Jonathan Swift - Viagens de Gulliver

Clássicos da Literatura
Jonathan Swift - Viagens de Gulliver - Editora Companhia das Letras - 448 Páginas - Tradução de Paulo Henriques Britto - Prefácio de George Orwell - Lançamento no selo Penguin-Companhia: 2010.

Segundo Italo Calvino (1923-1985), "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" (Por que ler os clássicos - 1991), este é precisamente o caso de Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift (1667-1745). Lançado anonimamente em 1726, como uma grande sátira política e social, ainda pode ser considerado atual.

Não deixa de ser curioso que um livro com uma mensagem tão amargurada e pessimista sobre a natureza humana, tenha se tornado, talvez por força das inúmeras adaptações simplificadoras, um clássico da literatura infanto-juvenil, mas a sua importância excede qualquer classificação, seja romance, ficção científica ou aventuras. Uma ótima edição da Penguin-Companhia, com prefácio de George Orwell e tradução de Paulo Henriques Britto, que utilizou apenas o vocabulário existente na língua portuguesa do século XVII, além de notas explicativas e mapas.

Na primeira parte, após sobreviver a um naufrágio, Lemuel Gulliver chega a uma ilha chamada Lilipute, onde os habitantes, todos com menos de 15 centímetros de altura, o transformam em prisioneiro. Essa estranha sociedade é em tudo igual à da Inglaterra, sendo o efeito da diferença de tamanho dos personagens uma forma que o autor encontrou para ridicularizar o comportamento mesquinho e arrogante presente no comportamento humano. Com o passar do tempo, Gulliver conquista a confiança e simpatia do rei, assim como de toda a sociedade local, ao ajudar a conquistar a esquadra do país inimigo Blefuscu (França). No entanto, depois de manobras políticas na corte, Gulliver é acusado de traição e tem que fugir de Lilipute.
"À medida que a Notícia de minha Chegada se espalhava pelo Reino, um Número prodigioso de Pessoas ricas, ociosas e curiosas vinha me ver; tanto assim que as Aldeias quase se esvaziaram, e a Lavoura e os Assuntos domésticos teriam sido muito negligenciados, se sua Majestade Imperial não tivesse proclamado vários Éditos e Decretos contra tal Inconveniência. Ordenou ele que todos os que já me haviam contemplado voltassem para suas Casas, e que só se aproximassem a cinquenta jardas de minha Casa com uma Licença fornecida pela Corte, o que se tornou uma fonte de Renda considerável para os Secretários de Estado." (p. 101) - Trecho da primeira parte - Viagem a Lilipute
Já na segunda parte, ocorre exatamente o contrário, em uma nova viagem, Gulliver é abandonado pela tripulação em Brobdingnag, uma terra onde os habitantes são gigantes e ele é mantido pela família de um fazendeiro que o exibe em feiras como uma curiosidade até vendê-lo à rainha de Brobdingnag. Nesta narrativa, a diferença de tamanho tende a destacar a pequenez humana e fragilidade de Gulliver (e de nossa própria sociedade). Ao descrever a cultura e história da Europa para o rei, este se surpreende e afirma que considerava "uma sucessão de conspirações, rebeliões, assassinatos, massacres, revoluções, proscrições, os piores efeitos que só podem ser produzidos pela avareza, o sectarismo, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a ira, a loucura, o ódio, a inveja, a concupiscência, a malícia e a ambição".
"O Rei foi tomado de horror ao ouvir tal Relato dessas Máquinas tremendas e a Proposta que lhe fiz. Muito se admirava de que um inseto tão impotente e vil como eu (tais foram as Expressões que usou) pudesse ter Ideias tão desumanas e descrever de modo tão natural, parecendo nada sentir, todas essas Cenas de Sangue e Desolação que eu lhe apresentava como os Efeitos comuns dessas Máquinas destrutivas, das quais disse ele que algum Gênio mau, Inimigo da Humanidade, decerto teria sido o inventor. Quanto a ele, disse o Rei que, embora poucas Coisas o deleitassem tanto quanto as novas Descobertas na Arte e na Natureza, no entanto melhor seria perder metade do seu Reino do que conhecer tal Segredo, o qual, segundo me disse, se eu prezava minha Vida, jamais deveria ser mencionado outra vez." (p. 221) - Trecho da segunda parte - Viagem a Brobdingnag.
