Thiago de Barros - N(ovo)

Literatura brasileira contemporânea
Thiago de Barros - N(ovo) - 176 Páginas - Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Distrito Federal - Coordenação Editorial: Thiago de Barros - Design Gráfico: Hugo Pereira - 2ª Edição, 2019.

Tudo é válido na polifonia narrativa de Thiago de Barros, incluindo a presença de Clarice Lispector, Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu, em uma espécie de sessão mediúnica literária ou, nas palavras do próprio autor, uma "psicografia inventada". Bruxaria, fantasmas, pássaros, anjos e demônios, sem faltar os célebres pactos com o demônio, também estão presentes neste romance experimental que mistura elementos de filosofia, ficção e metalinguagem.

O autor escolheu uma epígrafe certeira do último livro de poesias de Hilda Hilst, Cantares do sem-nome e de partidas (1995), Cantares III: "Isso de mim é marulhoso / E tenro. Dançarino também. Isso de mim / É novo: Como quem come o que nada contém. / A impossível oquidão de um ovo." O livro é dividido em quatro capítulos, O vácuo, O voo, O ovo e De novo, todos nomeados com anagramas da palavra ovo, uma representação para nascimento, morte e recomeço. "O dia em que eu comecei a falar com os fantasmas foi puro acaso. Estava à mesa, sentado, com um ovo à minha frente, e de repente, tudo começou. Foi como se eu soubesse quem chamar, quando, como..." (p. 89)
"Então resolvemos combinar. Clarice seria minha assessora para assuntos místicos, ocultos, a exploração da escada e a descoberta dos mistérios. Hilda seria minha consultora para assuntos mais sérios e os menos sóbrios. Minha cúmplice de loucura e conselheira da minha disciplina com as letras. Caio seria o sorriso de dentes falhados sempre se divertindo e a nós. Caio me ensinaria sobre o sexo. Como ser um amante de prazeres no mundo da carne, sem correr perigos. Caio me ajudaria a estar protegido contra as doenças do sexo, os sexos fatais. Caio queria mais, muito mais. Deseja o mesmo a mim. E sorri, dizendo que tudo bem. Pode ser. Ele espantaria os morcegos comigo. Mas eu não sou preservativo, hein, amigo! Cada um faz sua parte. Eu ganharia dinheiro para lhes dar presentes, anualmente. Hilda disse isso. Gosto de ser lembrada. O gesto vale mais. A referência e reverência. Eu aceito." Trecho de O voo (p. 79)
Publicado inicialmente em formato digital, de maneira independente, pela plataforma Amazon KDP em 2016, o livro agora foi lançado em uma bonita edição impressa artesanal com projeto gráfico especial e formato de audiolivro, gravada com as vozes de diversos artistas brasilienses, de modo a refletir a polifonia da narrativa. Algumas partes se destacam como referências de alto nível literário como, por exemplo, o início do terceiro capítulo, O ovo, que poderia ser considerado como um conto isolado, leiam no trecho abaixo em destaque.
"Depois, viu-se morto. Ali, estalado no chão, caído. A primeira vez que conseguia ver o corpo. Mesmo quando estava voando nos sonhos, nunca conseguia a imagem da cama, onde o corpo deveria estar. No sonho, era fuga da matéria, era deixar o corpo para trás e não ter medo do cordão de prata se romper no percurso. Não ter medo. É o que ensinava o voo mais belo no mundo dos sonhos. O corpo estava lá, prensado contra o poste de luz, ainda aceso. O parachoque do carro como prensa, para o choque de tudo aquilo. Ele ao lado. A dor do corpo era fora dele, ainda bem! Estava calmo. Os vivos e outros fantasmas ao redor pareciam saber tão pouco quanto ele sobre os fatos, o motivo de o carro ter entrado assim, tão apressado, no cruzamento. Na calçada de cimento, em frente ao restaurante. No poste de luz. Luzes. Tudo brilhava. O poste. A dor do corpo fora dele. A morte recém-nascida em seu fantasma sem fio de prata." Trecho de O ovo (pp. 95 e 96)
Sobre o autor: Aquariano nascido no dia de Iemanjá no interior de São Paulo, Thiago de Barros reside há dez anos em Brasília, onde atua como pesquisador, produtor cultural, poeta e artista multilinguagens. Psicólogo e mestre em ciências do comportamento pela Universidade de Brasília, sua pesquisa de interface entre a psicologia e diferentes campos das artes tem fomentado sua própria produção artística. N(ovo) é seu romance de estreia. Thiago tem ainda um livro de contos intitulado Onirotopia, publicado na mesma plataforma em 2017. Atualmente desenvolve a coletânea de contos-visuais Nanocatimbó – conto matéria plástica. 

Comentários

T. disse…
Alexandre,
Fico feliz por ter voado comigo nessas letras e por suas palavras atenciosas.
Um abraço!

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