Carol Sanches - Não me espere para jantar

Poesia brasileira contemporânea
Carol Sanches - Não me espere para jantar - Editora Patuá - 120 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.

A poesia de Carol Sanches é inspirada pelas múltiplas expressões do universo feminino e, nas cinco partes em que se divide o livro: o ipê lá de casa, um ovário a menos, yo soy el arma de fuego, do tempo do lambari e dois minutos, encontramos versos sobre a mulher que também é, ao mesmo tempo, menina, mãe e amante. A poeta define de forma verdadeira e surpreende o leitor quando afirma: "há muita lógica para explicar os desajustes da chama ou da fisiologia feminina", ou ainda: "o tempo de um homem não é o tempo de uma mulher", como bem sabemos.

Nesta diversidade de abordagens há espaço para a fragilidade e a coragem, para a intimidade e a revelação, como resume muito bem Camila Assad no prefácio sobre o estilo da autora: "[...] Aborda sem clichês e medos questões de gênero e papeis sociais. Revela valentia e fragilidades. Com um ovário a menos e sensibilidade de sobra, Carol experimenta sem hesitação uma linguagem potente, constrói imagens ao mesmo tempo doces e insólitas, olha para a natureza e para a cidade buscando as coisas que estão por trás das coisas". Na primeira parte, o ipê lá de casa, fica flagrante o contraste entre natureza e cidade, público e privado.

          O ipê lá de casa
          acordou rosa
          assim acordaram todos os outros ipês
          de todos os outros quarteirões
          lá de casa

A poeta não esconde que é vulnerável, "inflada de opostos / dos céus e da terra / de oitos e oitentas", contudo em yo soy el arma de fuego encontramos os versos abaixo, uma rica coleção de imagens sensuais e verdadeiras, que explodem em força e beleza, o leitor não tem outra alternativa que não seja entrar no ritmo do poema e se descobrir em um "perplexo estado de gerúndio", bonito não é mesmo? Vale a pena conhecer o universo de Carol Sanches.

          Só de te ver assim
          passando por mim
          minhas partes se recolhem
          apertando os lábios
          guardando-me em carne
          segredos úmidos
          num perplexo estado de gerúndio

          só de te ver assim

          passando por mim
          comprimo o desejo como quem
          (prende o ar e)
          estufa por dentro
          embolando infinitos nós por todo o meu
          corpo inteiro
          ativando a bomba num tic tac de-quem-aguarda-ser
          desarmada

          só de te ver assim, passando por

          mim
          me entra até enxame de abelhas africanas
          enquanto vou pedindo rogando implorando
          que me enxague as picadas
          numa marola demorada que vai do atlântico
          ao pacífico sul

          daí me perco

          nas voltas de mim e da terra
          vou-me dando em manobras
          durante a pele
          aguando em meus poros côncavos
          os carinhos de mim
          vou hasta el fin da fronteira da areia
          com o mar das minhas correntezas
          translúcidas
          só de te ver assim
          passando por mim

Sobre a autora: Carol Sanches nasceu em Campinas em 5 de agosto de 1981. Formada em publicidade e propaganda, pela ESPM, possui pós-graduação em Poéticas Verbais, pela USP. Atualmente trabalha com redação e produção de conteúdo para agências de comunicação. Tem poemas publicados em revistas digitais como Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Literatura e Fechadura, além de ter participado da Antologia Poética do Prêmio Sarau Brasil 2018. É autora dos livros independentes Poesias pormenores (2018) e Toda diva tem divã (2009). O livro Não me espere para jantar recebeu menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2018.

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