Don DeLillo - Zero K

Literatura norte-americana

Don DeLillo - Zero K: A Novel - Editora Scribner - Lançamento original em 2016 (Publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras em 15/09/2017 com o título de Zero K, 224 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto - Leia aqui um trecho em pdf Disponibilizado pela Editora).

Não há dúvidas sobre a consistência e qualidade da produção literária de Don DeLillo, premiado em 2010 com o PEN/Saul Bellow Award, igualou-se a Philip Roth (2007), Cormac McCarthy (2009) e Toni Morrison (2016), outros grandes nomes da literatura contemporânea dos Estados Unidos agraciados anteriormente. Os seus romances exploram problemas modernos da sociedade norte-americana como poluição, terrorismo e a era digital. Em seu mais recente romance, Zero K, o tema é a eterna aspiração humana pela imortalidade, representada aqui pelo procedimento de preservação de corpos a baixa temperatura, um processo já conhecido como criogenia, que considera a possibilidade de que os avanços da medicina e tecnologia permitam ressuscitá-los em um futuro remoto. O argumento bem poderia ser classificado à primeira vista como ficção científica (embora também o seja), contudo, Don DeLillo vai bem mais além, sem querer desmerecer o gênero.

Jeffrey Lockhart é chamado pelo pai, Ross, para acompanhar, juntamente com ele, os últimos momentos da sua madrasta Artis Martineau que sofre de um mal degenerativo e será submetida, imediatamente após o seu falecimento, a um processo de preservação criogênica, sendo o seu corpo armazenado por tempo indeterminado em uma capsula com a temperatura controlada. As instalações onde será realizado este procedimento, assim como o armazenamento da capsula em uma cripta no subsolo, ficam localizadas em uma remota região da antiga União Soviética, hoje Quirguistão, e o empreendimento, que tem Ross como um dos patrocinadores, chamado de Convergência. O toque de gênio de Don DeLillo fica claro quando ele imagina que alguma consciência, ainda remanescente, possa ter sobrevivido na cápsula criogênica, independente da viabilidade científica (aqui a abordagem é completamente ficcional), não deixa de ser um devaneio fascinante como podemos comprovar no trecho em destaque abaixo.
"Solidão, sim. Imagine-se sozinho e congelado na cripta, na cápsula. Novas tecnologias permitirão que o cérebro funcione no nível da identidade? É isso que vocês talvez precisem encarar. A mente consciente. Solidão in extremis. Pense na palavra inglesa: 'alone'. Do inglês médio, 'all one'. Todo, um. Você se despe da pessoa. A pessoa é a máscara, o personagem criado no pot-pourri de dramas que constitui a sua vida. Cai a máscara, e a pessoa se transforma em 'você' no sentido mais verdadeiro. Todo um. O eu. O que é o eu? Tudo que você é, sem os outros, nem amigos nem estranhos nem namorados nem filhos nem ruas para percorrer nem comida para comer nem espelhos em que se ver. Mas será que você é alguém sem os outros?" (Pág. 67)
O romance é narrado em primeira pessoa por Jeffrey que relembra momentos do seu passado e problemas decorrentes da separação dos pais, inclusive a morte da mãe, tudo isso enquanto explora as instalações do complexo da Convergência. A experiência ficcional fica ainda mais interessante e o foco narrativo muda quando um capítulo inteiro é dedicado aos pensamentos de Artis após o congelamento: "Mas será que sou quem eu era.", "Acho que sou alguém. Tem alguém aqui e eu sinto isso em mim ou comigo.", "O tempo. Eu sinto o tempo em mim por toda parte. Mas não sei o que ele é." e assim por diante, por toda a eternidade. Um "diálogo" claustrofóbico consigo mesmo, difícil imaginar algo mais parecido com o inferno. Não deixa de ser irônico o fato de que, para preservar a vida, o homem tenha criado uma morte sem fim. Este é um dos paradoxos que me ocorrem após a leitura de Zero K. 

Quando o próprio Ross Lockhart decide se submeter ao processo de congelamento, antecipando a sua morte natural e juntando-se a um grupo de voluntários chamados de "arautos", percebemos que o empreendimento científico se transforma aos poucos em uma espécie de seita. DeLillo levanta uma série de questionamentos religiosos, filosóficos e, é claro, também éticos, no decorrer do romance, como por exemplo: "Será que a morte é uma coisa boa? Não é ela que define o valor das nossas vidas, minuto a minuto, ano a ano?", "Qual o sentido da vida se ela se torna ilimitada?", "O que significa morrer?", "Onde estão os mortos?", "A morte é um hábito difícil de perder.", "O que vamos encontrar aqui? Uma promessa mais garantida do que os outros mundos inefáveis das religiões organizadas do mundo", "Precisamos mesmo de uma promessa? Por que não morrer, pura e simplesmente? Porque somos humanos e nos apegamos. Neste caso, não a uma tradição religiosa, mas à ciência do presente e do futuro."

Obviamente, um blog chamado Mundo de K não poderia ficar indiferente a um livro que contenha a letra K em seu título, mesmo que, neste caso, a letra tenha uma conotação científica e não literária (como é o caso do personagem K de Franz Kafka em O Processo). Neste romance, K representa Kelvin, unidade de temperatura termodinâmica, sendo convencionado que o zero absoluto, ou 0º K, é o equivalente a uma temperatura de -273,15 ºC. De qualquer forma, a ciência nas mãos de Don Delillo é só uma desculpa para que ele mostre o que sabe fazer melhor, escrever sobre os impasses do homem contemporâneo diante de um mundo confuso onde até a morte perde o sentido.
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