Zeka Sixx - Não se começa um incêndio sem uma faísca

Literatura brasileira contemporânea
Zeka Sixx - Não se começa um incêndio sem uma faísca - Editora Penalux - 238 Páginas - Capa e diagramação de Talita Almeida - Lançamento: 2023.

Em seu mais recente lançamento, Zeka Sixx segue a linha de sexo, drogas e Rock 'n Roll de seu romance anterior, Tudo o que poderíamos ter sido, inclusive com alguns personagens recorrentes como o ator pornô Max Califórnia e a escritora Bianca Rossi, a rainha dos excessos das noites de Porto Alegre. A narrativa é ambientada em um país pós-pandemia às vésperas da nossa recente e disputada eleição presidencial. Vicente, ou Vic como é chamado pelos amigos, é um arquiteto na crise da meia-idade, casamento estável com filho de três anos. Tudo está prestes a desmoronar quando ele recebe o insistente convite de um amigo para atuar como DJ na sua festa de aniversário, uma noite apenas será suficiente para que ele se sinta "de volta á selva" depois de conhecer o furacão Bianca Rossi.

A condução da narrativa é alternada em primeira pessoa entre Vic e Bianca, algumas vezes descrevendo uma mesma cena, o que proporciona boas alternativas para o autor que soube como conduzir as vozes masculina e feminina de forma convincente ao longo de todo o romance. Ambos os protagonistas buscam algum sentido para suas vidas com base em um hedonismo desesperado e sem limites, tanto na prática do sexo quanto no consumo de drogas. Vic sente que os melhores dias da juventude já ficaram para trás e tenta recuperar os estragos do tempo no seu corpo, enquanto Bianca, apesar de ainda jovem, na faixa dos trinta anos, passa por um período de baixa na sua carreira de escritora de livros eróticos e problemas com as redes sociais que afetam a sua vida pessoal, já bastante confusa.

"Não faz sequer dez minutos que assumi o comando do som e já tenho certeza que estou pagando um mico do caralho – ao que parece, ninguém quer realmente desenterrar os anos 90. 'Não sou e nunca fui DJ, porra!', eu havia dito para o Fernando, quando ele veio com o papo há duas noites, enquanto tomávamos uma cerveja na Lancheria do Parque, de querer que eu discotecasse na sua festa de aniversário. Mas eu já sabia que estava condenado a aceitar o convite: acho que nunca consegui vencer uma discussão com o Fernando, ou demovê-lo de levar adiante alguma das suas ideias mirabolantes. – Ah, Vic, qual é cara? Só uma horinha que seja, vai? É meu aniversário de 45, cacete! Talvez tu seja o cara com o melhor gosto musical que eu conheço, sério mesmo. Lembra aquelas festas épicas no teu apartamento  na época da faculdade? Tu assumia a trilha sonora e não deixava ninguém se meter. E com toda a razão! Era uma música perfeita depois da outra, a galera ia à loucura – Fernando discursou, enquanto sinalizava ao garçom da Lancheria, pedindo mais uma garrafa de Original." (P. 9)

Como em outras obras do autor, a trilha sonora é um dos destaques que merece até um resumo no final do livro com a playlist de cada capítulo, incluindo referências de várias épocas, tão diferentes quanto: Beck, Lou Reed, Sex Pistols, New York Dolls, Joy Division, Rage Against the Machine, Blondie, Bob Dylan, Morrisey, Oasis, The Clash e outras mais improváveis como: Milli Vanilli, Icona Pop e Culture Club. Comentários sobre letras também são um ponto forte de Zeka Sixx, como quando cita "Never Tear Us Apart" do INXS, cuja beleza me passou despercebida até hoje: "But if I hurt you, I’d make wine from your tears", uma pérola do Pop/Rock sem dúvida.

"Antes que ele tenha tempo de dizer algo que possa estragar este momento crucial, interrompo o seu papo furado, beijando-o com toda a dose extra de entusiasmo que o ecstasy é capaz de proporcionar. Ele retribui, é claro. Há algo de diferente no beijo dele, para além do agradável gosto de Bombay Sapphire e da sua língua que promete mil e uma loucuras quando estiver devidamente encaixada em minha buceta – dentro de poucos minutos, espero. E há algo familiar na forma como ele se contorce e se chacoalha, em um arrepio, quando apalpo o seu pau por cima da apertada calça de sarja preta: é a mesma reação que tenho quando Vic, transtornado pelo beijo, ergue meu corpo, deitando-o por cima da mesa de som, e em seguida puxa para baixo um dos lados do meu top, para sugar o meu mamilo esquerdo. Extasiada, atiro minha cabeça para trás, enxergando, em uma visão de cabeça para baixo, o público pulando enlouquecido – não consigo entender se por causa de 'Rocks', do Primal Scream, ou do nosso pequeno show erótico, ou ambas as coisas – e dois seguranças avançando, furiosos, em nossa direção. Fecho os olhos, descendo as cortinas do espetáculo." (pp. 45-6)

Um final feliz parece uma meta impossível para esses personagens fúteis e melancólicos, aparentemente sem futuro, vivendo uma felicidade instantânea a qualquer custo, mas a pegada bem-humorada de Zeka Sixx não nos deixa desanimar. O livro é um ótimo entretenimento e resume muito bem esta nossa sociedade cada vez mais sem esperanças no campo político ou pessoal, uma época na qual as redes sociais como: facebook, twitter e instagram (sem falar no famigerado WhatsApp), e outros aplicativos criados supostamente com o objetivo de aproximar as pessoas, tais como Tinder e Happn, atingem um resultado completamente oposto na prática.

"Mas o monstro chamado Instagram precisa ser alimentado com frequência. Aquilo que antes era mostrado com certa naturalidade, pequenos flashes improvisados do cotidiano, passou a ser meticulosamente calculado, planejado para gerar a maior repercussão possível. Era preciso sempre considerar os horários, as temáticas, as palavras e as imagens que iriam gerar maior 'engajamento'. Vocês têm ideia de o quão aprisionador é ter de sempre pensar em como um milhão de pessoas reagirão a qualquer foto ou texto que você queira publicar na internet? Logo, meus dias passaram a ser panejados com base no que eu pretendia postar. Eu não postava uma foto no restaurante Oteque, no Rio de Janeiro, porque havia ido ao Rio de Janeiro; eu viajava ao Rio porque havia planejado postar uma foto no Oteque. / Eu não era uma rainha com um milhão de súditos; era a escrava de um milhão de donos." (pp. 182-3)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Zeka Sixx nasceu em 1983 e mora em Porto Alegre/RS. É advogado, DJ e escritor, já tendo publicado o livro de contos "O Caminho dos Excessos" (Edição do Autor, 2015) e os romances "A Era de Ouro do Pornô" (Editora Multifoco, 2016), este livro ganhou uma segunda edição em 2021, pela Saraquá Edições  e "Tudo o que Poderíamos Ter Sido" (Editora Coralina, 2020) – Ler aqui resenha no Mundo de K. Seu estilo é desbocado, vulgar, por vezes pornográfico, mas ao mesmo tempo cômico, poético e delirante.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Não se começa um incêndio sem uma faísca de Zeka Sixx

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