Lucila Losito Mantovani - Com o corpo inteiro

Literatura brasileira contemporânea
Lucila Losito Mantovani - Com o corpo inteiro - Editora Pólen - 168 Páginas - Projeto Gráfico: Bloco Gráfico - Lançamento: 2019.

Surpreende a força e a originalidade da prosa de Lucila Mantovani em seu romance de estreia e nos deixamos levar pela correnteza do rio caudaloso formado por uma sequência de frases curtas e de expressão poética que formam uma densa narrativa, oscilando entre o passado e o presente de uma protagonista que parece resgatar as vivências da própria autora, assim como as mazelas sociais do nosso país, herança de um colonialismo predador, como nesta passagem: "Uma nação precisa ser capaz de reciclar o lixo que gerou no passado, antes de reclamar do cheiro ruim no corredor. Injustiças se ajustam ou se perpetuam com o tempo?"

Marcada por uma história familiar de separação dos pais, a protagonista se envolve em uma difícil relação afetiva com um parceiro emocionalmente instável e desenvolve um lento processo de aprendizado e aceitação do próprio corpo por meio da proximidade com a natureza e as experiências com rituais indígenas na Amazônia. Lucila nos mostra como a raiz de muitos problemas da sociedade está na "nossa falta de conexão uns com os outros e com a natureza"
"De silêncios que ficaram condensados em nossas virilhas vaza o choro que lavou todas as nossas roupas sujas. Aqui escorrem as frases que coagularam e as verdades que se encolheram sobre elas mesmas por gerações. Se todos os alimentos descartados por não se encaixarem aos padrões capitalistas de consumo fossem direcionados para pessoas com necessidade, ou cada tipo de corpo pudesse ser admirado pela sua singularidade, ganharíamos tempo para investir em questões realmente importantes que não se resumem a ganhar dinheiro, sobreviver ou ser aceito. Ao fazer com que pêssegos e peitos fossem todos iguais, anestesiamos sabores, prazeres e tambores. As dores dos nossos abortos vêm acentuando minhas cólicas, se esparramando pelas minhas coxas como se o passado quisesse passar por elas. A cada novo ciclo, troco o princípio da escassez que virou a base de nossa forma de viver por diversidade e abundância. Meu corpo de terra, pelo seu amor próprio. Independente de ser um homem ou uma mulher, tento tirar de cena os falos de meus personagens e suas falas demasiadas. Se conseguirmos encaixar nossas cabeças e peitos ao resto do corpo, talvez a nossa ciência volte a se unir à nossa natureza. Sangrar não é doença, muito menos sujeira. Fertiliza o romance. Aqui dentro, sinto muito. Um minuto de silêncio. Luto pelo útero. Só depois batucar sobre ele para fazê-lo voltar a jorrar. Deixar que a água infiltre a terra e então ouvir sementes gemerem ao germinar." (p. 64)
Em um exercício constante de metalinguagem, a própria construção do romance é citada na narrativa, reforçando o teor autobiográfico: "Insisto em me manter personagem. Confundo minhas frágeis fronteiras com as deste livro." O texto oferece múltiplas interpretações e uma perspectiva não somente feminina ou feminista, mas verdadeiramente humanista, provando que a literatura é sempre uma forma de promover e compartilhar essa conexão entre corpo e alma.
"[...] Você é um conjunto de tudo aquilo que eu comecei achar possível aproximar. Foi para me integrar que comecei a escrever. Comecei a escrever para te encontrar. Será que podemos ser ao mesmo tempo cada vez mais selvagens e civilizados? Espontâneos e conscientes? Não sei se acredito no acaso, na sorte ou no destino. Acho estranha a palavra livre-arbítrio, escolher implica não liberdade. Mas se nos plugamos de forma tão natural, como não honrar o sol nos revelando a cada manhã d'outro lugar com (o) um corpo novo? Ao segurar este livro nas mãos, sua presença encontra a minha. Tem algo na respiração do texto que conecta nossos ritmos. Meus músculos com as engrenagens do romance. Nosso fôlego com os intestinos da história. Me faz relembrar o porquê de eu estar escrevendo: essa mágica do amor ultrapassar as barreiras do tempo. Eu daqui, agora, enquanto escrevo. E você daí, enquanto lê. Essa espécie de encontro marcado." (p. 128)
Sobre a autora: Lucila Mantovani nasceu em Águas de Lindoia em 1978. Mora entre São Paulo e Boiçucanga, onde coordena a residência artística Kaaysá. É formada em Economia pela USP. Cursou pós-graduação em Ficção no ISE Vera Cruz e frequentou o programa CLIPE para escritores da Casa das Rosas. Em 2016, foi contemplada pelo prêmio PROAC - Estímulo à Criação Literária PROSA. Participou das coletâneas Curva de Rio (Giostri, 2017), Naquela Terra, Daquela Vez (Quelônio, 2017) e Carne de Carnaval (Patuá, 2018). Com o corpo inteiro é o seu romance de estreia.

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