David Foster Wallace - O rei pálido: Um romance inacabado

Literatura norte-americana contemporânea
David Foster Wallace - O rei pálido: Um romance inacabado - Editora Companhia das Letras - 608 Páginas - Tradução de Caetano W. Galindo - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Lançamento: 2022.

O romance póstumo de David Foster Wallace (1962-2008) – publicado originalmente em 2011 e finalista do prêmio Pulitzer de ficção de 2012, apesar de tratar-se de uma obra inacabada – representa um desafio para qualquer leitor e, certamente, deve ter sido ainda mais desafiador para Caetano Galindo, o já experiente e premiado tradutor de Ulysses, que resolveu bem a espinhosa tarefa de verter para o nosso idioma o texto original, mantendo o ritmo dos longos e tortuosos parágrafos com vocabulário imprevisível e extensas notas de rodapé, tão importantes para o entendimento da narrativa quanto o texto principal, enfim todo o virtuosismo retórico, como bem definiu Jonathan Franzen, já visto no livro de estreia de Wallace de 1144 páginas, na edição brasileira, Graça Infinita (Infinite Jest).

Antes de cometer o suicídio, em setembro de 2008, David Foster Wallace deixou uma pilha de 250 páginas inéditas sobre a mesa de seu escritório, distribuídas em doze capítulos, material inédito que deveria ter sido enviado para a editora Little Brown, como parte das negociações de um novo contrato. Adicionalmente, sua viúva e sua agente literária encontraram centenas de outras páginas em pastas com folhas soltas, disquetes, arquivos, notas e cadernos que fariam parte de O rei pálido. O editor Michael Pietsch, que ficou responsável pela compilação de todo o acervo, detalha na introdução desta edição todo o processo de montagem do romance que contou com partes revisadas diversas vezes pelo autor em vida e ainda outras incompletas.

O cenário principal é o menos literário ou interessante possível, um centro de processamento de declarações de imposto de renda da receita federal americana (Internal Revenue Service - IRS). Um dos narradores é nomeado como David Wallace, criando um "paradoxo" entre o teor real e ficcional da narrativa, no capítulo que tem o título de PREFÁCIO DO AUTOR, com o trecho em destaque abaixo. Não é possível reproduzir aqui as extensas notas de rodapé, incluindo passagens assim: "Como os meus próprios representantes legais observaram, advogados corporativos não são pagos para ser totalmente racionais, mas são pagos para ser totalmente cautelosos."

"Autor aqui. Ou seja, o autor de verdade, o ser humano vivo que segura o lápis, não alguma persona narrativa abstrata. Tudo bem que às vezes tem uma persona dessas em O rei pálido, mas trata-se basicamente de um construto compulsório formal, uma entidade que existe apenas por motivos comerciais e legais, mais ou menos que nem uma empresa; ela não tem nenhuma conexão direta, verificável, comigo como pessoa. Mas este aqui sou eu enquanto pessoa real, David Wallace, quarenta anos, RG 975-04-2012, que me dirijo a você da minha casa dedutível em Formulário 8829 no número 725 do Indian Hill Blvd., Claremont 91711 CA, neste quinto dia da primavera de 2005, para lhe informar o seguinte: Tudo aqui é verdade. Este livro é real de verdade. [...] É por isso que eu estou fazendo questão de quebrar o protocolo e me dirigir aqui diretamente a você como eu mesmo; é por isso que todos os dados específicos que me identificam enquanto pessoa real foram expostos no começo deste Prefácio. Para eu poder te informar a verdade: que a única 'ficção' de boa fé aqui é o termo de responsabilidade lá na página do copyright – que, repetindo, é um instrumento legal: o único e total objetivo daquele termo é proteger a mim, ao tradutor, ao editor do livro e aos distribuidores escolhidos pelo editor de qualquer imputabilidade legal.[...] O rei pálido, portanto em outras palavras, é uma espécie de memória vocacional. Ele também deveria funcionar como o retrato de uma burocracia – possivelmente a burocracia federal mais importante da vida dos americanos – num tempo de imensas disputas internas e angústias, as dores do parto do que veio a ser conhecido entre os profissionais do ramo como o Novo IRS." - Trecho do Capítulo 9 (pp. 79-81)

Outro protagonista, agente da IRS, recorda as suas memórias em primeira pessoa ao longo dos anos setenta, um dos mais longos capítulos do livro, até chegar ao Centro Regional de Análise de Peoria, Illinois. No trecho abaixo, ele lembra de uma aula de contabilidade fiscal que assitiu por engano e acabou influenciando a sua decisão de carreira profissional e a admissão no Serviço da Receita Federal, uma tarefa que significa: "Apagar-se. Sacrifício. Serviço. Entregar-se ao cuidado do dinheiro dos outros" e ainda carrega em si o peso da "Rotina, repetição, tédio, monotonia, efemeridade, irrelevância, abstração, desordem, fastio, angústia, enfado."

