Maria Valéria Rezende - Carta à rainha louca

Literatura brasileira contemporânea
Maria Valéria Rezende - Carta à rainha louca - Editora Alfaguara - 144 Páginas -  Capa: Estúdio Bogotá - Lançamento: 14/04/2019.

Maria Valéria Rezende já é um nome consagrado na literatura brasileira contemporânea, tendo sido vencedora de alguns importantes prêmios nacionais e internacionais com os livros: Quarenta dias (Jabuti 2015) e Outros cantos (terceiro lugar do Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas, todos em 2017). Seu mais recente lançamento é um romance histórico inspirado por cartas que a própria autora pesquisou há algum tempo entre os documentos do Arquivo Ultramarino de Lisboa, parte de um processo incompleto contra uma mulher acusada de manter um convento em Minas Gerais no século XVIII, sem autorização da igreja e da Coroa. 

Este processo inspirou Maria Valéria a criar uma narradora-protagonista fora dos padrões possíveis para uma mulher no Brasil colonial do Setecentos. Isabel Maria das Virgens não servia para o casamento porque era pobre e, portanto, não tinha o dote necessário, contudo, por outro lado, também não poderia ser considerada como uma escrava porque era branca. Filha de um português que emigrou para o Brasil em busca de fortuna, como tantos outros, ela é criada em um engenho onde o pai trabalhava como capataz e foi educada juntamente com a filha do proprietário, Blandina de Castro e Freitas, por isso consegue aprender a ler e escrever, um direito que normalmente era negado às mulheres.

O romance é dividido em quatro partes, de 1789 a 1792, período em que Isabel se encontra detida no Recolhimento da Conceição, cidade de Olinda, espécie de convento já que não existiam prisões femininas na época, esperando ser deportada para julgamento em Portugal e acaba sendo esquecida pelas autoridades. Ela decide então escrever uma longa carta em sua defesa à rainha Maria I de Portugal, conhecida como a rainha louca. Nesta carta, trinta anos depois dos fatos narrados, ela descreve a sua vida de infortúnios e perseguições. O livro representou um desafio técnico adicional ao demandar um texto com um vocabulário convincente de época e, ao mesmo tempo, acessível para o leitor de hoje.
"Não cuideis que exagero, Majestade, poia é a pura verdade o que Vos digo. Esse é o destino das mulheres que, não sendo cativas por lei, talvez cheguem a viver em maior penúria e abandono do que as mulheres escravizadas e vendidas a bom preço nos mercados, porque a estas proveem os senhores de um mínimo para que não se lhes perca o cabedal, como não se deixa perder por nada uma mula ou um jumento, pois uma única negra jovem o bastante e de boa saúde para parir outros cativos ou bastardos para seu dono chega a valer muito mais do que um rebanho de dezenas de reses. Já as mulheres brancas que nada possuem, tal qual sou eu, que não servem para o trabalho nos canaviais e nas minas nem para parir crias cativas para seus senhores, sem dote para casar-se nem para tornar-se monjas nos mosteiros ou em simples recolhimentos desta terra, não estando destinadas a dar-se em matrimônio como penhor de alguma aliança, não se podendo tampouco vendê-las ou não se querendo comprá-las, nada valem, ainda menos se algum homem as desonrar à força, cousa tão fácil de acontecer nesta terra sem lei onde eles tudo podem." (p. 12)
As pesadas críticas ao sistema de governo da colônia e sobre a atuação da igreja católica na época são inseridas no texto e rasuradas (riscadas) em uma divertida forma imaginada pela autora, para reproduzir, dessa forma, uma espécie de autocensura da narradora que tinha o justificado receio de ser considerada louca, assim como a sua Soberana ou qualquer outra mulher que desafiasse as regras do sistema patriarcal da colônia. O poder das instituições controladas pelos homens era de tal forma inquestionável que a própria Isabel, em determinado trecho da carta, suspeita ser mesmo insana: "Como poderia eu, de outro modo, conceber as estranhezas que penso e jamais ouvi pronunciar por outrem?" (p. 11)

Isabel servia à senhora Blandina de Castro e Freitas que teve o seu nome transformado para Sóror Blandina das Sete Chagas de Cristo quando foi enclausurada à força pelo próprio pai no Convento de Santa Clara do Desterro na Bahia, depois de ter sido "desonrada" pelo sedutor Diogo Lourenço de Távora. Apesar da relação de serva e senhora, Isabel e Blandina são criadas como irmãs desde pequenas e uma forte relação de amizade se forma entre elas. Ao escrever sobre os motivos que levaram ambas ao enclausuramento, a narrativa, inserida na carta, se torna mais veloz, como um romance de época em primeira pessoa. 
"Crescíamos, Blandina e eu, nossos corpos ganhavam novas formas e mais nos acautelava Engrácia contra o perigo dos machos brutos, sem no entanto instruir-nos nos detalhes e apenas os adivinhávamos ao espiar os bichos e a perguntar-nos se aquilo se daria também entre homem e mulher. Sabíamos que nos devíamos afastar deles e nunca permitir que nos tocassem, senão quando nos fossem dados como esposos e como tal abençoados. Mal sabíamos nós que a natureza tem suas manhas e modos de vencer pela força das nossas entranhas as virtudes infundidas pela família e a religião. Puras devíamos e queríamos permanecer até o dia das bodas, mais certamente as de Blandina do que as minhas, que a falta de dote afastava para além de qualquer horizonte. Consolava-me a certeza de que, para onde fosse minha irmã Blandina, também iria eu, pois ela não se passava nunca de minha companhia. [...] Jamais poderíamos ter vislumbrado o destino que nos esperava, a ambas, até o dia em que nos deparamos com ele, o sedutor, o irresistível e astucioso que nos encantou e enganou, o lúbrico e mentiroso, ou verdadeiro e apaixonado, nunca o saberíamos ao certo, ele cuja imagem nunca mais nos deixou em paz, Diogo Lourenço de Távora, demônio com feições e voz de anjo." (p. 62)
A partir do enclausuramento das duas amigas no Convento do Desterro na Bahia, uma série de eventos e reviravoltas na trama, que obviamente não pretendo contar para não tirar o prazer da  leitura, faz com que Isabel tenha que lutar pela sobrevivência com seus poucos recursos em uma terra violenta. Muito mais do que uma narrativa de aventuras de época que descreve em detalhes um mundo controlado por homens, embora também o seja, o romance é uma apaixonada homenagem ao poder da palavra escrita, sempre uma esperança de justiça e libertação em qualquer época.

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