Cesare Pavese - Trabalhar cansa

Literatura italiana
Cesare Pavese - Trabalhar cansa - Editora Companhia das Letras - 384 Páginas - Tradução e introdução de Maurício Santana Dias - Capa de Victor Burton - Lançamento: 2022.

Um importante relançamento da Companhia das Letras que adquiriu parte do acervo da saudosa Editora Cosac Naify, incluindo esta obra que havia sido publicada no Brasil em 2009 como parte da Coleção Ás de Colete, com destaque para a primorosa tradução de Maurício Santana Dias, resultado de sua tese de doutorado: "Lavorare stanca: o projeto impossível de Cesare Pavese", apresentada à Universidade de São Paulo em 2002. Nesta edição bilíngue, foi preservada também a detalhada introdução do tradutor: "A oficina irritada de Cesare Pavese" que explica o contexto de criação dos poemas, assim como o processo de tradução.

Os poemas desta antologia, livro de estreia de Cesare Pavese, lançado originalmente em 1936 e publicado em sua forma definitiva sete anos depois, foram criados no período de 1930 a 1940, com inspiração na região de Piemonte, norte da Itália. Os versos expressam uma forte sensualidade, narrando o cotidiano rural e urbano de gente simples como prostitutas, trabalhadores do campo e bêbados, aproximando dessa forma a arte da vida, uma tentativa de romper com a alienação do movimento modernista da época, formado por poetas como Giuseppe Ungaretti e Eugenio Montale. No entanto, como bem destacado na introdução: "[...] ao contrário do que possa parecer à primeira vista, os poemas de Lavorare stanca não são simples: longe de serem obra de um poeta 'inspirado', 'espontâneo', 'ingênuo' e outros adjetivos do gênero, seus textos são o produto de um esforço intelectual reflexivo e concentrado."

Encontramos um bom exemplo do poema-narrativo de Cesare Pavese em "Os mares do sul", primeiro e mais longo poema desta antologia, que pode ter sido considerado pouco "poético" na época, dominada pelo hermetismo. A definição de Maurício Santana Dias é novamente precisa: "Moderno sem aderir às experiências mais radicais da modernidade, clássico sem evidentemente participar da Grécia antiga ou da Itália de Dante, consciente dessas antinomias insolúveis e vivendo o período histórico mais conturbado do século XX, o entreguerras, Pavese se propôs o projeto impossível de construir uma obra literária que condenasse tudo isso de maneira equilibrada."

Os mares do sul
(I mari del Sud)

Caminhamos à tarde na encosta de um monte,
em silêncio. Na sonbra do lento crepúsculo
o meu primo é um gigante vestido de branco,
que se move tranquilo, queimado no rosto,
taciturno, Calar é a virtude da gente.
Algum velho ancestral se sentiu com certeza bem só
– ave rara entre tolos ou pobre maluco –
para ensinar aos seus tanto silêncio.

Nesta noite meu primo falou. Perguntou-me
se eu iria com ele: do pico se vê
nessas noites serenas brilhar o farol
distante de Turim. "Tu, que vives em Turim..."
disse ele, "...tens razão. A vida só é vivida
distante de sua casa: se aproveita e se goza
e aí, quando se volta, aos quarenta como eu,
está tudo renovado. As Langas não se perdem".
Ele disse isso tudo e não fala italiano,
operando sem pressa o dialeto que, como pedras
desta mesma colina, é tão áspero
que vinte anos de línguas e mares diversos
nem sequer o arranharam. E ele sobe uma trilha
com o olhar recolhido que vi, em criança,
em rostos camponeses já cansados.

Vinte anos circulou por esse mundo.
Foi embora eu ainda menino, no colo das moças,
e o deram por morto. Mulheres havia
que o citavam, às vezes, como em fábulas,
mas os homens, circunspectos, o esqueceram.
Num inverno chegou a meu pai, que já havia morrido,
um postal com um selo em cor verde, de barcos num porto
e desejos de boa vindima. Foi enorme o espanto,
e o menino crescido explicou num rompante
que o cartão procedia de uma ilha chamada Tasmânia
rodeada de um mar todo azul, com cruéis tubarões,
no Pacífico, ao sul da Austrália. E adiantou que decerto
o seu primo pescava pérolas. E arrancou o selo.
Todos deram o seu parecer, concluindo
que, se ainda não morrera, morreria.
Muito tempo passou e esqueceram-no todos.

