Kenzaburo Oe - Adeus, meu livro!

Literatura japonesa
Kenzaburo Oe - Adeus, meu livro! - Editora Estação Liberdade - 448 Páginas - Tradução de Jefferson José Teixeira - Fotografia de capa: Grande reservatório subterrâneo, Saitama (Tóquio), foto de Akira Kii - Lançamento: 2023.

Kogito Choko, alter ego do próprio Kenzaburo Oe (1935-2023), está de volta neste romance, que faz parte da trilogia iniciada com a publicação de A substituição ou As regras do Tagame, livros marcados por elementos autobiográficos e engajamento político sobre questões polêmicas do Japão moderno, como o ativismo antinuclear e pacifista, no estilo inconfundível do autor. Contudo, em Adeus, meu livro!, a grande ironia é que Kogito Choko é envolvido por um amigo de infância, Shigeru Tsubaki em um projeto bastante ambicioso, "a grande empreitada" como ele chama, um evento inspirado nos ataques de 11 de setembro ao World Trade Center de Nova York e que pretende a absurda destruição de um arranha-céu de Tóquio, com o objetivo de motivar toda uma onda de violência semelhante.

Kogito, agora mais velho, se recupera de um atentado quando recebe a visita no hospital de Shigeru Tsubaki com quem vai morar, após a alta, numa propriedade de veraneio próxima de Tóquio, juntamente com dois rapazes que deverão executar o atentado, Takeshi e Take-chan, assim como os estrangeiros Vladimir e Shinshin. Quando Kogito percebe que está se envolvendo no planejamento de um ataque terrorista, ele se torna uma ameaça ao projeto, e fica em uma espécie de prisão domiciliar, com a sua concordância, devido à própria curiosidade e também influenciado por seu outro eu com "atitude incomum" continuando a se envolver e assistir, em vez de tentar alertar as autoridades.

"Quando estava gravemente ferido, ponderou se iria para o outro lado assim mesmo ou se retrocederia, optando por regressar para o lado de cá, escolha que esgotou todas as suas energias mentais. Ao menos era como se sentia. Ao contrário do alívio que representava se transferir para o lado de lá, regressar para o lado de cá representava suportar um sofrimento físico. Na realidade, ele chorou e gritou devido à dor no coração, chocando as pessoas que o velavam à cabeceira do leito. / E no Kogito que retornara para o lado de cá, havia a convicção de que chegara mentalmente são até o ponto de bifurcação entre a vida e a morte. Ter passado por essa experiência não significava ter aprofundado a conscientização sobre o sentido da morte ou sobre o que seria o pós-morte. / Quando finalmente vislumbrou a porta de entrada do lado de lá, apesar de não precisar sofrer se esperasse de pé diante de algo semelhante a uma placa de ferro bem negra até que se abrisse, preferiu deliberadamente se lançar contra ela. Como já estava previamente preparado para isso, bateu com força contra a porta e voltou. Imbuído das lembranças nítidas dessa experiência, sentiu que, dali em diante, vivendo na mesma sociedade, no mesmo mundo, estaria mais próximo dos mortos do que dos vivos." (pp. 21-2)

O romance é permeado por inúmeras referências à literatura, começando pelo título que reproduz o parágrafo de encerramento de O dom, de Vladimir Nabokov, poemas de T.S. Eliot são citados e debatidos, assim como a influência de Yukio Mishima, outro grande autor japonês, contemporâneo de Kenzaburo Oe que se suicidou em um ato político aos 45 anos. Não poderiam faltar autores clássicos tais como, por exemplo, Céline e Dostoiévski, especialmente na análise de Os demônios. Nos ricos diálogos, na casa de veraneio, chamada de Gerontion (outra referência a um poema de T.S. Eliot), são discutidos assuntos culturais diversos, além da literatura: arquitetura, cinema, música, política e impasses existenciais próprios ao autor falecido agora em março, como a difícil fase do envelhecimento.

