Krishna Monteiro - O Mal de Lázaro

Literatura brasileira
Krishna Monteiro - O Mal de Lázaro - Editora Tordesilhas - 176 Páginas - Lançamento: 26/01/2018 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora)

Krishna Monteiro escolheu para epígrafe do seu romance de estreia um trecho do poema "A Máquina do Mundo" de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), incluído em "Claro Enigma" de 1951 e eleito em 2000 o melhor poema brasileiro do século XX por um grupo de críticos e especialistas consultados pelo jornal Folha de São Paulo. A citação é bem mais do que uma mera referência estética porque, assim como no famoso poema de Drummond, o protagonista de "O Mal de Lázaro" se isolou do mundo ao longo da vida e tem uma possibilidade de retorno, revelação ou redenção, por meio da arte, em uma das possíveis interpretações do poema e do romance.

No início, encontramos o protagonista caminhando por uma trilha "pedregosa" e com "passo seco" no "fecho da tarde", alegorias que remetem ao poema inspirador e resumem os percalços da sua vida. Ele é perseguido por uma multidão e, neste momento, é avistado por uma misteriosa mulher que será a narradora e o fio condutor de toda a trajetória em retrospectiva, não necessariamente em ordem linear, desde a infância até aquele momento. Não há pistas sobre o enquadramento dos personagens no tempo e no espaço, um primeiro sinal de que Krishna Monteiro está mais interessado em lidar unicamente com o comportamento humano, desprezando qualquer influência geográfica ou de época. Os personagens também não têm nome, exceto por Lázaro que é "batizado" desta forma pela narradora. Todas essas características, assim como as referências bíblicas, reforçam o tom de parábola que me fez lembrar em alguns momentos dos livros de José Saramago.

O autor conseguiu obter um raro efeito com a alternância entre as vozes na primeira, segunda e terceira pessoas, apesar de utilizar uma única narradora (e um protagonista que não fala). Explico melhor: a narradora misteriosa faz valer o discurso narrativo direto e ativo na sua própria visão dos acontecimentos (primeira pessoa), enquanto uma inusitada condução dos fatos pelos "pretensos" diálogos que ela realiza com o protagonista Lázaro (segunda pessoa) é desenvolvida e, finalmente, uma descrição onisciente e passiva (terceira pessoa) devido ao conhecimento geral que ela parece dominar de toda a trama, por motivos que serão sugeridos ao leitor gradativamente, não quero adiantar aqui a minha própria interpretação.
"Então é aqui que vives. Em frente a uma janela que se descortina sobre paisagens várias, distintas a depender do ângulo pelo qual se olha: uma praça e um beco, telhados encadeados, a solidez de um prédio logo à frente se elevando como divisa de alvenaria. Folhas da janela que se debatem sendo contidas, refreadas por tuas mãos, que as fecham e trancam, fazendo com que escureça o mundo e eu tateie cega atrás de ti. Por pouco tempo; pois as mesmas mãos nos reaproximam ao acender, recriar a luz. Então é aqui que habitas." (Pág. 21)
Lázaro se fechou completamente ao mundo e a sua sensibilidade original foi esmagada por ter sido forçado a trabalhar em um matadouro desde pequeno, contudo, como simbolizado no poema de Drummond, existe uma possibilidade de redenção pela arte. Ele reproduz todas as noites, em desenhos e pinturas realistas, as expressões dos animais abatidos durante o dia, como se pudesse trazê-los de volta à vida: "Desenhas como quem guia o rebanho em sentido oposto ao dos que o arrastaram até o curral" (Pág. 88). O cuidado de Krishna com a construção do texto, seja nas passagens brutais que descrevem o trabalho no matadouro ou na descrição do vitral que representa a ressurreição de Lázaro de Betânia, inspirado em um quadro de Van Gogh, é pura poesia.
"Antes de correr em feixes e pousar no extremo oposto da igreja, a luz se deixou coar pelo vitral. É uma peça única, isolada que destoa da austeridade de madeira e pedra de onde estamos. Seus fragmentos e cristalizações de vidro compõem a cena de um homem deitado numa gruta, enfaixado em trapos. Feridas secas lhe recobrem o corpo, e sua sepultura acabou de ser aberta. Ele acorda, cego pelo disco de sol pintado ao longe; olhar confuso para um mundo que pensava ter deixado para trás e tenta reconhecer duas mulheres aos seus pés ajoelhadas: uma delas, de vestido verde, estica para o alto os braços, dá graças pelo irmão ressuscitado; outra contempla a pele deste homem, que cicatriza sem deixar vestígios. (...) A luz cruza o vitral, fixado sobre a porta de entrada. Corre sobrepairando a extensão de um espaço que seria vazio não fosse minha presença, e a tua, e a do padre aqui. O sacerdote limpa os olhos, arruma vestes e paramentos. Contempla o outro extremo e percebe que, atrás da esfera de sol que domina a cena pintada em vidro, outro sol se ergue; e vê assim dois sóis se alinharem, um elevado por pincéis e mãos, outro de matéria incandescente e viva." (Pág. 53)
À medida que a sensibilidade artística de Lázaro parece retornar, avança, ao mesmo tempo, a doença provocada pelo toque da narradora em suas mãos: "o mal de Hansen, o mal do estigma, a lepra, o mal de Lázaro" (Pág. 82). Ele começa a ouvir vozes e sons que simbolizam a sua abertura ao mundo, um processo doloroso que ele descobre poder interromper ao reproduzir em seus desenhos a origem desses sons. Na cidade, corre a novidade do suposto milagre provocado por Lázaro ao trazer de volta à vida um mendigo no mercado. As pessoas buscam a sua ajuda para amenizar os próprios problemas representados por "ruídos vindos de longe" e ele consegue algum tipo de alívio temporário para todos com seus desenhos, novamente aqui o simbolismo da cura pela arte.
"Dizem os versados na ordem natural das coisas que os sons são ondas. Propagam-se pelo ar segundo as mesmas leis de anéis concêntricos da pedra que perfura a água. O homem que fala é pedra. Ao falar, fura o ar como se fosse água; ao arremessar no mundo o peso de sua voz ela se irradia e alastra, ouvida primeiro por aqueles que junto dele vivem, depois em casas e ruas adiante, e talvez além, nas praças e bairros próximos, captada por homens com audição mais fina; depois decrescerá de amplitude, suas vibrações deixando-se fundir ao ar. Não cessará a voz de existir porém: aos cães, aos pássaros, a todos os seres de sentido aguçados ela ainda se permite. E o homem que gritou já há alguns minutos e que calado esqueceu em meio a outros afazeres a razão da própria raiva não pode imaginar que ele, que seu grito, que ale ainda percorre a terra, atravessando o espaço, captado não mais na cidade, pois a abandonou faz tempo, mas sim por roedores e seres das campinas, que fogem julgando haver um inimigo ali; mas pouco a pouco até mesmo àqueles não mais será dado ouvir." (Pág. 67)
O autor repete neste livro a prosa bem construída já presente na sua antologia de contos "O que não existe mais", finalista do Prêmio Jabuti na categoria Contos em 2016 (ler aqui resenha do Mundo de K). "O Mal de Lázaro" é um romance repleto de simbolismos e múltiplas interpretações, definitivamente uma leitura nada simples e que exige atenção redobrada do leitor, porém muito recompensadora porque incomoda e faz pensar, tudo o que esperamos de um bom texto de literatura. 
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