Quanto tempo passou desde quando eu brincava
de pirata malásio! Desde a última vez
em que fui tomar banho num ponto arriscado
e segui um parceiro de jogos numa árvore
estalando um dos galhos, rachando a cabeça
de um rival e apanhando por isso,
quanta vida passou. Outros dias e jogos,
outros choques no sangue enfrentando rivais
mais esquivos: ideias e sonhos.
A cidade ensinou-me infinitos temores:
multidões, uma rua me sobressaltaram,
uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
dos milhares de postes nas grandes calçadas.

O meu primo voltou, terminada a guerra,
um gigante entre poucos. E tinha dinheiro.
Os parentes diziam baixinho: "Em um ano, se tanto,
já torrou tudo e retorna as viagens.
É assim que morrem os desesperados".
Ele tem uma cara obstinada. Comprou um terreno
na aldeia e ergueu uma sólida garagem
que ostentava, brilhante, uma bomba para a gasolina
e na ponte, bem grande, na curva, um cartaz chamativo.
Contratou um mecânico que recebia o dinheiro
e foi passear pelas Langas, fumando.
Entretanto casara, na aldeia. Pegou uma garota
loura e delgada como as estrangeiras
que decerto encontrara algum dia no mundo.
Mas saía sozinho. Vestido de branco,
com as mãos para trás e queimado no rosto,
de manhã percorria as tais feiras com ar displicente
e comprava cavalos. Depois me explicou,
falidos os projetos, que o seu plano
consistira em vender deste vale animais de transporte
e fazer com que a gente comprasse motores.
"Mas a besta", dizia, "mais besta de todas
fui eu mesmo ao pensar. Deveria saber
que aqui bois e pessoas são todos iguais."

Caminhamos há mais de meia hora. Está próximo o pico,
sempre cresce ao redor o zunido e o chiado do vento.
O meu primo parou de repente e me disse: "Neste ano
eu vou pôr numa placa: Santo Stefano
sempre foi o primeiro nos festejos
deste vale do Belbo – e que se danem
os de Canelli". E então retoma a trilha.
Um perfume de terra e de vento nos cobre no escuro,
umas luzes ao longe: currais, automóveis
cujo som mal se escuta; e eu penso na força
que me trouxe este homem, arrancando-o ao mar,
às distâncias da terra, ao silêncio que dura.
O meu primo não fala de viagens já feitas.
Diz a seco que esteve em tal ponto e em tal outro
e volta aos seus motores.

                                        Só um sonho
permanece em seu sangue: cruzou certo dia,
de foguista num barco de pesca holandês, o Cetáceo,
viu lançarem arpões que voavam pesados ao sol,
viu baleias fugindo no mei de espumas de sangue
e encalçá-las no lance das caudas, litando com a lança.
Comentava-me às vezes.

                                        Mas, quando lhe digo
que ele é um homem de sorte, que viu as auroras
sobre as ilhas mais belas que há na Terra,
ele ri na lembrança e responde que quando
o sol vinha a manhã já era velha para eles.


Sobre o autor: Cesare Pavese nasceu em 1908, em Santo Stefano Belbo, na Itália, e morreu em 1950, em Turim. Foi preso na Calábria pelo regime fascista. Trabalhou na editora Einaudi, onde alcançou o posto de diretor editorial. Entre seus livros, destacam-se Diálogos com Leucó, A lua e as fogueiras e O belo verão.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Trabalhar cansa de Cesare Pavese

Comentários

Marcus disse…
Estou curioso para ler esse livro com um tema pra lá de polêmico, Trabalhar cansa.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Marcus, obrigado pela visita e comentário, bom título não é mesmo?

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