"Enfim, enquanto isso, no que parecia ser essencialmente uma recapitulação das suas ideias principais até ali, o (professor) substituto disse: 'O verdadeiro heroísmo é incompatível a priori com plateias ou aplausos ou até com a mera percepção dos homens comuns. Na verdade', ele disse, 'quanto menos convencionalmente heroico ou empolgante ou chamativo ou até interessante ou absorvente um trabalho parece ser, tanto maior é o seu potencial enquanto arena do verdadeiro heroísmo, e portanto enquanto denominação de uma alegria inigualada por qualquer outra que vocês como homens ainda podem imaginar'. Então pareceu que uma espécie de repentino estremecimento percorreu a sala, ou quem sabe um espasmo extático, que foi se comunicando de veterano de ciências contábeis ou pós-graduando de administração tão velozmente que todo o coletivo pareceu por um instante se inflar – se bem que, de novo, não tenho 100% de certeza que isso aconteceu, que isso se deu fora de mim, na sala de aula mesmo, e o (possível) momento do espasmo coletivo foi breve demais pra eu ter mais que meio que uma leve consciência dele. Também lembro de sentir uma enorme necesidade de me abaixar e e amarrar o cadarço da minha bota, que nunca se traduziu em uma ação real." Trecho do Capítulo 22 (pp. 247-8)

Cada capítulo pode ser lido como uma unidade independente do todo, praticamente como se fosse um conto. Diversos funcionários do IRS em Peoria,1985, tais como: Lane Dean Jr., Claude Sylvanshine, David Cusk e Leonard Stecyk, para citar apenas alguns, além de David Wallace citado acima, cada um com seus próprios problemas e histórico de vida, mas uma coisa em comum: o mesmo trabalho extremamente tedioso e repetitivo que faz com que, por exemplo, Lane Dean "imagine diferentes lugares altos de onde possa pular" (ler trecho abaixo).

"[...] Café não era permitido pra não molhar os processos, mas no intervalo ele ia pegar uma caneca grandona em cada mão enquanto se imaginava corrrendo na frente do prédio e gritando. Ele sabia que o que ia fazer de verdade no intervalo era ficar sentado olhando pro relógio da parede da salinha e apesar das orações e do esforço ficar ali sentado contando os segundos que passavam até ter que voltar pra fazer aquilo de novo. E de novo e de novo e de novo. O som imaginado fez com que se lembrasse de ocasiões diferentes em que tinha visto pessoas rasgarem folhas ao meio. Pensou num homem forte de circo rasgando uma lista telefônica; era careca, tinha um bigodão e usava um maiô comprido e listradinho como as pessoas usavam no passado distante. Lane Dean juntou todas as suas forças, mandou ver e fez três declarações em seguida e começou a imaginar diferentes lugares altos de onde poderia pular. Sentia-se em condições de dizer que agora sabia que o inferno não tinha a ver com fogueiras ou tropas congeladas. Tranque um camarada numa sala sem janelas pra realizar tarefas repetitivas que tenham apenas o grau de dificuldade necessário pra fazer ele ter que pensar, mas ainda assim coisa de rotina, tarefas ligadas a números que não se ligavam a nada que ele jamais fosse ver ou achar relevante, uma pilha de tarefas que nunca diminuía, e pregue um relógio na parede bem onde ele pode ver, e só deixe o cara ali entregue aos engenhos da sua própria mente." Trecho do Capítulo 33 (pp. 399-400)

Como destacado pelo editor que organizou o material desta versão póstuma: "David decidiu escrever um romance sobre alguns dos temas mais difíceis do mundo – tristeza e tédio – e transformar essa exploração em nada menos que algo dramático, engraçado e comovente ao extremo." É claro que o livro talvez fosse bem diferente, ou mesmo não chegasse a ser publicado, caso Wallace tivesse sobrevivido, o que nos leva à antiga discussão sobre a validade dos herdeiros lançarem no mercado obras inéditas que não foram devidamente finalizadas e aprovadas pelos próprios criadores. Neste caso, posso garantir que o brilhantismo de alguns trechos de O rei pálido justifica a publicação e divulgação do romance, mesmo inacabado.

Sobre o autor: David Foster Wallace nasceu em Nova York, em 1962, e faleceu em 2008. Foi romancista, contista e ensaísta. Dele, foram publicados no Brasil o volume de contos Breves entrevistas com homens hediondos, a coletânea de ensaios Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo e o romance Graça infinita, considerado um dos livros mais importantes das últimas décadas da literatura norte-americana contemporânea.

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