Na terceira parte, Swift avança na imaginação e coloca Gulliver na ilha voadora de Laputa, onde os habitantes vivem dedicados à música, matemática e astronomia, mas são incapazes de utilizar a ciência para qualquer finalidade prática. No reino de Balnibarbi, controlado por Laputa (que tem o costume de subjugar as cidades rebeldes jogando pedras no solo), ele visita a Academia de Lagado onde constata o uso de experimentos completamente absurdos sem nenhum resultado prático, uma sátira contra as atividades da Royal Society inglesa. Na ilha de Luggnagg, ele conhece os estranhos struldbruggs, humanos que nascem com a sina da imortalidade, sem o dom da juventude eterna, eles sofrem com a decadência física da velhice.
"Um outro Professor mostrou-me um longo Rol de Instruções para se descobrirem Tramas e Conspirações contra o Governo. Aconselhava ele que os grandes Estadistas examinassem a Dieta de todos os Suspeitos; a hora em que comiam; de que lado da Cama se deitavam; com que Mão limpavam o Traseiro; que examinassem com Atenção seus Excrementos e, com base na Cor, Cheiro, Gosto, Consistência, Digestão incompleta ou madura, formar um Juízo de seus Pensamentos e Propósitos. Pois os Homens nunca são tão sérios, pensativos e determinados quanto o são no momento de defecar, o que ele havia descoberto por meio de um Experimento frequente: pois quando em tais Conjunturas ele se propunha, apenas por Exercício, a pensar em qual seria a melhor maneira de assassinar o Rei, suas Fezes adquiriam uma Tonalidade esverdeada, porém outra mui diferente quando pensava apenas em fomentar uma Revolta ou incendiar a Metrópole." (p. 287) - Trecho da terceira parte - Viagem a Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e Japão.
Na quarta e última vigem de Gulliver, ele sofre um motim no navio que comandava e é deixado à deriva em um bote, chegando à terra dos houyhnhnms, cavalos que convivem em uma sociedade altamente evoluída e que domina uma raça inferior, grosseira e fisicamente repugnante chamada de yahoos, que logo descobrimos são seres humanos selvagens. Nesta última parte a sátira de Jonathan Swift atinge o ponto máximo de insatisfação com seus próprios semelhantes: "Nunca vi", diz ele, "em todas as minhas viagens, um animal tão desagradável, nem um pelo qual naturalmente tenha concebido uma repugnância tão forte."
"Perguntou-me ele quais eram as Causas ou Motivos usuais que levavam um País a ir à Guerra contra o outro. Respondi que eram inumeráveis, porém mencionaria apenas umas poucas entre as mais importantes . Por vezes a Ambição dos Príncipes, que jamais julgam ter Terra ou Gente suficiente para governar: por vezes a Corrupção dos Ministros, que induzem seu Senhor a fazer Guerra a fim de sufocar ou desviar o Clamor dos Súditos contra sua má Governança. As diferenças de Opiniões têm custado muitos milhões de Vidas: por exemplo, se a Carne é Pão, ou o Pão é Carne; se o Suco de uma certa Fruta é Sangue ou Vinho; Se Assobiar é um Vício ou uma Virtude, se é melhor beijar uma Tábua ou jogála no Fogo; qual a melhor Cor para uma Túnica, Preto, Branco, Vermelho ou Cinza; se ela devia ser longa ou curta, estreita ou larga, suja ou limpa, e muitas outras coisas. E não há Guerras tão furiosas e sangrentas, nem tão duradouras, quanto as que são ocasionadas por Diferenças de Opinião, especialmente quando se trata de coisas sem importância." (p. 347) - Trecho da quarta parte - Viagem ao país dos Houyhnhnms.

Comentários

sonia disse…
Devíamos reler esse livro, pois quando o li era criança e mal entendia o significado da obra. Desde sempre, o Estado segue faturando às custas do povo, como se vê no primeiro destaque.
Alexandre Kovacs disse…
Sonia, definitivamente não é um livro para crianças! Obrigado por comentar.

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