Julia Barandier - Bakken

Literatura brasileira contemporânea
Julia Barandier - Bakken - Editora 7Letras - 184 Páginas - Lançamento: 2022.

O romance de estreia de Julia Barandier surpreende pela segurança na utilização de diferentes técnicas narrativas, tais como o gênero textual diário, fluxo de consciência e até mesmo poesia, apresentando ao leitor a improvável amizade de dois homens solitários de meia-idade em busca de algum tipo de compensação na arte para lidar com suas perdas emocionais. Portanto, trata-se de um livro desafiador tanto na forma quanto no conteúdo e no qual, adicionalmente, não podemos acreditar nas pistas que os personagens pouco confiáveis revelam, formando a nossa própria versão a partir dos múltiplos pontos de vista e fragmentos narrativos.

Antônio, um arquiteto brasileiro, após o divórcio decide recomeçar a vida em Copenhagen, Dinamarca, passando a escrever cartas para Marta sua ex-esposa que nunca são enviadas; textos que se transformam em uma espécie de diário, conectando passado e presente. Antônio logo conhece Hans, um artista dinamarquês que mantém um estúdio e decide ensiná-lo pintura, um sonho antigo de Antônio que nunca havia se realizado. Os dois iniciam uma jornada de descobrimento da arte e da cidade, enquanto as fragilidades de Hans, decorrentes de seu histórico familiar, vão sendo compartilhadas e fazendo da solidão um elo comum de ligação.

"Marta, Alguém ainda escreve cartas? Sonhei com uma menina de cabelos alaranjados muito longos e acordei de madrugada abalado. Ela balbuciava alguma coisa enquanto a raiz de seus cabelos ia ficando roxa. É o luto, conseguiu dizer com clareza. Vai percorrer o meu cabelo inteiro. Quando não restar mais nenhum fio laranja, é porque chegou a minha hora de viver de novo. Não voltei a dormir. / Minhas coisas ainda estão empacotadas. Mamãe achou que eu fosse desistir. Vi na expressão dela durante todo o percurso que fizemos até o aeroporto, como se eu estivesse pregando uma peça. Estou aqui, tão longe do Rio de Janeiro, mas ainda não desfiz as malas. / Na semana antes de partir, comecei a enxergar você em todos os lugares, nos rostos de todas as pessoas. Fui a um café e vi uma xícara borrada de batom, abandonada no balcão. Tive certeza de que era sua. Passei o dedo na borda com o intuito de recolher a tinta, mas em um sobressalto percebi o que estava fazendo e corri ao banheiro para limpar as mãos. Também jurei ter te visto em uma farmácia, no banco de trás de um táxi e no jardim do Senhor Donofre. Gostei de não te ver em nenhum lugar desde que cheguei aqui. / A minha terapeuta em nossa última sessão, sugeriu que eu tentasse escrever uma autobiografia em tópicos. Ela quer te descolar de mim, como se o divórcio não tivesse sido suficiente. Não, desculpe. Ela quer que eu queira me descolar de você. Mas não sei se é este o caso. Não caminho com você por perto. Esbarro com você em alguns momentos, só isso. De qualquer forma, não escrevi nada. Mais tenho a dizer sobre o meu sonho. Sobre prateleiras e portões de embarque e minha mudança repentina para um outro país. Qualquer outra coisa. Antônio." (p. 16)

“Bakken” é o nome do primeiro parque de diversões do mundo, que fica em Copenhagen e é incluído nos roteiros de turismo da cidade que Antônio e Hans planejam fazer, mas a visita acaba nunca ocorrendo. Entre as muitas sutilezas narrativas da autora, destaque para a comparação entre a técnica do pintor e do escritor, a forma como ambos descortinam um universo que vai sendo apresentado em diferentes camadas: "Hans / este é um quadro sobre solidão / é o que eu deveria ter dito / willem dafoe interpretando van gogh pelos campos da holanda / flores e terra / ele dizendo / I am my paintings / não sou todas as minhas / sou esta."

"Marta, Peguei algumas fotos de pinturas famosas na internet e quase me esquivei, querendo olhar para qualquer outra coisa. Eventualmente, deixei-me hipnotizar. São mansos, os quadros. Tenho tentado perceber como me sinto diante deles e do trabalho de outros artistas. Uma maneira de me aproximar é copiando o estilo, os tons. Hans sugere internalizá-los só olhando, pois é assim que eles realmente entram em nós. / Raramente percebo o meu corpo. Raramente pinto corpos. As fotos que tenho em mãos, das telas de uma pintora austríaca, são sobre habitar uma pele, uma fisionomia, uns ossos. Ou ser habitado. O traço é grosso, muito diferente do meu. Eu não pensava o meu traço, ele era hesitação. Agora chamo de estilo. Cansei de olhar. Rabisquei no caderno duas figuras com as costas prensadas uma contra a outra. Quero reproduzir a maciez da tinta que copio, o azul do mar. Eu nadaria se pudesse. Agora mesmo. Largaria o caderno e nadaria no Arpoador. Água é tinta também, estar submerso é pintar-se. Me arranha assim, em uma tarde ou outra, a saudade do Rio de Janeiro. / O rabisco me basta. Manuseio outras fotografias. Figura humana pisoteando uma cidade inteira. Mas você nunca, Marta. Eu." (p. 85)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Julia Barandier é carioca, nasceu no ano 2000 e cursa Bacharelado em Produção Textual e Bacharelado Bilíngue (português-inglês) pela PUC-Rio. Participou do grupo de pesquisa POESIA AGORA, tendo realizado a sua primeira iniciação científica com o acervo do grupo como objeto de estudo. Participou do grupo LACUNA, voltado para o estudo de arquivos literários, e publicou recentemente artigo em co-autoria com colegas do grupo, na revista Mester, da University of California, Los Angeles (UCLA). É também autora de texto publicado no livro "Imitologias" (2021), organizado por Claudia Chigres, e escreveu a orelha do livro "Adeus, Carnaval" (2021), de Saul Diniz. "Bakken" é o seu primeiro romance.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Bakken de Julia Barandier

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa

As 20 obras mais importantes da literatura francesa

As 20 obras mais importantes da literatura italiana

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

As 20 obras mais importantes da literatura dos Estados Unidos

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa