João Carlos Leite - O invisível em toda plenitude

Literatura brasileira contemporânea
João Carlos Leite - O invisível em toda plenitude - Editora Penalux - 202  Páginas
Capa e diagramação: Talita Almeida - Lançamento: 2023.

O lançamento de João Carlos Leite, "O invisível em toda plenitude"tem características de romance de formação, aventuras e crítica social em proporções equilibradas, ligadas por uma narrativa segura que alterna a condução principal em terceira pessoa com alguns trechos na voz de um personagem inusitado, o cachorro Magrelo. Em um momento no qual a literatura contemporânea busca o rompimento com as estruturas tradicionais, o autor resgata alguns ingredientes clássicos que tornaram o gênero de romance um sucesso de entretenimento desde o século XVIII, apesar de ter se tornado ao mesmo tempo um conceito abstrato e supostamente indefinível, devido à variedade de estilos que surgiram ao longo do tempo.

Neste romance, o protagonismo é dividido entre os dois irmãos órfãos, Laurindo e Pedro, que abandonam a região rural para tentar a sorte na cidade. Laurindo, já com vinte e cinco anos, sonha se alistar no exército, Pedro tem apenas doze anos e depende unicamente do irmão mais velho para sobreviver após a morte dos pais. A cidade de Três Rios, no interior do Estado do Rio de Janeiro, os recebe com indiferença e alguma crueldade, frustrando os sonhos de Laurindo de seguir a carreira militar e colocando-o em um caminho sem volta de crimes e violência. Pedro, apesar de ainda menino, terá que se virar sozinho para descobrir o próprio destino e, quem sabe, um improvável reencontro com o amigo Magrelo depois de alguns anos.

"Antes do ônibus se pôr em movimento, Pedro encostou o rosto no vidro embaçado e avistou Magrelo parado no mesmo local onde ele estivera sentado minutos atrás. Boca aberta, a língua pendurada num canto, o cão certamente havia corrido do sítio até ali em busca do socorro. No intuito de resgatá-lo, tentou se levantar, mas o irmão o impediu colocando-o de volta ao assento. Ainda não o havia perdoado pelo recente sumiço. 'Você está vendo coisa que não existe', esbravejou. 'Não tem nada na calçada, nem cachorro, nem gente.' / De fato, ao observar outra vez, o local estava completamente vazio, até mesmo os pombos, que até pouco tempo bicavam as migalhas perdidas no chão, haviam desaparecido. O motorista assumiu o volante, levou aos lábios uma medalha dourada que trazia pendurada no pescoço, fechou a porta puxando uma alavanca e finalmente começaram a se mover. Não haviam deixado a vila, quando Pedro acreditou ouvir alguns latidos vindo da estrada, abriu a vidraça e colocou a cabeça ao vento, mas antes que pusesse enxergar alguma coisa, o mundo se desintegrou numa nuvem branca." (pp. 25-6)

Ao longo da narrativa, os dois irmãos enfrentarão uma série de percalços ao confrontarem os preconceitos e a hipocrisia da sociedade local em suas estruturas estabelecidas de poder. A trama avança com velocidade, impulsionada por uma rica descrição visual e diálogos precisos, elementos que fazem com que seja difícil interromper a leitura e confirmam o que os leitores já sabem: a permanência da instituição do romance tradicional, mesmo sendo algo tão difícil de definir, ou, simplesmente, a importância de saber contar uma boa história, hoje e sempre.

"Havia outros prisioneiros dentro da cela para onde Laurindo foi empurrado. Alguns ergueram os olhos desconfiados, porém já acostumados ao constante movimento noturno não despenderam interesse. Entrou silencioso, sentou-se no chão sem olhar ao redor e se recostou na parede. Vestia um terno alugado, a gravata se perdera em algum momento durante a briga, a costura no ombro direito cedeu expondo a manga da camisa branca, também alugada. Apesar dos estragos, a roupa lhe dava um aspecto um pouco mais frágil do que era na verdade. Para um criminoso desavisado, aparentava ser uma presa fácil, alguém alcoolizado e pronto para ser abatido. Logo, alguns dos presos cochicharam entre eles e se organizaram como uma alcateia ao avistar um búfalo ferido e desgarrado da manada. / 'Que estúpido!' Esfregava os pulsos esfolados pelas algemas enquanto relembrava cada lance do jogo que acabara de perder. 'Aquele desgraçado tinha em mãos o Rei e a Dama de ouro. Fui enganado o tempo todo.' Via claramente a sequência das cartas no chão sujo da prisão: Ás, Rei, Dama, Valete e Dez, todos so mesmo naipe. 'Royal Flush desde o flop. Que idiota... E o Alfredo? O que fizeram com aquele pobre coitado?', desabafava de vez em quando sem perceber que falava sozinho." (pp. 66-7)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: João Carlos Leite nasceu na cidade de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, em 1966. Autor dos livros O Perfume Amargo das Amêndoas (Novela - Editora Penalux, 2017), Memórias Inventadas (Contos - Editora Penalux, 2018) e A Indecifrável Harmonia do Caos (Romance - Editora Penalux, 2020).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar O invisível em toda plenitude de João Carlos Leite

Comentários

sonia disse…
Deve até ser bom esse livro, mas estou numa idade em que me poupo de leituras tristes. Já chega a realidade.
Um abraço;
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sônia! A ficção não é páreo para a realidade, não é mesmo?
sonia disse…
Tem razão. Se tivesse menos idade até arriscaria...:))

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa

As 20 obras mais importantes da literatura francesa

As 20 obras mais importantes da literatura italiana

20 grandes escritoras brasileiras

As 20 obras mais importantes da literatura dos Estados Unidos

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira