Abaixo da bandeira - Fábio Mariano, Gabriel Morais Medeiros e Whisner Fraga

Literatura brasileira contemporânea
Abaixo da bandeira - Fábio Mariano, Gabriel Morais Medeiros e Whisner Fraga - Editora Ofícios Terrestres - 176 Páginas - Ilustração de capa: Las camas de la muerte, Goya - Design de capa: Carla Dias - Lançamento: 2023.

Esta antologia de contos é o resultado de um projeto contemplado pelo ProAC 24/2022, de realização da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo. A ideia básica da edição foi a de reunir três autores brasileiros contemporâneos com diferentes estilos, mas um único tema. Fábio Mariano, Gabriel Morais Medeiros e Whisner Fraga escrevem sobre situações vivenciadas no Brasil nos anos recentes, alguns temas sombrios e perturbadores, tais como a pandemia de COVID-19, a crise no sistema educacional e o recente extremismo político que transformou a bandeira nacional em manto patriótico para alguns e, ao mesmo tempo, mortalha para outros, como bem destacado na apresentação da Editora Ofícios Terrestres e na ilustração de capa com a obra de Goya que expressa tão bem o terror da morte.

Na primeira parte, Fábio Mariano, assim como em seus livros anteriores, ambienta as narrativas na fictícia cidade de Cartago no Brasil. Destaque para os contos "um menor" que trabalha com os conceitos de sonho, inconsciência e memória; "Estado de Exceção", no qual brigas familiares e a pandemia são barreiras que a protagonista precisa vencer para realizar o sonho de cursar Sociologia e o ótimo "Pleito" com a crueldade da rotina de trabalho em um call center e algumas declarações que você certamente já ouviu antes: "[...] Não vai ter partidinho, não vai ter corrente, não vai ter essa merda de ninguém solta a mão de ninguém. Vai ter apocalipse nuclear, bomba, e essa porra de ONG, essa merda de militância, esse bando de mimizento do caralho, tudo isso vai ter que pegar a arma que tiver na mão e vai ter que resistir, saca?"

"Uma semana depois, Adelaida me traria um recorte de jornal sobre um massacre escolar seguido de suicídio – o primeiro em Cartago. Era o penúltimo dia do meu detox – sem televisão, sem notícias no celular, sem olhar o jornal, sem nada. E teria me ajudado, talvez, se o maldito recorte não tivesse sido colocado para mim. Mas o fato é que eu precisava dele, e precisava da minha raiva. Adelaida pareceu me ver transtornado – não era a primeira vez, e não seria a última. Mas ela me disse que era bom. / As imagens de um menor, no entanto, não são divulgadas pela mídia. A notícia era pequena, seca, não nomeava e nem fazia alarde. E é assim que deve ser." - Trecho do conto "Um menor" de Fábio Mariano (p. 14)

Já os contos de Gabriel Morais Medeiros, focam na recente mercantilização do ensino como em "Os nômades do altiplano" que nos apresenta o cursinho Fábrica de Bixos, assustadoramente real, uma instituição de sucesso que promete resultados nas turmas preparatórias para cursos de alta concorrência como nos vestibulares de Medicina, apelando para um marketing agressivo do tipo: "se não quer competir, então pede pra sair", ou ainda: "seus sonhos não devem pedir licença para passarem por cima de tudo", uma exaltação à postura de vencer a qualquer custo e o prenúncio das futuras campanhas políticas de desinformação que iriam assolar o país.

