Fábio Fernandes - 16

Literatura brasileira contemporânea
Fábio Fernandes - 16 - Editora Caos & Letras - 248 Páginas
Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2023.

Esta antologia de contos abrange o período de 30 anos da produção literária do escritor, tradutor e jornalista Fábio Fernandes, englobando uma grande variedade de estilos que podem abordar temas da ficção científica clássica como viagens no tempo e exploração espacial, um realismo distópico mais sombrio ou, até mesmo, gêneros pouco explorados na literatura contemporânea como a ficção histórica, exemplo do ótimo "O alferes de ferro", no qual o autor revisita a Inconfidência Mineira de 1789 e imagina um final bem diferente para o nosso Joaquim José da Silva Xavier, que ficou conhecido na História do Brasil simplesmente como Tiradentes. 

O interesse na leitura é constantemente renovado em cada narrativa, fazendo com que o leitor nunca saiba em qual ponto do tempo e espaço encontrará os personagens, assim como as doses de realismo e fantasia empregadas pelo autor. Por exemplo, não é todo dia que temos a chance de identificar Frankenstein de Mary Shelley como parte de um argumento sobre imortalidade no Rio de Janeiro, como em "Para nunca mais ter medo" que lida com temas como amor, vida e morte, além de um início perfeito: "Marta era muito bonita viva. Mas conseguia estar ainda mais linda depois de ressuscitada", um gancho irresistível não é mesmo? 

"O primeiro confronto entre a Assassina e o Viajante do Tempo aconteceu no Permiano, 254 milhões de anos atrás. Pouco depois da erupção do megavulcão siberiano que pôs um fim a milhões de espécies desconhecidas para você. / Mas foi um evento cansado e patético: A Assassina se materializou diante de um Viajante cansado e deprimido, e o encarou durante muito tempo no meio da chuva de cinzas e dos restos de incêndio da região. / Era o começo do fim – um dos muitos fins, na verdade. Mas a história daqueles dois ainda estava longe de acabar. Sem nunca tentar se aproximar dele, a Assassina desapareceu nos Corredores do Tempo tão rapidamente quanto havia chegado. Por isso aquele primeiro contato, digamos, foi um evento. Um encontro, uma metáfora ao mesmo tempo mais simples e mais poderosa que a daquela famosa canção do século 20: dois navios que passam um pelo outro na noite. Um aviso: prepare-se porque eu estou chegando. Um alerta amoroso, se é que podemos dizer isso a respeito de uma sentença de morte." (pp. 13-4) - Trecho do conto Sete Horrores

Passado, presente e futuro se deslocam, às vezes no mesmo conto, como em "Sete Horrores" com seus protagonistas imortais: a Assassina e o Viajante do Tempo. Na verdade, a imaginação de Fábio Fernandes não tem limites, como podemos constatar em "O grande concerto", uma distopia ambientada na cidade de Ouro Preto em um futuro bem próximo no qual personagens desesperados enfrentam um inverno nuclear. Já em "M.U.A.", Ramón desaparece no dia de seu casamento com Renata em 1980 e, a partir de então, se reencontram no futuro com intervalos de muitos anos (1986, 1996...), mas sem nunca conseguir permanecer juntos na mesma época.

"Ao entrarem na saleta, Joaquim vê várias outras pessoas, a maioria delas seus conhecidos de Vila Rica, São João del-Rei e mesmo do Rio de Janeiro. O contratador Domingos de Abreu Vieira, o padre Rolim, o cônego Luís Vieira, o coronel Francisco Lopes, seu primo, o coronel de de milícias Joaquim Silvério dos Reis, o Capitão José de Resende Costa, o Sargento-Mor Toledo Pisa e vários outros. / A bem da verdade, quase todos ali naquele grupo já se reuniam periodicamente há alguns anos, movidos não só pelos desmandos da metrópole e do governador da capitania (e agora do Visconde de Barbacena) como também pelos ideais do Iluminismo francês e da Independência dos Estados Unidos. Muitos, como Tomás, Claudio, os padres e alguns militares (e ex-militares, entre os quais o próprio Joaquim) estavam no movimento nascente por razões puramente idealistas. Já os proprietários de terras se juntaram por motivos mais práticos: a falência completa devido à escassez do ouro de aluvião na área e a obrigatoriedade de colaborar com uma cota de seu próprio bolso para encher os cofres de Portugal." - (pp. 90-1) - Trecho do conto O alferes de ferro

Na verdade, apesar de flertar com diferentes temas e gêneros literários, o que permeia todos os contos desta coletânea é a mesma incompreensão diante de um destino que não podemos compreender e controlar. A inevitável passagem do tempo e a fragilidade da existência humana são a matéria-prima de todas as formas artísticas "desde que o primeiro indivíduo colocou em movimento de sonho e arte um bisão desenhado na pedra: sacrifícios, abismos, glórias frágeis." como bem destacado pela escritora Micheliny Verunschk na apresentação. Um lançamento que agradará não somente aos fãs da ficção científica, mas apreciadores da literatura em geral.

"Pois é a partir da invenção de Frankenstein que o homem realiza uma transformação fundamental em sua atitude para com a Ciência: tudo é possível, logo tudo é permitido. Se a recriação da vida, antes possível apenas por seres ditos superiores (lembramo-nos logo do relato bíblico de Lázaro por Cristo), agora não só é possível como praticável e referendada até pela Igreja protestante, ainda que no começo apenas o calvinismo liberal, e de forma relutante, ouse se colocar ao lado de Frankenstein, ou melhor, da nobreza que o patrocinava e apoiava, então mesmo os projetos mais loucos e desacreditados tomam corpo: é a Era das Invenções, ou Novo Renascimento, como querem exageradamente alguns historiadores da Nova Direita. seja como for, essa febre toma conta da Europa e das Américas durante cerca de três décadas, e, apesar da quantidade absurda de inventos sem o menor sentido ou propósito prático, legou-nos avanços como o dirigível transoceânico, a máquina diferencial, a neurologia avançada e a unidade de terapia intensiva hospitalar." (pp. 63-4) - Trecho do conto O nascimento do livre-arbítrio

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Fábio Fernandes é jornalista e escritor. Doutor e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, onde é professor nos cursos de Jornalismo e de Jogos Digitais, traduziu dezenas de livros, entre os quais Laranja Mecânica e Good Omens. Escreveu, entre outros, os romances Os Dias da Peste, Back in the USSR (finalista do Prêmio Jabuti 2020), Love Will Tear Us Apart, Under Pressure, Rio 60 Graus e as coletâneas de contos Interface com o Vampiro e Love: An Archaeology.

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