Sandra Godinho - A morte é a promessa de algum fim

Literatura brasileira contemporânea
Sandra Godinho - A morte é a promessa de algum fim - Editora Penalux - 250 Páginas
Capa e Diagramação de Guilherme Peres - Lançamento: 2021.

O mais recente lançamento de Sandra Godinho é um romance histórico muito peculiar e que tem como ponto de partida a pandemia de Covid-19 em Manaus, como bem sabemos uma das regiões onde a ação do vírus foi mais cruel e devastadora. Messias Machado é um empresário que enriqueceu às custas de uma moral extremamente flexível e negócios ilícitos, sempre apoiado por suas relações de poder com políticos corruptos. Após ser contaminado, devido à própria negligência, transmite o vírus para o filho único de oito anos de idade que não resiste às consequências. Ainda sob o efeito desta tragédia, descobre a traição da esposa e a mata.

A floresta amazônica, assim como o Casarão, localizado às margens do Rio Negro, chamado de Ruínas de Paricatuba e construído no século  XIX, formam o cenário onde Messias Machado, agora um fugitivo da justiça e de si mesmo, busca a redenção impossível, relembrando suas opções ao longo da vida em uma mistura alucinógena de sonho e realidade, provocada por uma planta nativa chamada paricá que ele recebe de um "índio dos infernos" na sua visão preconceituosa. O homem branco, de verniz nos pés, vai iniciar uma viagem ao inferno, marcada por seus traumas recentes ele passa a conviver com personagens do passado que ocuparam o casarão.

"Ele sempre foi um homem da cidade, mas distingue, nesses ruídos estranhos aos ouvidos, uma paz nunca imaginada, ainda que momentânea. No céu, o sol já vai se despedindo da tarde. No chão, a relva virgem lambe a sola dos pés. Na mente, a vontade de se manter vivo. Não pode deixar que pensamentos inúteis o atrapalhem no intento de sobreviver, então se cala, poupa-se de esforços inúteis para permanecer vivo. Mantenha-se vivo é o mantra que fica reverberando dentro dele como uma ladainha. Não se deixe morrer é seu manual de sobrevivência. Precisa procurar algo para comer e água potável para seu corpo desidratado. Pela primeira vez em sua vida, fica perplexo diante do desconhecido. Não sabe para onde ir nem por onde recomeçar. Lamenta não ter aprendido nada sobre a floresta em suas andanças, mesmo sem se adentrar muito nelas. Recorda-se apenas de que pode se alimentar do leite dos amapás, da água de certos cipós e do fruto das castanheiras, mesmo sendo incapaz de reconhecer qualquer uma dessas árvores. [...]" (pp. 23-4)

A finalidade original do Casarão, no período de 1896 a 1898, era a de hospedar imigrantes seduzidos pelo ciclo da borracha, mas devido ao declínio das atividades de extração de látex na região, a construção se transformou em 1906 na sede do Instituto Afonso Pena, Liceu de Artes e Ofícios, a primeira escola técnica do Amazonas. Messias, em seu delírio, passa a conviver com um grupo de alunos da época, filhos de pobres e indígenas que foram recolhidos para não perturbarem a elite da sociedade de Manaus. Raiamundo e Urgêncio são dois rapazes na faixa de quinze ou dezesseis anos que disputam a atenção de Lucilinda, "uma menina brejeira, com cintura fina e peitos fartos".

Messias acaba se entregando aos próprios instintos sensuais e se envolve em uma relação com Lucilinda. Ele, que até então foi tantos, assumiu identidades de acordo com a necessidade dos negócios. Um homem escorregadio. Um homem de muitas facetas. Talvez essa entrega repentina tenha sido o indício de que precisa mudar, de que precisa se entregar aos sentimentos, deixar aflorar quem realmente é antes que seja condenado a ser marionete de si mesmo." Contudo, este relacionamento clandestino pode ser somente mais uma demonstração do egoísmo de Messias, preocupado somente com seus objetivos, e tem tudo para terminar em mais uma tragédia.

