Ian McEwan - Máquinas como eu

Literatura inglesa contemporâneaIan McEwan - Máquinas como eu: e gente como vocês - Editora Companhia das Letras - 328 Páginas - Tradução de Jorio Dauster - Capa de Claudia Espínola de Carvalho - Lançamento: 19/06/2019.

Ian McEwan está de volta com o brilhantismo técnico de sempre, confirmando a sua posição de destaque na literatura inglesa contemporânea. Depois do romance Enclausurado, onde o mais improvável dos protagonistas, um feto no nono mês de gestação, é o responsável pela narrativa em primeira pessoa dentro da barriga da mãe, ele assume agora os riscos de trabalhar em seu mais recente lançamento com um tema já abordado muitas vezes na literatura e também no cinema: os dilemas éticos e morais decorrentes da convivência com androides dotados de aparência humana e alta inteligência cognitiva.

A escolha óbvia da maioria dos escritores seria a de ambientar os personagens em um distante futuro distópico, no entanto isso não representaria um desafio suficiente para McEwan. Em Máquinas como eu, o romance tem como pano de fundo a cidade de Londres em 1982 com algumas importantes diferenças históricas. No passado inventado pelo autor, ocorre uma derrota contundente dos ingleses para os argentinos na disputa pelas ilhas Falkland, ou Malvinas, provocando a perda de popularidade de Margaret Thatcher, o que acabou antecipando a queda da então primeira-ministra e o debate sobre o Brexit, exatamente o oposto do que aconteceu na realidade – a "dama de ferro", como ficou conhecida, permaneceu por onze anos no poder, de 1979 a 1990 e apoiou a adesão britânica à Comunidade Econômica Europeia.

Contudo, a diferença marcante neste "novo" passado, que conta até mesmo com o retorno dos Beatles, apagando da história o assassinato de John Lennon em 1980, é a antecipação do desenvolvimento tecnológico como o conhecemos hoje, incluindo o uso da internet e celulares, o que possibilitou a chegada ao mercado do "primeiro ser artificial convincente" em 1982. MacEwan resgata também em sua ficção um outro personagem histórico injustiçado em seu próprio país, o matemático Alan Turing (1912-1954), um gênio da matemática e pioneiro na pesquisa sobre inteligência artificial e ciência da computação, que cometeu suicídio com apenas 41 anos devido à humilhação pública por ter sido condenado em um processo por "vícios impróprios", como era definido o homossexualismo na época, e condenado a "terapias" à base de estrogênio como alternativa à prisão, o que equivalia à castração química.

A narrativa é conduzida por um protagonista pouco confiável, Charlie Friend, que aos 32 anos já acumula uma série de fracassos em esquemas mirabolantes  que nunca deram certo, ele é um amante da eletrônica, formado em antropologia, mas sobrevive jogando pela internet no mercado de ações e de câmbio. Quando uma primeira edição de apenas vinte e cinco androides é lançada no mercado, ele decide, em um gesto impulsivo, utilizar os recursos da herança recebida por ocasião da morte da mãe para adquirir uma Eva, como eram chamados os exemplares femininos, mas precisa se contentar com um Adão uma vez que, ao final da primeira semana, todas as Evas já haviam sido vendidas (sete delas somente em Riad). Os parâmetros de personalidade dos sofisticados robôs devem ser configurados pelos "usuários" com base nas detalhadas instruções e recomendações do fabricante.
"Eu tinha esperado um amigo. Estava pronto a tratar Adão como um convidado em minha casa, como um estranho que viria a conhecer bem. Mas imaginei que ele iria ser entregue perfeitamente ajustado. Configurações de fábrica: um sinônimo contemporâneo do destino. Amigos, parentes e conhecidos tinham aparecido sem exceção em minha vida com configurações dadas, com histórias inalteráveis de genes e meio ambiente. Queria o mesmo de meu novo e dispendioso amigo. Por que me encarregar disso?" (p. 15)
Enquanto espera as dezesseis horas necessárias para o carregamento inicial das baterias de Adão, Charlie sente a "angustiante excitação de um amor não declarado" por sua jovem vizinha Miranda e tem a ideia de convidá-la a escolher as opções de configuração da personalidade de Adão. A sua intenção é de que ambos possam, dessa forma, compartilhar a criação e o uso do androide, constituindo uma espécie de família. Na verdade, a família será constituída, mas não exatamente da forma como Charlie imaginou. Isso fica cada vez mais claro quando Adão supera as expectativas que os proprietários pudessem ter a respeito de suas emoções e sentimentos e se apaixona por Miranda, formando um improvável triângulo amoroso.

