Alberto da Cunha Melo

O cão de ohos amarelos
O site da poeta Bruna Beber destacou um poema do pernambucano José Alberto Tavares da Cunha Melo que, apesar de já ter publicado 17 livros e ter sido incluído em 32 antologias, não é conhecido e, principalmente, reconhecido pelo grande público brasileiro como certamente seria se fosse originário do badalado eixo Rio-São Paulo.

O poeta conseguiu maior projeção nacional com o lançamento do seu livro "O Cão de Olhos Amarelos", (Editora A Girafa, 227 páginas), uma edição comemorativa dos seus 40 anos de poesia, premiado pela Academia Brasileira de Letras, em 2007, como o melhor livro de poesia publicado no ano de 2006. Ainda é muito pouco para um autor que dispensa apresentações e explicações. Por exemplo, não consigo imaginar título menos poético do que Relógio de Ponto, mas leiam com atenção o poema abaixo e certamente ficarão surpreendidos pela força e originalidade das imagens e, afinal, não há motivos para preocupação pois, como diz o poeta, tudo que levamos a sério torna-se amargo, mesmo as vitórias.


RELÓGIO DE PONTO
(Alberto da Cunha Melo)

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

Comentários

Bento Moura disse…
Kovacs, meu amigo, vou repetir aqui o que escrevi no FB:

Inteligência sem petulância nem afetação ou esnobismo...
Ai como isso faz bem prá alma!

Perfeito para começar o ano. Como sempre, obrigadíssimo.
Kovacs disse…
Caro Bento, você definiu bem o trabalho de Alberto da Cunha Melo. A seguinte estrofe é surpreendente:

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
Alex disse…
Bela observação, Kovacs. Ótimo poeta.

Abraços.
Bento Moura disse…
Kovacs, amigo, eu não estava me referindo ao Cunha Melo, mas a você. O poeta foi só uma extensão, naturalmente.

Abraços e bom fds.
Kovacs disse…
Alex, fico feliz que tenha gostado. Obrigado pela visita!
Kovacs disse…
Bento, muita gentileza sua e fico agradecido pelo generoso elogio!
Rodolfo Rios disse…
As suas palavras têm respaldo diante de tantas coisas que já vivenciamos. Não se pode ignorar as suas observações e análises!

Valeu!

Isaías
Kovacs disse…
Rodolfo, obrigado pela visita e seja bem-vindo por aqui!
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