Marcelo Rubens Paiva - Do começo ao fim

Literatura brasileira contemporânea
Marcelo Rubens Paiva - Do começo ao fim - Editora Alfaguara - 192 Páginas - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Lançamento: 2022.

Não dá para ouvir falar de Marcelo Rubens Paiva e não lembrar de Feliz ano velho (1982), um romance que marcou a juventude de muita gente, inclusive a minha. É muito comum que escritores se sintam pressionados, após uma estreia literária de destaque, a manter o mesmo nível de qualidade e isso acaba afetando, de forma positiva ou negativa a sequência de suas carreiras. O fato é que, muitos livros e prêmios depois, algo no estilo de Marcelo Rubens Paiva, presente em seu livro de estreia, ainda permanece, principalmente a sua habilidade em lidar com a autoficção de forma leve e bem-humorada, mesmo quando escreve sobre temas difíceis.

A melhor definição para o seu mais recente lançamento, Do começo ao fim, está na abertura do próprio romance: "Esta é uma história de amor, cujo final não é feliz nem triste. Como muitas histórias verdadeiras de amor e de amor verdadeiro, esta é mais uma que acabou em aberto, como um filme francês." O protagonista-narrador de meia-idade, não nomeado exceto pelo apelido de "mocinho", autor de apenas um sucesso em crise existencial, relembra passagens de sua vida, desde a juventude na Unicamp, relacionamentos fracassados e sua carreira como escritor. Certamente, muito material autobiográfico foi utilizado na construção do personagem.

"Estávamos deitados num tapete cercado por almofadas, sem desgrudar os lábios, jeans contra jeans, ela não disse não, eu não disse não, ela tinha quinze anos, era a mais charmosa das amigas, com um olhar misterioso, e isso me atraía. Por um instante, meu corpo entrou em transe. Estávamos colados, seus peitos nas minhas mãos, nossas pernas deram um nó, nossos braços nos enlaçaram, nossas línguas se engancharam, nossos corpos conectados, e começamos a movimentar os quadris para a frente, para trás, para cima e para baixo, em total desordem, numa coreografia sem pauta para os lados, eu sem saber o que fazer para me segurar. Ela me agarrou com força. Acabei ejaculando, melecando minha calça. Fiquei ligeiramente confuso, mas não me senti responsabilizado, não fiz nada de errado, nossos amigos também namoravam e se pegavam, alguns já tinham experimentado até o ousado sexo oral, estava na cara que chegaríamos àquilo, fiquei feliz por ter dado um passo. Mas ela começou a chorar. Fiquei desesperado, sem ação." (p. 20)

O fio condutor de toda a narrativa é a história de uma relação amorosa interrompida na juventude e retomada anos depois. Lívia era uma estudante de engenharia na Unicamp, família rica, se inscreve em um curso de francês para conseguir ler as revistas da Vogue francesa. Neste curso, o narrador a conhece, no primeiro dia de aula: "Meu coração disparou quando entrei na primeira aula de francês e ela me convidou indiretamente para sentar do seu lado, ao tirar a bolsa de cima da carteira vizinha." Assim tem início a história de um primeiro amor que nunca foi esquecido pelo protagonista, mesmo depois de um casamento fracassado, sem filhos.

"Acordei  na cama de ressaca, desidratado, com o nariz ardendo da secura da Califórnia. A única água ingerida na noite anterior foi a do gelo do copo. É, heresia, tomo Bourbon com gelo. Somado ao pacote de Marlboro Light, dor de cabeça garantida. Susan e Carol estavam abraçadas no sofá enroladas no edredom. Suas roupas espalhadas pelo chão da sala. Partes do corpo de uma delas estavam para fora. Eu a cobri com o edredom. Há tempo eu não o lavava. Ia me mudar, comprar tudo novo, jogar tudo aquilo fora? Sentei-me na cama. Não conseguia entender por que não dormia mais tanto quanto dormia quando jovem. Escrever uma crônica? Estou tão sem ideias... Ideias não aparecem do nada, precisam ser pescadas. Preciso de vara, linha, isca, um barco e uma laje no oceano. Só vejo deserto e esquilos... Olhei as duas deitadas. Aquela imagem não tinha mais nada a ver comigo. Eu não me encaixo mais naquele cenário. Aquele tempo foi enterrado, é passado, por que tentar revivê-lo? Não tenho mais nada a ver com quem fui, e que bom. Olho aquelas duas garotas nuas sob um edredom que jogarei fora e passo a achar que não tem nada no meu passado que possa ser reavaliado e revisitado. Tudo mudou. Foda-se! Me levantei, fui ao banheiro, fiz café. Recolhi roupas no chão. Comi uma banana vinda do Caribe, infinitamente pior e mais sem gosto que as brasileiras, com Oreo. Recolhi garrafas, taças, esvaziei cinzeiros e fui pro banho. Sinto um vazio inexplicável. Queria sumir e reaparecer nas areias de uma praia do Pacífico. Quero mudar logo. Saí do banho e encontrei Susan sentada bebericando seu café." (p. 96)

Agora, decadas depois, ambos chegando aos cinquenta anos, uma carta formal de Lívia contando sobre a morte da mãe irá reaproximar o casal, fazendo com que os planos do narrador de continuar a sua residência nos EUA em uma Universidade na California sejam postergados e o mesmo tome uma decisão intempestiva de retornar ao Brasil para viver essa relação que, aparentemente, não acabou. Contudo, será que histórias de amor ainda são possíveis?

"O textão continuava. Mandou gráficos, fotos, uma empolgada. Pedi: Manda fotos suas... Não tenho fotos boas... Dos filhos... Filhos e filha, Sofia. Ah, estão enormes... E o seu marido?... Não quero falar dele... Como assim?... Longa história. Você está casado?... Não. Nem tive filhos... Como foi nos Estados Unidos?... Incrível... No final da vida, minha mãe me fazia ler em voz alta alguns livros, alguns chatérrimos... E seu pai?... Papai não está nada bem. Vendeu a construtora há muito tempo. Se decepcionou. Muita corrupção... E seu irmão?... Virou médico. Molecão até hoje... E sua irmã?... Mora na Holanda. Me passa seu endereço, e mando as pastas que minha mãe fez dos seus artigos, entrevistas... Preciso ir a Campinas, podemos almoçar... Nossa, eu ia adorar... Ia?... Se você vier, vou adorar... Vamos marcar?... Vamos? Onde podemos almoçar? Não conheço mais os lugares de Campinas... Não é São Paulo, né? Mas tem uns lugares legais. Lembra onde eu morava?... Claro... Tem um bem pertinho, Restaurante Cambuí, você sabe chegar?... Eu acho... Claro. Que bom. Quando?" (p. 125)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Marcelo Rubens Paiva, nascido em São Paulo em 1959, é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor, entre outros romances, de Feliz ano velho (1982), Blecaute (1986), Ainda estou aqui (2015) e O orangotango marxista (2018). Ganhou o prêmio Jabuti de literatura com Feliz ano velho (1983), prêmio Shell de teatro (2000) por Da boca pra fora e o prêmio ABL de roteiro de cinema para Malu de bicicleta (2012).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Do começo ao fim de Marcelo Rubens Paiva

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