Jorge Sá Earp - O fio da seda

Literatura brasileira contemporânea
Jorge Sá Earp - O fio da seda - Editora 7Letras - 168 Páginas - Lançamento: 2023

O mais recente lançamento de Jorge Sá Earp é um sensível romance de formação com base nas suas memórias da infância até a adolescência. Na primeira parte, apesar da narrativa em terceira pessoa, os fragmentos das lembranças escapam do autor como um fluxo de consciência, revelando o que ficou marcado na mente da criança que viveu na casa em Lages, Santa Catarina: as histórias que a mãe lhe contava, a convivência com a Babá e o tio-avô, o urso Zé de textura macia e olhos pretos de botão que o protegia do gigante da cortina, assim como os seres que habitavam o quarto, personagens formados por tecidos, almofadas e tudo que a imaginação infantil pudesse criar.

No romance, o autor empresta as suas memórias para o protagonista Igor, obedecendo a uma sequência não exatamente linear, ditada mais pela emoção do que pela lógica, a narrativa avança ao longo dos anos sessenta para outras residências onde a família morou em Teresópolis e no Leblon, Rio de Janeiro, apresentando uma sequência de amigos e familiares com os quais Igor convive, sempre se comportando como uma criança tímida, isolada das demais, ainda sem entender os primeiros sinais de sua orientação sexual homoafetiva.

"Igor desenhava a lápis sobre uma pequena pilha de um papel amarelado e cortado em quadrados para caber na gaveta pela espátula de osso com cabo preto do tio-avô. Enquanto rabiscava – e fazia uns poucos traços com as figuras quase esboçadas das fadas, príncipes e princesas (gostava mais das histórias com seres humanos do que as com bichos) –, contava alto suas histórias inventadas na hora, com essa atração criada pelos contos desde pequeno com a mãe ao pé de sua cama e, mais tarde, com Babá, que lhe narrava os 'causos' acontecidos na roça, da mula-sem-cabeça (era a que mais temia), o saci e a princesa roxinha (uma invenção dela ou quem sabe uma história africana transmitida pela avó, que Babá dizia ter sido laçada no continente negro). Tinha na coxa a marca branco-rosada da mordida de um bando de gansos que a atacara na roça, em Campos. Falava 'mei-di' quando o relógio marcava doze horas e 'de já hoje' para dizer 'desde hoje'." (p. 18) - Primeira parte "A coroa e o lustre"

É na segunda parte do romance, na transição da infância para a adolescência, que o interesse sexual de Igor por garotos se estabelece definitivamente, provocando uma grande crise familiar quando os pais descobrem o seu diário e decidem encaminhá-lo para um tratamento psicológico de forma a "curar a enfermidade mental ou anormalidade". Obviamente a "terapia" não resultou em qualquer alteração no comportamento de Igor, mas a vigilância constante dos pais acabou contendo por algum tempo a sua tendência sexual com o custo psicológico de aumentar ainda mais a timidez e o consequente deslocamento social nos eventos familiares e reuniões com amigos.

"Depos de alguns minutos lutando entre a ânsia e o medo ergueu-se suave e silenciosamente e esgueirou-se até o leito vizinho.Depôs então os lábios com a delicadeza de uma asa de inseto sobre o calcanhar de Guilherme. Como ele não demonstrasse a menor reação demorou um pouco mais de tempo sua boca sobre aquela pele e foi deslizando a mucosa úmida em cima da pele lateral até a região dos dedos. Aí o primo se moveu e Igor saltou com a agilidade de um mosquito rejeitado por um movimento de braço para a cama. Arfou no travesseiro com o único olho descoberto dirigido para aquele corpo agora novamente imóvel mas numa posição diferente. Apesar do temor crescente do despertar do primo, o desejo foi sufocando pouco a pouco esse sentimento e o conduziu de novo para fora da cama. Dessa vez, como que se o medo submetido conferisse mais força à sua ânsia, mergulhou a boca nos dedos do pé do primo. E então fruiu um imenso prazer. Ali permaneceu um tempo que lhe pareceu largo o bastante para sua ousadia." (pp. 90-1) - Segunda parte "O diário"

Na parte final, Igor enfrenta muitos problemas devido ao ambiente hostil no colégio, mas acaba encontrando colegas que o ajudam a vencer a timidez e assumir as suas escolhas, enfrentando a solidão que algumas vezes o amadurecimento provoca. Sabemos, a partir da nossa própria formação, como a memória pode ser seletiva e traiçoeira, quase uma ficção que manipulamos em função daquilo que esperávamos da realidade, logo é impossível saber o quanto há de verdade e imaginação nas lembranças do autor, mas esta é justamente a beleza da literatura.

"Em uma aula de redação a professora costumava – para terror dos tímidos – escolher um aluno para fazer uma exposição sobre um tema de escolha da vítima, uma redação oral, como ela assim denominava a prova. O período nefasto por que passava Igor determinou que ele fosse eleito naquele dia. Como havia dito que gostava de desenhar histórias em quadrinhos, a professora sugeriu que falasse sobre o tema. / O sangue de Igor refluiu inteiro para suas faces quando subiu no tablado. Sua voz gaguejava. A maneira de abordar o assunto não se estruturava em seu cérebro. Transpirava nas costas e na testa; ele era todo embaraço em cima do palco. A plateia então começou a soltar gritinhos, risadas e logo assobios. Esses esparsos rumores ganharam volume como uma avalanche até se tornar ensurdecedor. Uma tempestade de uivos, gritos ásperos e falsos suspiros se abateu sobre a classe, apesar das insistentes ordens de silêncio da professora, farta da anarquia, que ameaçava destituir definitivamente sua autoridade, espancou a mesa e dispensou o examinando – a única solução para encerrar aquela fúria de sarcasmo." (pp. 117-8) - Terceira parte "Migração"

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Jorge Sá Earp nasceu no Rio de Janeiro, em 1955. Cursou Letras na PUC-Rio. Como diplomata, serviu na Polônia, Holanda, Gabão, Bélgica, Itália, Romênia, Equador e Costa Rica. Contista e romancista, é autor de Ponto de fuga (romance, 1995; vencedor do prêmio Nestlé de Literatura), O jogo dos gatos pardos (2001), Areias pretas (2004), O novelo (2008), As marés de Tuala (2010), Bandido e mocinho (2012), Quatro em Cartago (2016) e A praça do mercado (2018), As amarras (2020), entre outros.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar O fio da seda de Jorge Sá Earp

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa

As 20 obras mais importantes da literatura francesa

As 20 obras mais importantes da literatura italiana

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

As 20 obras mais importantes da literatura dos Estados Unidos

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa