Thiago Medeiros - Claro é o mundo à minha volta

Literatura brasileira contemporânea
Thiago Medeiros - Claro é o mundo à minha volta - Editora Patuá - 148 Páginas - Editor: Eduardo Lacerda - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019

Thiago Medeiros "escreve para não esquecer de si mesmo", esta é a declaração que encerra a biografia resumida do autor no final do livro, muito mais do que uma linda frase – como ela realmente é –, resume um compromisso do escritor e poeta com tudo aquilo que é próprio da natureza humana ao se deparar com os sinais de sua grandeza e também de suas limitações. É na busca de sentido para uma breve e frágil existência que a literatura sempre oferece não uma explicação, mas ao menos algum tipo de conforto, uma espécie de alternativa para a religião, que me perdoem os leitores pela força de expressão.

O autor trabalha com a representação das transformações do corpo como matéria-prima poética e metáfora para descrever os estados da alma dos seus personagens em constante estado de descoberta do mundo à sua volta, um processo nem sempre claro ou luminoso, como pode sugerir o título irônico. Recomenda-se atenção redobrada ao ler um livro de autor estreante com apresentações tão elogiosas quanto as de Raimundo Carrero e Marcelino Freire, dois dos maiores ficcionistas brasileiros contemporâneos. Fica evidente que vem coisa boa por aí quando Marcelino define a escrita de seu conterrâneo como "cheia de nervuras, de mausoléus aristocráticos, de catacumbas e asas translúcidas."

E, de fato, encontrei neste livro uma forma de escrever ficção original e poderosa, que não se deixa enquadrar com facilidade nas categorias tradicionais, hoje já com fronteiras cada vez mais nebulosas entre o conto, novela ou romance. As narrativas, ou contos, de Thiago Medeiros, por falta de definição melhor, são divididas em unidades independentes, como se fossem capítulos, com subtítulos, criando assim uma dinâmica no texto que oferece opções de inflexão para o autor nas transições entre conflitos e apresentação de personagens ao longo de suas histórias. 

No parágrafo de abertura de Desatinado resfolegar, uma descrição ao mesmo tempo sensorial e poética do ambiente no qual encontramos o protagonista cego, envelhecido, apaixonado e escravizado por uma mulher que é apenas insinuada, talvez um grande amor impossível do passado. Contudo, recomenda-se novamente cautela com as interpretações precipitadas, nada é o que parece neste universo ficcional em que estamos entrando, muitas revelações surpreendentes estão reservadas ao leitor que se mantiver atento até o final.
"Só porque não mais enxergo não quer dizer que ela deveria andar assim tão nua por aqui. Basta que o som da porta sendo fechada e o girar das chaves ressoem para que eu ouça o breve roçar da roupa sobre a pele, num farfalhar de asas inúmeras e miúdas, deslizando na monotonia de um único caminho possível, sem voltas, para adormecer abandonada sobre o chão, e então libertarem-se todos os cheiros escondidos pelo cárcere das roupas. Tudo agora tão livre e rasgante pelo ar, enquanto ela, outrora semente e casulo, eclode em borboleta e flor." - Desatinado resfolegar (p. 11)
Na passagem abaixo, extraída do conto que empresta o título ao livro, conhecemos um personagem cativante e convincente, um menino que nos faz rir ao descobrir toda a sensualidade no "verniz de madeira lustrada no busto de Cirlene", sua exuberante vizinha que prenuncia as delícias da vida adulta, novamente o foco do autor no ciclo da existência: nascimento, amadurecimento e morte. A narrativa aqui é feita de forma visual, quase cinematográfica, na beleza do contraste entre o sutiã vermelho de Cirlene contra os lençóis brancos pendurados no varal. A ação avança sempre apoiada em uma linguagem rica em ritmo e significados que, muitas vezes, mais parece poesia do que prosa.
"Agarrado aos testículos miúdos, Renato sobe nuns caixotes para espiar a casa vizinha. Ficou um tempo contemplando o movimento nenhum do varal acortinado de lençóis brancos até sentir um aperto nos rins. Um talho encarnado rasgava a alvura da névoa dos lençóis. Uma brisa saída sabe-se lá de onde fazia girar raivoso o sutiã vermelho de Cirlene." - Claro é o mundo à minha volta (p. 96)
Em Amargo xilofone para suicidas, o tema é a morte na sua forma mais cruel e dolorosa, o drama da perda prematura de um filho, levado por uma doença incurável. Um fotógrafo é contratado pelo pai para registrar a exumação do corpo do filho, "uma foto de um momento específico: o exato instante da abertura do caixão", situação absurda para descrever outro absurdo ainda maior: a falta de sentido da existência que, segundo Albert Camus em O Mito de Sísifo, o homem deve aceitar como um fato inevitável para, somente assim, conseguir encontrar a própria liberdade. A humanidade é mesmo um enigma sem solução.
"Já estava muito espalhado quando detectaram o de Isaque. Os ossos eram uma espécie de ente carnívoro autófago. Escasseava-se. As carnes alimentando o esqueleto. Murcho. Apenas pele e tendões. O trepidar sôfrego das veias e artérias às vistas de qualquer um. Revirado e arregaçado por técnicos e técnicas, radiologistas, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas. Uma bata esverdeada serviu de vestes por meses e em nada servia para cobrir o que já não tinha necessidade de pudores. Jovem demais para morrer tão velho. Chegou a pesar trinta e dois quilos." - Amargo xilofone para suicidas (p. 51)
Thiago Medeiros é pernambucano de Caruaru. Escritor e produtor cultural, idealizador do Encontro Literário Letras em Barro, cuja segunda edição foi realizada em outubro de 2018. Participou da Oficina Literária de Raimundo Carrero. Menção Honrosa no II Prêmio Pernambuco de Literatura, com a obra Púrpura, Encarnado em Escarlate, ainda não publicada. Escreve para não esquecer de si mesmo.

Comentários

sonia disse…
K, pena que nos tiraram o G+. Sorte que posso continuar seguindo-o pelo blog. Mundo cruel. Deixam que a gente se acostume a comer o manjar e de repente tiram o prato do nosso alcance. Esse é o mundo!!!

Abraço,
Sônia
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sonia, que bom existirem outras formas de acompanhar as postagens além do G+! Muito obrigado por seguir o Mundo de K! Abs, Kovacs
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