Sergio Geia - Vocabulário de memórias ausentes

Literatura brasileira contemporânea
Sergio Geia - Vocabulário de memórias ausentes - Editora Sinete - 156 Páginas - Imagem de capa: Rodrigo Scott - Lançamento: 2023.

O mais recente lançamento de Sergio Geia é uma antologia de contos que aborda diferentes aspectos da fragilidade física e psicológica inerente à condição humana, principalmente em uma época na qual as "relações líquidas", como definido por Zygmunt Bauman (1920-2017), tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Portanto, os personagens precisam lidar, cada um a seu modo, com o isolamento decorrente da passagem do tempo e o sentimento de perda e ausência que costumamos chamar de solidão. Neste caso, as lembranças constituem uma pequena esperança de felicidade, ainda que seja confundindo imaginação com realidade.

Em "A menina da praia", conto de abertura do livro, o protagonista, que sempre negou a necessidade de casamento e filhos, percebe que o tempo passou e a idade chegou, assim como a solidão depois da perda dos amigos. Vivendo apenas com a companhia da cadela Francisca, ele preenche o seu tempo caminhando pela praia e observando diariamente uma menina "na casa dos trinta que sofria de algum mal, isso estava claro", regendo uma orquestra imaginária com um palito de sorvete, cantando e dançando. A narrativa avança para um final surpreendente, quando o personagem decide comprar uma batuta de verdade para a menina.

"Abriu a porta do apartamento ainda incomodado. Na mente, a imagem da menina maluquinha. Ela conseguira encontrar uma porta aberta. Sem pedir licença, entrou, invadindo os ambientes da casa. Mexeu em compartimentos escuros, inacessíveis, dos quais nem ele mesmo tinha a senha. Xeretou por todos os cantos, até que, por fim, após esquadrilhar a sua mansão, chegou à alma. E agora, o que fazer? / Francisca o recebeu à porta com saltos de alegria, transportando-o para outra faixa de consciência muito mais suave. Ele a pegou no colo quase agradecendo pelo instante mágico. Beijou-a na cabeça branca, levando-a ao sofá. [...] E beijou Francisca muitas vezes até que, irritada, a cadela escorregou de seu colo, deixando-o à míngua. Com a ponta da língua, ela alisou a água do pote, sugando-a levemente, cheirou a xepa da noite com desinteresse, depois invadiu o pequeno caixote disposto no canto da sala, enrolando-se à manta de lã." (p. 22) - Trecho do conto A menina da praia

já em "Pequena despedida", um escritor desiste de acompanhar o desmanche do seu corpo, vivendo um último dia em grande estilo, apesar das limitações decorrentes da decadência física: "Acho que consegui viver bem comigo mesmo, com o aço gelado e duro da solidão, mesmo contra ele colidindo algumas vezes. Pode parecer estranho, mas o excesso de tempo, esse ouro que a velhice traz, tem lá o seu embuste: se você não souber ocupá-lo bem, pode se machucar." Antecipando o encontro inevitável e próximo com a morte, este personagem está de certa forma, por estranho que possa parecer, valorizando a própria vida.

"Já vivi o suficiente e posso dizer que tomo essa decisão com convicção. Não foi fácil. Um processo longo e doloroso em que a vi amadurecer, sem pressa, sem impulsos de colhê-la do pé antes da hora. Deixei chegar o seu tempo e, quando chegou, eu também estava pronto. Para muitos pode parecer loucura, a execução de um papel que não me é permitido. A esses afirmo que minha vida foi longa e bem vivida, sem contar que hoje ela se arrasta, apenas esperando a hora do fim. Creio que posso dispor dela da forma como entender conveniente, um direito legítimo. Por que esperar sabe-se lá quanto tempo mais vivendo este massacre, tendo a certeza que daqui a pouco outrem virá e dará cabo de mim?" (pp. 79-80) - Trecho do conto Pequena despedida

Para equilibrar um pouco o clima de melancolia, o autor acrescentou alguns contos mais leves, como o divertido "O mosca", no qual o protagonista passa pela desconfortável situação de se apresentar no alistamento militar e ainda por cima ser eleito como foco das gozações devido à sua semelhança com o ator Jeff Goldblum que se funde geneticamente com uma mosca no filme homônimo após uma mal-sucedida experiência em um dispositivo de teletransporte. Outro conto que destoa do clima da antologia é "Voz e violão", uma narrativa romântica ambientada em uma noite mágica com céu estrelado, música e vinho.

"Era calado o pai. A mãe falava, mas era chorona. Se a mãe resolvia me dar bronca por alguma arte, ela gritava de dar medo. Era um grito ardido, que feria os tímpanos. Por vezes ouvi pai e mãe brigando no quarto. A voz grave do pai duelando contra a voz aguda da mãe. O pai não gritava, nem era de se agastar. Mas se isso acontecia, se ele ficava nervoso e gritava, o grito era um trovão, parecia que o chão da casa estava a rasgar, como um terremoto. Daí mãe chorava. Eu tinha pena, e também chorava por dentro. / Adultos são tristes. Não me pergunte o momento exato em que a tristeza chega, pois não saberei responder. Mas ela chega. Como torneira velha. A gotinha fica lá, a pingar, fina, contínua, depois cresce, engrossa, o tempo passa, o copo enche. Quando se é adulto, o copo entornou. Aí a tristeza fica, viva, vivendo a vida junto. Meus pais eram assim." (p. 90) - Trecho do conto Clube dos ratos

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Sergio Geia nasceu em Taubaté, São Paulo. Servidor público da Justiça do Trabalho, é editor e cronista do Crônica do Dia. Acadêmico titular da Academia Taubateana de Letras, publicou o romance Confidências de um sacerdote (Cabral Editora) e o livro de crônicas Folha vadia (Editora Matarazzo). É um dos autores da antologia de crônicas Retire aqui a sua história (Editora Sinete), uma publicação com colaboradores do coletivo Crônica do Dia.

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Comentários

Soraya Jordão disse…
Que resenha bem feita. Organizada, clara, fluida, cirúrgica, sensível e muito interessante. O leitor ganha intimidade com o livro e isso desperta o interesse. Parabéns!
Alexandre Kovacs disse…
Oi Soraya, fico feliz que tenha gostado da resenha. Obrigado pela visita e comentário.

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