Outras surpresas e desdobramentos estão reservados para Charlie quando ele descobre, auxiliado por Adão, que Miranda esconde um terrível segredo em seu passado que poderá colocar a vida de todos em risco. Será que a formidável mente humana poderá um dia criar uma máquina com capacidade de aprendizado além da nossa compreensão? Quais seriam os limites éticos para essa criação quando a verdadeira definição de humanidade se tornar irrelevante ou definida por outra máquina? McEwan coloca com muita perfeição a ideia dessa longa trajetória que temos percorrido rumo à extinção, nossa e do planeta.
"[...] Eu estava longe de ser o primeiro a pensar nisso, mas era possível ver a história do amor-próprio humano como uma série de rebaixamentos rumo à extinção. No passado, ocupamos um trono no centro do universo, com o Sol, os planetas e todo o mundo observável girando a nosso redor numa eterna dança de adoração. Depois, desafiando os sacerdotes, a impiedosa astronomia nos reduziu a um planeta que orbitava em volta do Sol, apenas uma em meio a outras pedras. Mas ainda nos colocávamos à parte, brilhantemente únicos, designados pelo criador para sermos os senhores de tudo que vivia. Mais tarde, a biologia confirmou que éramos iguais ao resto, compartilhando ancestrais com as bactérias, os amores-perfeitos, as trutas e as ovelhas. No começo do século XX penetramos ainda mais fundo no exílio quando a imensidão do universo foi revelada e mesmo o Sol se tornou um entre bilhões em nossa galáxa, em meio a bilhões de outras galáxias." (pp. 91 e 92)
O que ocorre na prática é que os androides não conseguem abandonar os seus princípios de moralidade para conviver com seres humanos, mesmo que isso possa comprometer a segurança e o bem estar de seus proprietários. Não é culpa dos seres sintéticos se eles não foram projetados para entender e aceitar os desvios de caráter e outras imperfeições dos homens. É o personagem Alan Turing quem melhor resume o impasse nesse convívio: "Não podiam nos entender porque não podemos nos entender a nós mesmos. Seus programas de aprendizado não eram capazes de se ajustar a nós. Se não podemos conhecer nossas mentes, como seríamos capazes de planejar a deles e esperar que fossem felizes convivendo conosco?", ou como é afirmado em outro trecho do livro: "não há nada em todos os seus lindos códigos capaz de preparar Adão e Eva para Auschwitz".
"[...] Criamos uma máquina com inteligência e autoconsciência para jogá-la em nosso mundo imperfeito. Desenvolvidas em geral segundo linhas racionais, benevolentes com relação aos outros seres, tais mentes logo se veem em meio a um furacão de contradições. Temos vivido com elas, e a lista nos cansa. Milhões morrendo por causa de doenças que sabemos curar. Milhões vivendo na miséria quando há recursos suficientes para satisfazer a todos. Degradamos a biosfera quando sabemos que é nosso único abrigo. Nos ameaçamos com armas nucleares quando sabemos até onde isso pode levar. Amamos as coisas vivas mas permitimos a extinção em massa de espécies. E todo o resto – genocídio, tortura, escravidão, assassinato em família, abuso sexual de crianças, mortandade em escolas, estupro e dezenas de violências cotidianas. Vivendo em meio a esses tormentos, não nos surpreendemos quando ainda encontramos felicidade, até mesmo o amor. As mentes artificiais não são tão bem protegidas assim." (p. 194)
Ian McEwan faz uma retomada do seu estilo mais sombrio ao imaginar um personagem-narrador que é um perfeito representante da raça humana, não no que ela tem de melhor, mas extamente o contrário, com todas as imperfeições e egoísmo encontrados em seus semelhantes, ele revela a ironia de sermos confundidos com máquinas, enquanto os androides não conseguem abrir mão de seus conceitos de moralidade, pretensamente características humanas, inseridas nas configurações de fábrica. O nosso mundo é mesmo muito estranho, nada como um grande romancista para nos fazer enxergar isso.

Literatura inglesa contemporânea
Edição inglesa - Jonathan Cape (lançamento: 18 de abril, 2019)

Comentários

sonia disse…
Que genial a ideia desse escritor. Algo totalmente fora da caixinha. Deve ser um livro excelente. Visionário, mesmo se utilizando de um passado recente, ele coloca provocações que já não nos parecem tão impossíveis de acontecerem num futuro próximo.
Excelente a resenha, K.

Abraço,
S.
Alexandre Kovacs disse…
Obrigado Sonia, realmente é um escritor brilhante com domínio completo do seu ofício. Abs
Paulo Sousa disse…
Gosto muito do McEwan e até li Enclausurado, livro fantástico. A demanda de livros a ler é grande, mas com certeza este é um que quero ler em breve. Grande resenha!
Alexandre Kovacs disse…
Paulo, obrigado pelo comentário. Ian McEwan continua brilhante como sempre. Abs
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