George Alex Andrade - Detox

Literatura brasileira contemporânea
George Alex Andrade - Detox - Volume 1 da série Peripécias Peripatéticas - Editora Chiado - 694 Páginas - Capa: George Alex Andrade - Composição gráfica: António Afonso - Lançamento: 2021.

Na Clínica Büngzli, localizada nas proximidades de Lucerna na Suíça, um método de desmemoriação ou desintoxicação autobiográfica, permite aos pacientes se livrarem de suas memórias tóxicas em questão de horas ou dias. Segundo o Dr. Carl, idealizador do processo, a população mundial se tornou dependente da tecnologia e dos psicotrópicos utilizados para todas as finalidades, submetendo-se ao domínio do mundo virtual com a popularizaçao das mídias sociais, fato que provocou uma verdadeira "onda tecnológica zumbificante", inibindo a capacidade de reflexão própria das pessoas e transformando-as em mortos-vivos. Logo, para reconstituir a liberdade do pensamento, é necessária uma intervenção purificadora pelo tratamento de desmemoriação, resumido no seguinte lema: "Somente ao esquecer é que podemos lembrar".

No longo primeiro volume da obra de estreia de George Alex Andrade, toda a ação ocorre durante um almoço no qual Antoine e Anne, dois jovens brasileiros em tratamento na clínica, relembram passagens de suas vidas. Ele, diagnosticado como portador de uma personalidade melancólica, classificado pela letra "M" (de melancholisch) e com resultados promissores após as primeiras sessões do tratamento. Ela, em oposição, definida como colérica, ganha um enorme "C" (de cholerisch) na sua ficha médica após a avaliação inicial do Dr. Carl e não consegue obter progressos, mesmo após quatro meses internada. Esta divisão de temperamentos é inspirada na escola de Hipócrates que considerava quatro grandes grupos: sanguíneo (expansivo, otimista, mas irritável e impulsivo), fleumático (sonhador, pacífico e dócil, preso aos hábitos e distante das paixões), colérico (ambicioso e dominador, tem propensão a reações abruptas e explosivas) e melancólico (nervoso e excitável, tendendo ao pessimismo, ao rancor e à solidão).

"[...] Fica pior depois de anos de exposição aos meios de comunicação de massa. É uma decadência perceptiva gradual. O sujeito começa assistindo duas horas de programação por dia, depois três, quatro, cinco horas, até que, em pouco tempo, acompanhará cada vez mais os seriados, filmes, novelas, entrevistas, shows, premiações, programas de auditório, programas de culinária, concursos gastronômicos e até tolos vídeos caseiros. Seu apetite por imagens aumenta sua voracidade. Vinte e quatro horas em frenesi constante, o indivíduo não conseguirá mais adormecer naturalmente, convertendo-se em um insone crônico (ou ainda um insone insano). No decorrer do tempo, a exposição excessiva vai corroer por completo sua atenção. Por isso, em um estado crônico de desatenção e carência, o telespectador vicioso ficará sem concentração nenhuma. Sem ter capacidade para refletir, ele deixará que a publicidade, a imprensa, as celebridades, os apresentadores, os colunistas e os influencers pensem por ele. Nasce assim um morto-vivo, uma espécie muito comum em nossa atualidade. Um ser sem opinião própria, que nunca dorme direito e nunca descansa em paz, dependente de excitação contínua dia e noite, que vota mal e faz péssimas escolhas, e não consegue se concentrar ou ter uma visão para seu futuro. Um ser que oscila entre o sono e a vigília, entre a vida de escravo e a morte da inteligência sensível." (p. 89)

Apesar dos traços psicológicos tão distintos, algo parece aproximar Antoine e Anne, quando os dois personagens amnésicos estabelecem um diálogo sobre filosofia, história e artes em geral. Por sinal, o que verdadeiramente impressiona neste romance é a prosa caudalosa tão contrastante com a maioria dos romances e novelas contemporâneas que raramente ultrapassam as duzentas páginas. O conhecimento enciclopédico do autor consegue incluir na narrativa assuntos que variam de filósofos pré-socráticos até Heidegger, cultura indiana medieval ao orientalismo, neurociência e psicologia, assim como ciência política.

