António Lobo Antunes

Literatura portuguesaO escritor português António Lobo Antunes foi premiado em segundo lugar no Portugal Telecom 2008 com o romance "Eu hei-de amar uma pedra", no entanto ele não esteve presente à cerimônia devido, como explicou o apresentador, "a suas peculiaridades". 

Esta característica polêmica do autor, talvez tenha sempre chamado mais atenção da mídia do que suas obras, normalmente complexas, que exigem algum esforço do leitor devido à mudança constante da voz do narrador (polifonia) e a mistura entre passado e presente (simultaneidade). Ele é frequentemente citado pela crítica como verdadeiro merecedor do Nobel de literatura em língua portuguesa, em detrimento de José Saramago.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Médico psiquiatra, foi convocado pelo exército português para servir na guerra em Angola, tornou-se internacionalmente conhecido com o seu segundo romance "Os cus de judas" (1979), sobre o conflito e a independência angolanos. O trecho abaixo, retirado deste livro, é um exemplo maravilhoso da arte de escrever:

"Luanda começou por ser um pobre cais sem majestade cujos armazéns ondulavam na umidade e no calor. A água assemelhava-se a creme solar turvo a luzir sobre pele suja e velha que cordas podres sulcavam de veias ao acaso. Negros desfocados, no excesso de claridade tremula, acocoravam-se em pequenos grupos, observando-nos com a distração intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que se encontra nas fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltrane quando sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo bêbedo, e eu imaginava diante dos beiços grossos de cada um daqueles homens um trompete invisível, pronto a subir verticalmente no ar denso como as cordas dos faquires.

Em "Fado Alexandrino" (1983), um grupo de cinco ex-militares se reencontra num jantar para relembrar a guerra em comemoração aos dez anos de retorno de Moçambique. Alternando tempo e espaço em uma narrativa não linear, o autor apresenta a sua história como um quebra-cabeça.

Já no romance "Exortação aos crocodilos" (1999), Lobo Antunes reduziu as diversas vozes narrativas para quatro vozes femininas. Através de monólogos interiores, lançados como estilhaços de memória e fragmentos, de cada uma das personagens, é narrada a história de uma rede de extrema direita que planeja atentados terroristas em Portugal nos anos setenta.

As citações abaixo explicam um pouco as tais "peculiaridades" mencionadas pelo apresentador do prêmio Portugal Telecom:

"Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares."

"Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar."

"Os bons escritores são pessoas que não mentem no seu trabalho."

"Qualquer entrevista é muito inferior a um livro. O livro permite corrigir-se. A entrevista necessariamente está cheia de lugares comuns."

"Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons."

"Saber ler é tão difícil como saber escrever."

Finalmente, ninguém melhor do que o próprio Antônio Lobo Antunes para se definir, como no vídeo promocional abaixo de seu último romance "O arquipélago da insônia":

Comentários

Anônimo disse…
10!

Abraco, Chico.
Corydora disse…
Olá K! Adorei seu espaço "cultural e literário!Realmente muito bom, cheio de "novidades" para ainda mais acrescer nossa humanidade.

Curioso a audácia, nada humilde, deste autor português. Confesso que não o conhecia, mas me deixou instigada a ler alguma de suas obras.

Acho que no universo das artes não há comparações. No máximo co-relações. Por isso, nunca tiraria o mérito do mestre Saramago. Ele é um gênio e suas obras são reflexos disso. E acredito, q da mesma forma o António tb o seja. Cada qual tem seu devido valor.

Mas as pessoas adoram criar partidos, times, situações aonde pode disputar com o outro. Mesmo que não haja qualquer forma de disputa. Essas controvérsias são apenas polêmicas para dar uma "movimentada" no mundo literário. hehehehehe.

Um abço e parabéns pelo espaço! Já o coloquei no meu cantinho para acompanhá-lo sempre!
Kovacs disse…
Chico, fico satisfeito que tenha gostado. Obrigado pela força!
Kovacs disse…
Corydora, obrigado pelo comentário gentil. O que seria da crítica literária sem a eterna busca das comparações, enquadramentos e interpretações. De qualquer forma é sempre um bom assunto para blogs. Obrigado pela visita e link devidamente retribuído.
Eliana BR disse…
Ola,
Vim pagar sua visita ( também conheço você do linhadepesca, de Clara Lopez ) e eis que fico pregada nas suas resenhas... e nas conversas que elas suscitam...
Gosto muito do ritmo de Lobo Antunes, que so conheço do Cus de Judas e Memoria de elefante. Nao li Tezza mas sua resenha mostra que o prêmio foi justificado. E se pudesse começaria agora a ler Desonra ( ainda nao posso ler so o que quero, hélas).
Até breve, fiquei freguesa.
Abraços,
Eliana ( cadernodeparis)
Kovacs disse…
Eliana, obrigado pela visita e o Caderno de Paris já tem link garantido no meu mundo.
Anônimo disse…
Kovacs, naõ conheço o Lobo Antunes, mas ele vai ficar na fila...:)
um abraço,
clara lopez
Barros disse…
Já estive algumas vezes folheando livros de Antunes nas livrarias, mas sempre acabei optando por outro.
Depois de sua postagem, talvez me anime.
Kovacs disse…
Clara Lopez, recomendo começar logo, você não vai se arrepender! Obrigado pela visita.
Kovacs disse…
Barros, uma leitura difícil e que exige muita concentração, mas prazerosa. Você vai gostar com certeza!
Maria Augusta disse…
Kovacs, não conheço este escritor, mas seus propósitos polêmicos instigam a conhecer sua obra. O assunto da independência das colônias portuguesas da Africa que aconteceu num passado relativamente recente deve dar origem a muitas histórias, e nos permitir de conhecer a visão das pessoas que a viveram ou que conheceram alguém que tenha visto os acontecimentos de perto.
Ótimo post, como sempre.
Um grande abraço.
Kovacs disse…
Maria Augusta, boa parte da literatura de Lobo Antunes sofreu a influência de suas experiências no exército português durante a guerra de independência de Angola. Obrigado pela visita!
Leila Silva disse…
Acredite se puder, mas ainda não o li...
um dia, um dia.
Abraço
Kovacs disse…
Leila, é como costumo comentar por aqui, imagine se a imensa lista de livros ainda por ler acabasse. O que seria de nós, leitores compulsívos...
JLM disse…
Gosto de entrevistas de escritores em vídeo, e um dia ainda tiro tempo para legendar a do Nabokov q tem no Youtube. Até lá, ctrl+c no seu post e uma referência a ele no meu blogue.

1 abraço.
JLM disse…
Eu não achei ele polêmico. Ele só admitiu escrever por puro egoísmo, e que não está nem aí para quem o lê. Pra mim, é um bom motivo.

1 abraço.
Kovacs disse…
Jefferson, obrigado pela citação e parabéns pela sua estréia no "O Pensador Selvagem". A questão do que "não ler" é realmente da maior importância!
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