Wislawa Szymborska - Para o meu coração num domingo

Poesia
Wislawa Szymborska - Para o meu coração num domingo - Editora Companhia das Letras - 344 Páginas - Capa de Victor Burton - Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski - Lançamento: 2020.

Esta é a terceira antologia de Wislawa Szymborska (1923-2012), prêmio Nobel de Literatura de 1996, publicada pela Editora Companhia das Letras no Brasil, depois do sucesso de crítica e público de Poemas (2011) e Um amor feliz (2016), livros capazes de emocionar até aqueles que dizem não gostar de poesia. Sim, porque há quem não entenda a necessidade de poemas no mundo, mas isso antes de conhecer essa simpática bruxa polonesa que encanta a todos ao resumir com seus versos a essência de tudo que é verdadeiro na condição humana: a vida, o sonho, o amor e, por que não, a própria morte.

Entre o riso e a lágrima ela conduz o leitor, sempre com inteligência e fina ironia, em cada um dos 85 poemas desta edição, selecionados da sua bibliografia, em ordem cronológica, por Regina Przybycien e Gabriel Borowski, desde o primeiro livro, Chamando pelo Yeti, de 1957 até o póstumo, Chega, de 2012, como no lindo Para o meu coração num domingo de 1967: "Você tem setenta méritos por minuto. / Cada contração tua / é como lançar de uma canoa / no mar aberto / numa viagem ao redor do mundo."

A poeta sabe que, para a nossa alma, a alegria e a tristeza não são sentimentos tão diferentes como ela explica em Um pouco sobre a alma de 2002: "A alegria e a tristeza / para ela não são dois sentimentos diversos. / Somente quando estão unidos / se faz presente em nós.", até mesmo a dor pela morte de alguém amado, na homenagem a Kornel Filipowicz, grande amor da sua vida, se transforma em poesia no sensível Despedida a uma paisagem de 1993: "Reconheço que / – como se você ainda vivesse –  / a margem de certo lago / segue bela como era."

Difícil escolher apenas três exemplos de um livro obrigatório, principalmente em uma época de incertezas como esta na qual vivemos agora. Não deixem de conhecer a poesia de Wislawa Szymborska, antídoto contra as trevas. 


Para o meu coração num domingo
(Muito Divertido  - 1967)

Te agradeço, coração meu,
por não se queixar, por se afanar
sem elogios, sem recompensa,
num desvio inato.

Você tem setenta méritos por minuto.
Cada contração tua
é como o lançar de uma canoa
no mar aberto
numa viagem ao redor do mundo.

Te agradeço, coração meu,
porque sem cessar
você me retira do todo,
separada até no sonho.

Você cuida para que eu não sonhe demais
com o voo
para o qual não é preciso ter asas.

Te agradeço, coração meu,
por eu ter acordado de novo
e embora seja domingo,
dia de descanso,
sob as costelas
você seguir o ritmo normal da semana. 

 

Despedida a uma paisagem
(Fim e Começo  - 1993)

Não reprovo a primavera
por começar de novo.
Não a culpo pelo fato
de cumprir a cada ano
a sua obrigação.

Entendo que a minha tristeza
não deterá o verde.
Uma folha de relva, se oscila,
é só ao vento.

Não me causa dor saber
que os amieiros sobre as águas
têm de novo com que sussurrar.

Reconheço que
– como se você ainda vivesse –
a margem de certo lago
segue bela como era.

Não tenho rancor
da vista pela vista
da baía resplandecente de sol.

Consigo até imaginar
outros, não nós,
sentados neste instante
no tronco de bétula caído.
 

Respeito o direito deles
ao sussurro, ao riso
e a um silêncio feliz.

Presumo até
que estejam apaixonados
e que ele a enlace
com um braço vivo.

Algo novo esvoejante
farfalha na folhagem.
Meu desejo sincero
é que eles o ouçam.

Nenhuma mudança exijo
das ondas costeiras,
ora ligeiras ora lânguidas,
e que não obedecem a mim.

Nada reclamo
das águas profundas junto ao bosque,
ora esmeralda,
ora safira,
ora negras.

Só uma coisa não aceito.
A minha volta para lá.
O privilégio da presença –
renuncio a ele.

Sobrevivi a você
só o bastante
para pensar de longe.


Um pouco sobre a alma
(Instante  - 2002)

Às vezes temos uma alma.
Ninguém a tem o tempo todo
e para sempre.

Dia após dia,
ano após ano
podem se passar sem ela.

Às vezes ela só se aninha
por mais tempo
nos enlevos e medos da infância.
Às vezes só no espanto
de estarmos velhos.

Raramente nos assiste
em tarefas maçantes
como mover armários,
carregar malas
ou percorrer uma distância com o sapato apertado. 

Quando é para preencher formulários
ou picar carne,
costuma tirar folga.

De mil conversas nossas
participa de uma,
e mesmo assim nem sempre,
pois prefere o silêncio.

Quando nosso corpo começa a doer e doer,
sai de fininho do seu plantão.

É difícil de contentar:
não lhe agrada nos ver na multidão,
nem nossa luta por uma vantagem qualquer,
nem o matraquear dos negócios.

A alegria e a tristeza
para ela não são dois sentimentos diversos
Somente quando estão unidos
se faz presente em nós.

Podemos contar com ela
quando não temos certeza de nada
e temos curiosidade de tudo.

Dos objetos materiais,
gosta dos relógios com pêndulo
e dos espelhos, que trabalham com zelo
mesmo quando ninguém está olhando.

Não revela de onde vem
nem quando vai sumir de novo,
mas está claro que espera tais perguntas.

Parece que,
assim como ela nos é necessária,
também nós
para algo lhe somos necessários.


Sobre a autoraWislawa Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para a Cracóvia, onde estudou literatura e sociologia. A partir de 1953 e por quase trinta anos trabalhou na revista literária Życie Literackie. Ao longo da vida, publicou doze pequenas coletâneas de poemas, pelas quais recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1996. Morreu em fevereiro de 2012.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Para o meu coração num domingo de Wislawa Szymborska

Comentários

Adriane Garcia disse…
Ótima resenha e uma vontade enorme de ler o livro logo.
Alexandre Kovacs disse…
Adriane, este é aquele tipo de livro que dá pena de guardar depois da leitura, dá vontade de deixar na cabeceira para sempre!

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