Matheus Borges - Mil placebos

Literatura brasileira contemporânea
Matheus Borges - Mil placebos - Editora: Uboro Lopes - 192 Páginas - Concepção de capa e de miolo: Bloco Gáfico - Revisão e Diagramação: Daniel V. Mansur - Lançamento: 2022.

O protagonista imaginado por Matheus Borges em seu romance de estreia é um representante da nossa era digital que prioriza a informação, frequentemente distorcida ou totalmente falsa, em detrimento do conhecimento tradicional. Uma pessoa caracterizada por um padrão de distanciamento e desinteresse pelos relacionamentos presenciais, assim como portador de uma desconfiança generalizada, normalmente expressa em teorias da conspiração, sinais que demonstram transtornos de personalidade facilmente identificáveis nas redes sociais os quais, eventualmente, se potencializam em situações de violência no mundo dito real.

O autor conduz muito bem a sua estratégia de utilizar um solitário protagonista esquizoide e, portanto, nada confiável, para envolver o leitor em uma série de possibilidades e impedir uma definição simplista do romance que oscila entre os gêneros policial, de ficção científica ou drama psicológico, sem se fixar em nenhum deles. O resultado é um estilo que se aproxima de escritores como Chuck Palahniuk e Thomas Pynchon, deixando o leitor em suspenso sobre a ação que efetivamente está ocorrendo e os pesadelos paranoicos dos personagens.

"Primeiro, a tela em branco. E depois não estou sozinho. No meio de todo esse silêncio, perdido na inércia, há um conjunto de vozes implorando por atenção. Fujo da página em branco, da minha própria página em branco, clico em novas janelas, ocupadas por terrenos férteis onde são desovadas narrativas simplistas que se desenvolvem, sobrepõem e se perdem. Gradualmente, são substituídas por novas histórias que dão sequência ao mesmo ciclo de vida e morte. Pequenos espetáculos públicos me oferecem amostras de vidas comuns. São vozes distantes que se infiltram nas paredes das catacumbas luminosas onde estão armazenadas. São palavras que se transformam em ondas. São ondas que viajam por satélites de órbita geoestacionária e numa rede submarina de cabos de fibra óptica, que logo se transformam novamente em palavras. São palavras que aterrissam no meu quarto, diante de mim. São vozes, pessoas e histórias. Ideias e coisas. Informação." (pp. 09-10)

O nosso protagonista não nomeado participa de fóruns na internet sobre os mais variados temas e é um consumidor, assim como tantas outras pessoas no mundo virtual, de pornografia em um website chamado Teenage Lust, especializado em modelos cujas idades variam entre dezoito e vinte anos. A semelhança de uma dessas modelos com uma adolescente por quem havia se apaixonado no passado, faz com que ele se associe a hackers na deep web para descobrir a identidade da jovem russa em um desses vídeos na web, envolvendo-se em uma sequência de eventos violentos, incluindo assassinatos, que colocarão em risco a própria vida.

"Apesar do meu interesse em me relacionar com mulheres, nunca me dediquei de verdade a concretizar esse desejo. Com o passar dos anos, fui entendendo que é muito mais a ideia, o conceito abstrato e virtual de 'feminino' que domina minhas necessidades emocionais e sexuais. Eu jamais conseguiria manter um relacionamento verdadeiro porque não consigo operar num mundo onde tenho que funcionar como indivíduo no sentido tradicional, com vontades e sentimentos próprios e, ainda assim, consciente de que tudo o que sou pode ser descartado ou refutado por uma companheira que me acompanharia em direção ao inevitável fim. Seria um sacrifício muito grande da minha parte, o extermínio de minha existência individual para que pudéssemos perseguir apenas interesses comparitlhados. O ritual da abdicação de mim mesmo, espetáculo ao qual não me sinto nem um pouco disposto a ver realizado." (pp. 52-3)

Matheus Borges nos faz refletir sobre uma sociedade cada vez mais globalizada e estéril de ideias e ideais, um mundo no qual a privacidade acabou, mas onde estamos cada vez mais solitários e dependentes da indústria farmacêutica que oferece uma falsa esperança com o consumo generalizado de antidepressivos e ansiolíticos. Enfim, em meio a todo esse lixo virtual que nos cerca, parece que o autor sintetizou muito bem o impasse atual nesta frase: "contrariando todas as expectativas, a overdose de dados conduzirá à ignorância absoluta. Narrativas autocêntricas e independentes, que se aproximam e se afastam, porém sempre contraditórias. Primeiro, terminam com a verdade. Depois, destroem o mito."

"Tecemos narrativas autocêntricas e independentes, que se aproximam e se afastam, dificultando a compreensão do todo. Quanto mais registramos, mais perdidos nos encontramos em nossos próprios registros. Pouco a pouco, nos aproximamos do dia em que a carga de informação será tamanha que não restará espaço para a investigação histórica e para a imaginação. Sobrecarga de dados facilmente verificáveis, ainda que raramente verificados. Sabemos que estão em algum lugar, em centros de processamento espalhados pelo mundo, e em todos os cantos, na forma de ondas eletromagnéticas que atravessam nossos corpos. O armazenamento de tudo fará com que o mito se perca no meio do caminho. E o que é a civilização sem os seus mitos? Com o fim do mito, também chegará ao fim a perseguição do impossível. Assim, contrariando todas as expectativas, a overdose de dados conduzirá à ignorância absoluta. Narrativas autocêntricas e independentes, que se aproximam e se afastam, porém sempre contraditórias. Primeiro, terminam com a verdade. Depois, destroem o mito." (pp. 61-2)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Matheus Borges nasceu em Porto Alegre, 1992. É formado no curso de realização audiovisual da Unisinos e egresso da oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. Suas histórias já foram publicadas em revistas literárias no Brasil e no exterior, bem como em coletâneas e antologias. No cinema, atuou como roteirista em A Colmeia, longa metragem vencedor de cinco prêmios na edição 2021 do Festival de Cinema de Gramado. Atualmente, é mestrando no programa de pós-graduação em letras da UFRGS. Em 2022, publicou seu primeiro livro, o romance Mil Placebos.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Mil Placebos de Matheus Borges

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