Ronaldo Cagiano - Cartografia do Abismo

Poesia brasileira contemporânea
Ronaldo Cagiano - Cartografia do Abismo - Laranja Original Editora - 192 Páginas
Projeto Gráfico: Marcelo Girard - Lançamento: 2020.

A poesia de Ronaldo Cagiano tem como inspiração a fragilidade do homem contemporâneo em sua "solidão ambulante" diante de temas clássicos como a passagem do tempo ("O tempo, / esse morcego cego / a nos predar" - Memento Mori - p. 15) e a morte ("A morte é esta certeza exata e simples: / os mortos tão mais vivos do que nós!" - Diagrama - p. 37 ), enquanto a alma do poeta, essa resiste sempre ("Minha alma continua lá, / prisioneira das vertigens, / inquilina dos abismos." - Poema sem explicação - p. 61).

No entanto, os versos também refletem temas pessoais, seja nas lembranças de menino em Cataguases, Minas Gerais ("É o Pomba / o rio da minha cidade / que (per)correu minha infância / e ainda (es)corre em minhas veias / fatigadas do inútil navegar." - Relembrando Pessoa - p. 181) ou lançando um olhar de Portugal, onde vive atualmente, para as nossas mazelas sociais na inusitada precisão de uma bala perdida ("Mais exata do que nós, / em algum lugar do País / uma bala perdida / achará seu lugar" - Observatório - p. 48)

Deixo com vocês quatro exemplos da poesia madura e elegante de Ronaldo Cagiano, um estrangeiro, assim como nós, sobrevivendo nesta "inexpugnável selva digital".

PASSAGEIRO DA VÉSPERA
(p. 23)

E transporemos
sem náusea
a tragédia do existir

Milagre
ou resistência?

A flor atônita
desmoronando
sob o véu da madrugada

Serpentes na epiderme
cobiçando as vísceras

A velhice
com suas guerras afiadas
é um país
de muitas incertezas
nação desprovida
de milagres
ou ascensão

Esse comboio de artroses
estacionado
na noite indissolúvel
que se insinua de todos os lados

DISSENSÕES
(p. 75)

Falam com eloquência canina
sobre a guerra na Síria
e discorrem sobre o combate ao terrorismo
com a potência indignada
dos monopolistas
de uma funesta verdade

Muito mais perto
está a bala perdida
que fere sangra humilha animaliza mata
mas não comove nem mobiliza
como a tirania feroz
dos talibãs
a impune viagem dos mísseis da OTAN
ou a fúria assassina
do Estado Islâmico

A morte,
que não morre nunca,
tem endereços diferentes
tem dois pesos
            e duas medidas

E os homens,
sem perplexidade ou culpa,
continuam im(p)unes
em suas rotas de fuga
apáticos na zona de conforto
de suas ideologias

ESTRANGEIRO
(p. 131)

Não tem lugar
o homem de corpo e alma
nessa inexpugnável
selva digital

Cada ser deixou de ter
coração e linguagem
perdeu-se numa imensa teia

            devorado pela escuridão do não-ser.

Não-lugar
de tantos exílios.

DESCONSTRUÇÃO
(p. 136)

Essas pedras,
eis o que restou
de minhas perdas.

Sobre o autor: Ronaldo Cagiano, mineiro de Cataguases, formou-se em Direito e trabalhou na Caixa, tendo vivido em Brasília e São Paulo. Entre suas obras publicadas, destacam-se Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília de Literatura 2001), O sol nas feridas (Poesia, finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012) e Eles não moram mais aqui (Contos, 3º lugar no Prêmio Jabuti 2016, Editora Patuá). Mora atualmente em Portugal.

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