Toni Morrison - O olho mais azul

Literatura norte-americana
Toni Morrison - O olho mais azul - Editora Companhia das Letras - 224 Páginas - Tradução: Manoel Paulo Ferreira - Capa: Alceu Chiesorim Nunes sobre obra de Kara Walker (The Emancipation Approximation) - Data de Lançamento: 16/10/2019 (2ª edição).

Publicado originalmente em 1970, The Bluest Eye é o romance de estreia da escritora norte-americana Toni Morrison (1931-2019), Prêmio Nobel de Literatura de 1993, em relançamento pela Editora Companhia das Letras. É uma ótima oportunidade para conhecer a obra que se tornou um importante símbolo sobre a crueldade dos padrões de beleza impostos que influenciam a vida de meninas e mulheres negras, assim como as consequências do racismo associado às questões de gênero em uma sociedade patriarcal, um tema muito próximo à nossa realidade.

Ao escolher como protagonista uma menina negra de onze anos chamada Pecola Breedlove, a autora evidencia a brutalidade do preconceito racial tanto por parte da sociedade quanto do próprio núcleo familiar. Ao ser ridicularizada na escola, até mesmo por outras crianças negras, por ter a pele mais escura e passar por todo tipo de agressões domésticas, Pecola reza todas as noites para ter olhos azuis como as bonecas que imitavam Shirley  Temple. Quando completa doze anos ela engravida, assediada pelo pai alcoólatra, e é forçada a deixar a escola e morar com outra família, os MacTeers. A narrativa é conduzida por outra criança, Claudia McTeer de nove anos que vive com a irmã, Frieda, de dez anos, e os pais no final da Grande Depressão.

No posfácio, Toni Morrison explica a opção pela escolha da personagem: "Ao tentar dramatizar a devastação que o desprezo racial, mesmo casual, pode causar, escolhi uma situação única, não uma situação representativa. O caso extremo de Pecola decorreu, em larga medida, de uma família devastada e devastadora – diferente da família negra média e da família da narradora. Mas, por mais singular que fosse a vida de Pecola, achei que em todas as meninas se encontravam alguns aspectos de sua vulnerabilidade. Explorando a agressão social e doméstica que podia levar uma criança a literalmente se desintegrar, criei uma série de rejeições, algumas rotineiras, algumas excepcionais, outras monstruosas, enquanto me empenhava no sentido de evitar cumplicidade no processo de demonização a que Pecola era submetida. Ou seja, eu não queria desumanizar as personagens que destruíram Pecola e contribuíram para o seu colapso." No trecho em destaque abaixo, a descrição da relação violenta dos pais de Pecola, Cholly e Polly Breedlove, na visão dos próprios personagens.
"[...] Os dias diminutos e idênticos que a sra. Breedlove vivia eram identificados, agrupados e classificados por essas brigas. Davam substância aos minutos e horas que sem elas seriam indistintos e esquecidos. Aliviavam o enfado da pobreza, conferiam dignidade aos cômodos mortos. Nessas rupturas violentas da rotina, que também eram rotina, ela podia exibir o estilo e a imaginação do que acreditava ser o seu verdadeiro eu. Privá-la dessas brigas era privá-la de todo o entusiasmo e razoabilidade da vida. Cholly, com sua embriaguez e vileza habituais, fornecia a ambos o material de que necessitavam para tornar a vida tolerável. A sra. Breedlove se considerava uma mulher íntegra e cristã, cujo fardo era um homem inútil a quem Deus queria que ela punisse (Cholly estava fora do alcance da salvação, claro, e salvação não era a questão – a sra. Breedlove não estava interessada no Cristo redentor, mas, sim, no Cristo juiz.)" [...] Não era menor a necessidade que Cholly tinha da mulher. Ela era uma das poucas coisas que lhe repugnavam que ele podia tocar e, portanto, machucar. Despejava sobre ela a soma de toda a sua fúria inarticulada e desejos frustrados. Odiando-a, podia deixar-se intacto." (pp. 45-6)
Claudia e sua irmã Frieda, descobrem que Pecola foi engravidada pelo pai e, ao contrário do restante das pessoas do bairro, elas querem que o bebê sobreviva. "[...] nossa pena era mais intensa pelo fato de mais ninguém parecer compartilhá-la. Estava todo mundo revoltado, chocado, indignado, achando a história divertida, ou até excitado com ela. Ficávamos atentas a alguém que dissesse 'Coitadinha dessa menina' ou 'Pobrezinha', mas havia apenas um balançar de cabeça no lugar onde essas palavras deveriam estar. Procurávamos olhos vincados de preocupação, mas víamos somente olhos velados." (p. 190)

As duas meninas decidem enterrar o dinheiro que estavam economizando para comprar uma bicicleta e plantam sementes em uma espécie de ritual mágico infantil. Elas acreditam que, se as flores brotarem, o bebê de Pecola também viverá. No entanto, as flores se recusam a florescer e o bebê morre ao nascer prematuramente. Pecola acaba enlouquecendo e acredita que seu desejo foi realizado, ou seja, que ela tem os olhos mais azuis.
"Eu pensava no bebê que que todo mundo queria que morresse e o via com muita clareza. Estava num lugar escuro, úmido, a cabeça coberta de rodelas de carapinha, o rosto negro com dois límpidos olhos negros, redondinhos como moedas de cinco centavos, narinas abertas, grossos labios de beijo, e a pele negra sedosa, viva respirando. Não havia cabelo loiro sintético suspenso acima de olhos azuis de bola de gude, não havia nariz afilado nem boca em arco. Mais do que afeto por Pecola, eu sentia intensamente a necessidade de que alguém quisesse que o bebê negro vivesse – só para contrabalançar o amor universal por Baby Dolls brancas, Shirley Temples e Maureen Peals. E Frieda devia sentir a mesma coisa. Não pensávamos no fato de Pecola não ser casada; muitas garotas tinham bebês e não eram casadas. E também não nos detínhamos no fato de o pai do bebê ser o pai de Pecola. Não compreendíamos o processo de se ter um bebê de um homem – ela, pelo menos, conhecia seu pai. Pensávamos apenas naquele ódio esmagador ao bebê não nascido. [...]" (pp. 190-1)

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