Thiago Medeiros - Dias depois saímos do leprosário

Poesia brasileira contemporânea
Thiago Medeiros - Dias depois saímos do leprosário - OIA Editora - 142 Páginas - Capista e Diagramador: Carlos Benevides - Ilustrador: Bezerro de Ouro - Lançamento: 2022.

Neste seu mais recente lançamento, Thiago Medeiros lida com a poesia em versos inspirados na vida pós-pandemia COVID-19, ainda sob o recente impacto de uma distopia que nenhuma ficção poderia ter imaginado. Contudo, este resumo é insatisfatório para uma obra que trata de temas tão abrangentes quanto família, religião e a própria fragilidade da natureza humana. Sempre atento ao ritmo e à oralidade dos seus versos, o autor renova a mágica da literatura ao alcançar a universalidade por meio de um regionalismo que canta ao mesmo tempo a esperança e a desesperança, como destacado pelo poeta Mailson Furtado na orelha do livro, a ambiguidade de um sentimento tão representativo desse sertão que existe dentro de todos nós.

Thiago sabe como utilizar a sua habilidade de prosador para transmitir uma intensa carga emocional em cada poema-história, caso da tia-avó azeda que um dia foi menina, em "Certa vez nos tiraram grandes pedaços", reproduzido integralmente abaixo ou "não me conservem fios de cabelo", nos lembrando que sempre haverá um convite para a queda, um chamado das janelas e alturas: "do primeiro sonho / aos três anos de / idade // em pé / na beira do prédio / num corpo adulto // aos pés do prédio / concreto pressa / meio-fio ratazanas // transeuntes é / uma palavra / horrenda // e / sim / um salto // entre o alto do prédio / e o concreto apenas / vento // e / uma / frase // agora / só resta / cair // e / esperar // e o caminho / de vento / assanhando os cabelos [...]"

Certa vez nos tiraram grandes pedaços

dizem
de certa minha tia-avó
ser uma mulher
azeda

sem linhagem
sem amores
voz de lixa

minha bisavó

aquela que rezava
a tantos e tantas até
que murchassem os
galhos de arruda, eu
mesmo tantas vezes
afastado de quebranto
e olhado sob as rezas
de sua boca em carne
mole ausente de dentes

certa vez notou
que a mulher
azeda

dizem que
já foi uma
menina e
teria sido
nessa
época

não comia
toda a comida
do prato

e as sobras
não
iam ao lixo

decidiu
se esconder

a muher
que ainda não era
azeda
mas uma menina
e diziam ser
minha tia-avó

punha as sobras
na barra da saia
e sumia  no quarto

afastava a cama
abria uma caixa

não sei do que
eram as caixas
naquele tempo

papelão
madeira
porcelana
ágata
zinco

mas caixas
sempre foram
esconderijos
para maiores
pequenos
amores

minha bisavó
que desde sempre
rezava agarrada
em galhos de arruda
afastando quebrantos
doenças
mazelas
olhados
viu a filha

que ainda não
era azeda
nem minha
tia-avó
talvez
apenas
menina

alimentar um filhote
de rato

com a comida que preparava todos os dias
com a comida que mandava para meu bisavô todos os dias
enquanto ele mutilava pedaços de terra com enxadas para
então fecundá-la em sementes que não eram as dele

estranha
orgia
de metal
de homem
de planta
de terra

com a comida que cozinhava para as quatro crias todos os
dias desde que parou de amamentar

quando rezava
minha bisavó
falava de São
Miguel Arcanjo

aquele homem de saias
agarrado a uma espada
e balança enquanto pisa
o rosto de satanás

que protegia
o menino jesus
na manjedoura

quando rezava
minha bisavó
falava de São
João do Carneirinho

eternamente
menino
agarrado à lã
dos cordeiros

quando rezava
minha bisavó
falava de Lúcia
Jacinto e Francisco

tão puros
anunciando
as palavras de 
Nossa Senhora
de Fátima

quando viu o rato
ainda filhote
alimentado
amado
e até acariciado
pela menina que
não sabia que
seia azeda

minha bisavó disse coisas
mais ou menos assim

desgraçada

miserável

louca

imprestável

sua herege

dando comida de cristão a um bicho horrendo

não respeita meu suor

não respeita teu batismo

então
minha bisavó
obrigou a filha

que não era
minha tia-avó
e não sabia nada
sobre azedumes

a jogar o filhote
de rato
no galinheiro

às vezes
penso em
deus

me pergunto
se ele se
compadeceu 
do filho

açoitado
cuspido
crucificado

toda aquela
história
contada por
Mel Gibson
você com
certeza lembra

e se chorou
e se lamentou
e se houve luto

deve ser traumático perder um filho assim

mas estamos
falando de deus

não sei se a ele
cabem lágrimas
e dores e gemidos
e manhas e lutos

mas
se sentiu algo

foi bem parecido
com aquela menina
vendo o pequeno
maior amor

desses que escondemos
em pequenas
caixas

morrer sob os 
bicos das galinhas

dizem
de certa minha tia-avó
ser uma mulher
azeda

e certa vez
nos tiraram
grandes pedaços


Poesia brasileira contemporânea
Sobre o autor: Thiago Medeiros é pernambucano de Caruaru. Escritor, poeta, ensaísta, cronista, compositor e agitador cultural. Idealizador do Encontro Literário Letras Em Barro. Ministrante de oficinas literárias. Publicou o livro de contos “Claro é o mundo à minha volta”, Editora Patuá. Lançou em 2020 a coletânea de poemas “Cidade Finada”, Editora Telucazu. Organizou a antologia "Nós que aqui estamos – Nordeste", pela editora caruaruense Arrelique. Lançou, no final de 2021, “Sou a pronúncia do teu nome”, pela Editora Urutau. Colunista e colaborador da Carnavalhame, na qual manteve a coluna semanal “Vista do Apartamento 101”. Escreve para não esquecer de si mesmo.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Dias depois saímos do leprosário de Thiago Medeiros

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