estreia com “Cólicas, Câimbras e Outras Dores” (Editora Oito e Meio, 2016), finalista do prêmio Sesc de Literatura, Michel de Oliveira mais uma vez não foge das polêmicas que o seu livro possa provocar e aborda temas delicados, principalmente quando desnuda o homem, não nas grandes lutas ou fracassos, mas na pequenez da sua transitoriedade, na fragilidade diante do mundo, no pavor de falhar ou na eterna aversão pelo ridículo. Me ocorre uma comparação com o famoso trecho do poema em linha reta de Fernando Pessoa: "Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, / Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo."
"Deus, como não compreendo Sua grandeza, ajude-me a entender, ao menos, minhas limitações. Que é o homem? Angustia-me não ter resposta, sem saber que é o homem, torno-me incapaz de estar em mim. [...] Vi um homem descalço, dormindo sobre colchão sujo. É ainda homem? Sim, era um homem descalço. Homem, ainda que descalço. Estar descalço faz dele menos homem? Ou estar calçado faz de mim aquém do homem? Importa estarem calçados ou descalços, ou que sejam pés? Talvez o homem se defina por ter pés, estejam no chão ou resguardados em sapatos. Mas não, ainda que faltem pés, continua a ser homem. Então o homem não se faz de completude. Mesmo a faltar pedaços, é ainda homem. [...] Será o homem feito de sua dor? Ou será homem aquele que causa dor? Ajude-me a encontrar respostas, não há maior agonia que desconhecer a si mesmo. Tu, Deus, podes bradar: Sou o que Sou. A mim, resta questionar: o que sou? São os homens a sobra de Ti ou atestados de Sua incompletude?" - Lamentações - O Velho Novo Testamento (pp. 63 e 64)
Poderíamos argumentar sobre a necessidade de uma abordagem mais humanista e menos polarizada na questão de machismo ou feminismo, no entanto, como homem, não posso evitar o sentimento de vergonha ao constatar como nós, irmãos de gênero, contribuímos negativamente, seja no campo pessoal, político ou profissional para a proteção e desenvolvimento da nossa própria espécie e sendo, ao contrário, uma das suas principais ameaças. Um livro original e muito oportuno para refletir sobre o nosso tempo. Algo me diz que ainda ouviremos falar muito neste assunto, durante o ano e também nos próximos.
"Homens são dirigidos por seus falos. A pequena enguia de carne flácida governa o corpo. É o cetro ativo que enrijece a sensação de poder e força. Único pedaço de sensibilidade; porção vulnerável num corpo hermético, de armadura, blindado. É pelo pau que os homens choram. Pobre homem, cuja medida se resume a poucos centímetros do que se mostra. Uma mulher não se mede, desbrava-se em profundidades." - Via-crúcis do macho - Terceira estação: o homem e suas medidas - O Novo Velho Testamento (p. 80)
Michel de Oliveira é natural de Tobias Barreto, Sergipe. Vive em Porto Alegre, onde cursa o doutorado em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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