"Em novembro de 2018, recebi cento e oito mil reais decorrentes de um processo trabalhista que movi contra o cursinho Fábrica, onde trabalhara por mais de quinze anos. O cursinho: o Fábrica de Bixos, ou Fábrica Recursos Educativos pela razão social, onipresente nos outdoors de LED de C., onde figuravam estudantes – sempre brancos – fantasiados de Einstein, estudantes Elon Musk, estudantes Steve Jobs. Quinze anos dando aulas sem fim, inevitavelmente, de manhã, à tarde e à noite. À tarde: ainda existia o Extensivo Tarde, essa turma fantasma. Trabalhos infinitos: toneladas de horas-extras não pagas, horas-cheias e horas-vazias, banco de horas, fundo de garantia,e tudo. A mesma história de sempre. Como sou uma máquina de anotar os mínimos detalhes, fui registrando cada batida  de ponto, cada holerite, cada pagamento por fora, logo que percebi que muita coisa, naquela escola, era truque. [...]" - Trecho do conto "Os nômades do altiplano" de Gabriel Morais Medeiros (p. 58)

Na terceira e última parte, as narrativas de Whisner Fraga são formados com base em recortes do cotidiano como, por exemplo, em "decoro", na qual uma cena inicialmente banal em um posto de gasolina de uma grande cidade, evolui rapidamente para uma situação trágica, demonstrando a crise de valores morais em nosso país, um final surpreendente de arrepiar mesmo. Em outros contos, encontramos novamente a figura de Helena, a misteriosa interlocutora e confidente presente em outros livros do autor, assim como um estilo de textos de pequena extensão, exemplo de "alianças lutuosas", reproduzido integralmente abaixo.

"o velho morreu num domingo: eles me repreenderam: não é bom tratar um velho por velho, e a morte?, é bom tratar a morte por morte?, trabalhou segunda, terça, quarta, quinta sexta, sábado e domingo o armazém fechava, mesmo, e de madrugada o carregaram para o hospital: a ambulância freava nos semáforos, que, mesmo tarde, se alternavam, adestrados, entre o verde, o amarelo e o vermelho, como  o sangue conspirando a fatalidade e eu evoco as vezes em que o chamei de meu pai, embora não fosse e fosse, simultaneamente, por um desses paradoxos semânticos e talvez fosse uma pessoa justa, porque ninguém ficou sem os secos ou os molhados até sábado, embora talvez fosse mais justo se abrisse aos domingos também, pois há igualmente necessidades nesse dia, além dos conselhos, alguns até cogitaram encontrar o velho, ouvir a rouquidão espalhar um último agrado, partir exultante, mas ninguém apareceu e a notícia do óbito se espalhou e a cidade ficou triste, mas porque sepultar alguém num domingo?, não era preferível deixar para segunda?, só os filhos velaram o corpo do velho, e nem todos puderam comparecer, impossível cancelar um churrasco em cima da hora." - Conto "as alianças lutuosas" de Whisner Fraga (p. 158)

Sobre os autoresFábio Mariano é autor de O Gelo dos Destróieres (Patuá, 2018, contos), Habsburgo (Patuá, 2019, novela) e Ruído Branco (Ofícios Terrestres e Patuá, contos, 2020), e tradutor de O Café Literário (Paul Boldt, Ofícios Terrestres, 2021, poemas) e de Meu Coração em Fevereiro - 21 Poemas de Paul Boldt (Paul Boldt, editora Partizan, poemas).

Gabriel Morais Medeiros é editor na Ofícios Terrestres Edições. É autor de Os céus se gastariam (poemas, 2023: prêmio do edital do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas, SP/2022) e de Abaixo da bandeira (contos, 2023), entre outros livros. Faz doutorado em Teoria e História Literária na Unicamp e trabalha há 16 anos como professor de literatura, entre outros ofícios.

Whisner Fraga é um escritor mineiro, autor de doze livros. Tem contos publicados em diversas antologias e periódicos do país. Participou da antologia Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire, e figurou entre os 23 escritores brasileiros na antologia Geração zero zero, de Nelson de Oliveira, que mapeou os principais autores brasileiros lançados no início do século. Tem contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Escreve crônicas para o site Crônica do dia e mantém o canal Acontece nos Livros, no YouTube, em que resenha livros de escritores contemporâneos. Pela Ofício Terrestres já lançou usufruto de demônios, em 2023.

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