"– Você não é do tipo afeito a atuar em situações práticas. Até hoje, você sempre foi ridicularizado e insultado em relação a isso. Longe disso, você se reconhece como um 'velho louco' convalescendo de um grave ferimento. Por esse motivo, estou pensando em um papel que você esteja apto a desempenhar. E, além do mais, esse papel não trairia a forma de vida humanista assumida na condição de discípulo do professor Musumi! Porque seu trabalho não será assassinar um incontável número de pessoas, mas justo o oposto, você zelará para que aquelas que morreriam continuem vivas! No momento, é tudo o que posso dizer. / Não comentarei o que ou como faremos, Kogi, apenas espere pela surpresa e pela excitação quando o momento enfim chegar. Temos ainda bastante tempo pela frente! Restringindo-nos ao momento atual, gostaria que você guardasse no peito a estrofe de Eliot: Que não me falem da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio. / Digo isso, Kogi, por haver algo dominando meus pensamentos. Não direi que apenas o medo do medo e do frenesi dos velhos me ponha em movimento! Contudo, se houver alguém de nossa idade que não se associe a esses versos, desculpe-me mas certamente não é alguém com quem deseje me relacionar." (p. 147)

Também neste romance são tansformados em personagens os amigos e familiares de Kenzaburo Oe, como a esposa, nomeada como Chikashi Choko (Yukari Oe) e o filho Akari Choko (Hikari Oe), portador de deficiência mental. Um livro denso e maduro, corajoso e sem comprometimentos, que só poderia ter sido escrito por um autor que não precisa provar mais nada, porque já se tornou um clássico, além da vida e da morte, como um poema de Eliot: "Morremos com os agonizantes: / Vê, eles nos deixam, e com eles seguimos. / Nascemos com os mortos: / Vê, eles retornam, e nos trazem consigo."

"– Sempre pensei que seria bom se o senhor me respondesse com sinceridade – passou Shinshin de imediato para as perguntas. – Seu Livro de Hiroshima foi lançado há cerca de quarente anos, correto? Desde então, foram muitos ensaios e participações em conferências internacionais defendendo o mesmo ponto de vista. O senhor é contrário à continuidade da manutenção de armamentos nucleares pelas grandes potências, correto? O senhor se opôs ao arsenal nuclear chinês e à retomada dos testes nucleares franceses. O senhor acredita que países detentores de arsenal atômico implementem espontaneamente um programa de abolição de seus armamentos? [...] O senhor tem esperança de que ocorrerá a abolição dos armamentos nucleares enquanto ainda for vivo? Mesmo sem essa expectativa, pode afirmar que continuará a argumentar contra os arsenais nucleares? É claro que o senhor tem toda a liberdade. / Segundo Vladimir, o senhor costuma citar a frase de um francês das antigas [Albert Camus] extraída de um livro do professor Musumi: 'O homem é perecível. Que seja, mas perecemos resistindo.' Essa também é sua liberdade." (p. 341)

Literatura japonesa
Sobre o autor: Kenzaburo Oe nasceu em 1935, em Ose, vilarejo das florestas de Shikoku, a menor das quatro principais ilhas do Japão. Oe tinha seis anos quando estourou a Segunda Guerra Mundial, durante a qual seu pai morreria. Uma de suas avós era contadora de histórias e carregava assim os mitos e as tradições do clã Oe, impactando o jovem Kenzaburo. Aos dezoito anos, pegou pela primeira vez o trem até a capital do país e, um ano depois, estudava literatura francesa na Universidade de Tóquio. Através da influência do realismo grotesco de Rabelais, passou a reinterpretar a história de seu povoado e a sua própria. Começou a escrever em 1957. Compôs um poderoso ensaio sobre o bombardeio atômico de Hiroshima e o terrível legado da catástrofe, além de uma extensa lista de ficção que se utiliza bastante do Japão pós-guerra para retratar uma geração marcada por tanta tragédia. A vida e a carreira literária de Oe entraram em crise com o nascimento de seu primeiro filho, Hikari, portador de uma deformidade craniana que lhe resultou em comprometimento cognitivo. Apesar disso e mesmo por causa disso, Oe adquiriu novo fôlego e nova perspectiva sobre a vida e a escrita, em que Hikari tomaria uma posição central. No Brasil, já foram publicadas as obras Uma questão pessoal (2003), Jovens de um tempo novo, despertai (2006), 14 contos de Kenzaburo Oe (2011) e Morte na água (2021), todas pela Companhia das Letras. Recebeu os mais importantes prêmios literários do Japão, incluindo o Akutagawa, o Tanizaki e o Yomiuri; em 1994 foi premiado com o Nobel de Literatura.

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