Eric Nepomuceno - A palavra nunca

Literatura brasileira contemporânea
Eric Nepomuceno - A palavra nunca - Editora Patuá - 168 Páginas
Capa, projeto gráfico e diagramação: Alessandro Romio - Lançamento: 2023.

Ao lermos os contos do escritor, jornalista e tradutor Eric Nepomuceno, temos a impressão de estar diante de uma obra de literatura hispano-americana traduzida para o português, tamanha a influência de escritores como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Eduardo Galeano e Gabriel García Márquez, tanto no que se refere aos temas quanto ao ritmo das narrativas. De fato, "A palavra nunca", que está sendo relançado agora pela Editora Patuá, reúne contos produzidos na época em que Eric Nepomuceno trabalhou como correspondente estrangeiro na Argentina (1973/1976), Espanha (1976/1979) e México (1979/1983), tendo sido publicados originalmente no México e incluídos nos livros "Contradanza y otras historias" e "Antes del invierno".

O livro agrupa os textos em cinco diferentes conjuntos temáticos. Na primeira parte, "Histórias da primavera", as memórias da infância até a adolescência prevalecem como argumento, começando com o excepcional "Telefunken" no qual o protagonista é um menino que ainda não completou dez anos, mas conduz a narrativa de forma convincente em primeira pessoa, associando o rádio com a ausência do pai, já em "A mulher do professor", a inspiração vem da lembrança de um certo verão quando alguns amigos se escondem para presenciar o banho da mulher do professor de francês, quem nunca? Em "Histórias do inverno", as dificuldades do amor, mesclado com trechos de um lindo poema de Juan Gelman: "essa mulher se parecia à palavra nunca, / de sua nuca subia um encanto particular, uma espécie de esquecimento / onde guardar os olhos...".

Na terceira parte, "Histórias sem tempo", um único conto com o título de "A promessa" descreve a insólita epopeia de dois amigos que combinam viajar até Jerusalem, mas sem sair de casa, caminhando de uma ponta a outra de um enorme salão. Na quarta parte, "Histórias do outono", a estupidez humana norteia as ações dos personagens em cenários de guerra e morte, principalmente nos brutais "Bandeira branca" e "O último" que provocam grande impacto no leitor. Na parte final,"Histórias de um tempo qualquer", o amor volta a ser o elemento principal, mesmo que inatingível, com os personagens envolvidos em um sentimento de melancolia e saudade, uma espécie de maré de amargura, como descrito no conto que encerra a obra, "Um senhor elegante".

Telefunken
(Um conto de Eric Nepomuceno)

Pelo buraco redondo coberto com o pano amarelinho que fica bem no meio da caixa de madeira com o nome Telefunken escrito em letrinhas brancas sai a voz de uma mulher brava. Tem que ser brava porque tem a voz fininha e vive brava. A mãe tem a voz fininha e vive brava.

Essa gente que canta no rádio não muda de assunto. É sempre essa coisa de amor pra cá, amor pra lá, e não falam em outra coisa. E falam cantando claro, porque são cantores e tudo, e tem uma porção de gente diferente. É fácil perceber isso porque as vozes são diferentes e porque eles cantam em uma porção de línguas.

Outro dia mesmo tinha um homem gordo cantando em alemão. Eu sei que era alemão porque a mãe disse, e sei que era um homem gordo porque tinha um vozeirão, igual ao Miguel Italiano, que é gordo. Mas acho que o Miguel Italiano não vai cantar no rádio nunca, porque eu nunca vi ele cantando. Acho que ele não deve gostar de cantar.

Quando eu era pequeno, achava que dentro do rádio tinha uns homens e umas mulheres bem pequeninos, e que a gente fazia a voz deles sair dando umas voltas no ponteiro. 

A gente quando é pequeno pensa numa porção de bobagens. Agora que eu cresci um pouco, quer dizer, que sou muito maior do que quando eu era pequeno, sei como é isso do rádio. Os homens e mulheres em outra casa, longe daqui, e a voz deles vem pela tomada. A gente liga o fio do rádio na tomada, e daí aparece a voz deles. Por isso é que tem tanto fio na rua: a luz e o rádio vêm pelos fios que estão pendurados nos postes. 