"Sua voz aveludada, seu palavreado sujo, entoando obscenidades aos ouvidos, junto a um fiapo de fôlego, tudo lhe excita, tudo o convida para um mergulho em água escura. Seus dedos procuram a fenda úmida, num atordoamento insuportável de quem tem pressa de buscar o gozo, que é a embriaguez do corpo e também a da alma. Ele mergulha seu membro no vale de nascentes dadivosas e se enfia dentro dela com voracidade, como se ela o inaugurasse, renovado de ardores, renovado dentro daquele mar que lhe suga num vórtice de prazer. Uma, duas, três vezes, até Messias se sentir invencível e infinito. Até que tudo se finda e a brasa se torna cinza, envolta num resto de calor pacificado. / Entre o estado de insônia e a sonolência, Messias ergue ligeiramente seu tronco a poucos centímetros da cama, buscando a figura dela, como se duvidasse do acontecido, da nova realidade; é agora um homem sujeito às tempestades da paixão. [...]" (p. 124)

Em 1915, o Casarão assume uma nova finalidade quando o governador transfere a Casa de Detenção do Estado para o local. Messias acorda em uma das celas, agora definitivamente na pele de um prisioneiro. "Messias está preso, é um condenado como todos os outros, cumprindo uma pena que desconhece. Foi julgado, sentenciado e condenado. Por quem? Em seu íntimo, sabe que nem Deus lhe dará a absolvição." Neste local, ele irá vivenciar toda a monstruosidade a que um ser humano pode ser induzido pelas mãos do violento Maliciano.

"Maliciano é homem de impaciências e mal se contém, enquanto aguarda a presença de Messias, que vai sendo ciceroneado por Valdivino através do corredor penumbroso, ao longo do qual escuta a voz de trovão ressoar sua urgência pelas celas desumanamente humanas, com cheiro de mofo, umidade e podridão que atinge suas narinas como um soco. Cambaleando do sono mal dormido, Messias se segura nas paredes para se manter de pé. Toma novo fôlego, porque o medo e o mal cheiro o domina. A pulso, ele avança, notando que as celas se encontram trancadas, só a dele aberta, fato auspicioso, mas é incapaz de avaliar se isso é bom ou ruim, com o juízo embaciado pelos pesadelos de costume que o acompanham durante as madrugadas. Ele segue cauteloso, retorcido em tonturas e desconfortos, contra o cheiro fétido, contra o terror de seu pior tormento: o arrependimento e o sentido de ter falhado em algum lugar, o senso de ter sido incapaz de prover um lar de proteção." (p. 172)
Na última parte do romance, o Casarão se transforma em 1930 no leprosário Vila-Hospital Belisário Penna, para tratar os portadores de Hanseníase. A autora sugere um interessante paralelismo entre os diferentes tipos de isolamento social. Nesta "cidade da dor", os prisioneiros agora são doentes com seus corpos deformados, recolhidos o mais longe possível da sociedade, "longe da ideia de vulnerabilidade que causam em pessoas de bem. Ninguém quer ver os leprosos em bancos de jardins, nos patamares do Teatro, nos armazéns da Manaus Harbour, esmolando e correndo o risco de contaminar com a doença da morte [...]"

Depois do premiado Tocaia do Norte, Sandra Godinho se consolida como uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, revitalizando os estilos regionalista e histórico, sem esquecer das nossas mazelas atuais. A morte é a promessa de algum fim é um livro recomendado para todos que ainda acreditam na possibilidade de um insistente "bocado de bondade" dentro de nós e também confiam no "renascer dos homens", apesar de tudo.

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. Publicou O Poder da Fé (2016), Olho a Olho com a Medusa (2017), Orelha Lavada, Infância Roubada (2018), agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), O Verso do Reverso (2019), agraciado com o Prêmio Cidade de Manaus 2019 de Melhor livro de Contos, Terra da Promissão (2019), As Três Faces da Sombra (2020), Tocaia do Norte (2020), agraciado com o Prêmio Cidade de Manaus de Melhor Romance Nacional (2020), Sonho Negro (2021) e A morte é a promessa de algum fim (2021), novamente vencedor do Prêmio Cidade de Manaus de Melhor Romance Nacional (2021).

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