"Um pouco após sua chegada a Büngzli, ao fim da primeira sessão de Mnemodetox, Antoine se sentiu como uma múmia ressuscitada dos mortos, depois de acordar de um sono de milênios e se deparar com outra realidade, olhando tudo com estranheza e temor. Tudo era inusitado, desconhecido e irreconhecível. Sua nave espacial, imaginou ele, parecia ter pousado em um planeta classe C, anos-luz distante de sua 'Homeland'. Aos poucos, contudo, o fato de nada saber lhe trouxe uma segurança fenomenal, deixando-o atônito diante daquela magnífica epifania. Sentiu-se mais ousado e confiante, qualidades que ele nunca possuíra em sua incerta, desequilibrada e instável existência. A mudança o surpreendeu. Nunca imaginou que não ter nada para pensar fosse tão prazeroso. Ignorance is bliss, declarou ele, contente e sereno, como qualquer outro suíço em sua 'comfort zone'. Mesmo desmemoriado das lembranças de sua família, Antoine estava feliz. Nunca se encontrou em tão bom humor e tão radiante. Nunca, desde o fim de sua infância, sorrira tanto. Estava tudo perfeito. Nada estava fora do lugar. Jurava que Büngzli era o próprio paraíso reconquistado. E isso era apenas o começo, assegurou o médico. Em breve estaria livre de todas as suas más lembranças. Que grande progresso! Exclamou mentalmente Antoine." (p. 318)

Chama a atenção a retrospectiva histórica recente da política brasileira com personagens "ficcionais" como o ex-presidente Barba Napoleão associado com escândalos de corrupção que, apesar das condenações e a prisão de vários colegas de partido, conseguiu convencer os eleitores de que tudo fazia parte de um plano para denegri-lo, passando o cargo para sua sucessora, Vilma Vana, somente para, logo depois, ser preso e esquecido por seus eleitores. Finalmente, chegando até o nosso presidente atual: "Assim que iniciou seu mandato, o novo presidente eleito, Palmito Demofante (cognome 'o Louco') instituiu o vulgarismo como filosofia no lugar do barbarismo do governo anterior. Uma ideologia criada por Ivano Barbalho, um guru brasileiro expatriado nos Estados Unidos [...]". Seria cômico se não fosse trágico.

"Na verdade, Anne estava passando por uma fase nada satisfatória em sua prolongada permanência em Büngzli. Depois de quatro meses sem obter resultado em seu tratamento, tudo a irritava. Qualquer outro ruído (além, claro, daquele provocado pelo choque de um talher no piso cerâmico) teria despertado ainda mais a ira da jovem. Nos últimos meses, descrente em seu tratamento, ela chegara, por fim, ao seu clímax mais negativamente plutoniano possível. Distanciada dos outros pacientes e negligenciada pelos pais, ela imaginou-se sozinha morando em Marte. Nessas condições extremas, o isolamento muito contribuiria para elevar seus níveis de hormônios a uma escala nunca alcançada, tornando assim sua própria fisiologia uma Estação no Inferno. Ultimamente sentia-se em um delicado e suscetível estado de nervos, como se estivesse prestes a menstruar. Internada pelo pai depois de um surto doméstico (em que quis quebrar toda a coleção de xícaras da avó), ela atravessava agora uma nova fase em sua vida. Mesmo tendo transcorrido um considerável tempo de tratamento na clínica, ela ainda irritava-se com extrema facilidade, uma reação que algumas vezes adquiria tons um tanto dramáticos [...]" (p. 410)

Sobre o autor: Nascido em 1971, no Brasil, filho de uma professora de língua portuguesa e de um empresário da área de construção civil, George Alex Andrade iniciou sua formação artística em Goiânia, na antiga Escola Técnica Federal, onde enveredou pelo teatro, pelas artes plásticas e pela música. De todas as musas, porém, foi a paixão pela poesia que firmou seu compromisso com a arte, mesmo durante sua graduação na universidade, quando produziu “Segunda Pele”, sua primeira coletânea de poemas. Embora tenha cursado engenharia e trabalhado por muitos anos na área tecnológica, no Brasil e no exterior, desde 2002 ele dividiu seu tempo livre com a produção musical e também com a escrita, traduzindo em seu extinto blog textos e poesias de autores americanos, ingleses, italianos, espanhóis, franceses e japoneses. De volta da Espanha, em 2008, após manter contato com a cena artística barcelonense, iniciou-se como escritor, preparando roteiros para cinema e escrevendo contos. Pai de duas filhas, vive em Curitiba desde 2010. “Detox”, volume um da série Peripécias Peripatéticas, é sua primeira publicação.

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