A gente até que tem um rádio bacana em casa, e a mãe às vezes põe uma toalhinha em cima dele e um vasinho com uma flor dentro, e depois passa um pano para tirar o pó; quando eu crescer e tiver uma casa e uma mulher, vou logo pedir pra ela cuidar bem do rádio, igual a mãe.

Eu vou querer um rádio parecido com o nosso. Só não quero de madeira escura: vou querer um rádio branco. Não sei se isso é bom; rádio branco deve ser que nem calça branca: suja muito. Por isso, é melhor não deixar ninguém chegar perto do rádio.

Vou gostar tanto do meu rádio que se minha mulher tiver um filho que nem minha mãe teve eu, vou dizer para ela não deixar ele mexer no rádio.

A gente casando sempre pega filho. Quer dizer, a vizinha Eulália casou há muito tempo, minha mãe disse outro dia não sei para quem que a Eulália leva mais de dez anos de casada, e eu nem tenho dez anos ainda, por isso não sei quando ela casou, mas dez anos é muito.

A vizinha Eulália não é mãe de ninguém. Vai ver que eu caso e minha mulher também não vira mãe de ninguém. Porque eu sei que se minha mulher virar mãe, morro depois de dois meses.

Aqui em casa aconteceu isso: eu nasci e meu pai morreu dois meses depois. A mãe vive falando para todo mundo que foi só eu nascer para meu pai morrer. E diz também, quando fica brava, que eu sou um peste endiabrado, e coisa bonita isso não deve ser, porque ela diz também “coisa ruim” para mim. A mãe vive brava.

Eu acho melhor não ter filho nenhum, senão eu morro depois de dois meses e minha mulher vai dizer “coisa ruim” para ele e ele vai ficar triste e não vai querer nem ouvir rádio nem nada, porque eu gosto de ouvir rádio mas de repente aparece uma mulher com a voz fininha e eu lembro da mãe. E fico pensando que está cheio de gente de voz fininha pelo mundo e deve ser tudo gente brava.

O Ivan não tem rádio mas o Ivan tem pai. Ele disse para mim que o pai tem uma voz grossa e conversa com ele, mas não é gordo. 

Eu acho que preferia ter pai do que ouvir rádio. Mas não sei isso direito, porque eu gosto tanto de ouvir rádio e de repente arranjava um pai bravo, daí não sei. 

O Ivan quando vem aqui em casa fica ouvindo rádio comigo e ele sabe ler mais depressa e fala Telefunken mais depressa do que eu. 

Quando eu casar vou comprar um rádio branco e ficar ouvindo as histórias que contam de noite. E daí, se minha mulher pegar um filho e eu achar que só levo mais dois meses de vida, pego e vendo o rádio para não deixar para ele.

Se minha mulher pegar um filho e eu achar que só tenho dois meses de vida, levo o rádio comigo.

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Eric Nepomuceno (Rio de Janeiro, 1948) é um autor, jornalista e tradutor brasileiro. Traduziu para o português obras de importantes autores latino-americanos, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e principalmente Gabriel García Márquez, pelo qual é mais conhecido, entre outros. Suas traduções renderam-lhe três Prêmios Jabuti, além de outro recebido por seu trabalho investigativo sobre o massacre de Eldorado dos Carajás.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar A palavra nunca de Eric Nepomuceno

Comentários

sonia disse…
Gostei muito do conto Telefunken. A infância do autor deve ter sido marcante, pois trouxe muita vida ao conto, tornando sua leitura irresistível!.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sonia, um conto maravilhoso realmente. Não tive como destacar apenas um trecho. Grande abraço.
sonia disse…
Como gostaria de ter tido na vida a companhia de alguém ligado à literatura. Só minha mãe foi pródiga em me incentivar na leitura e indicar os melhores livros! Um engenheiro mecânico que adora livros é uma exceção!!! Obrigada!

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