Jules Michelet - História da Revolução Francesa

História da França

Jules Michelet - História da Revolução Francesa - Editora Companhia das Letras - 432 Páginas - Tradução de Maria Lucia Machado - Lançamento no Brasil: 25/09/1989 (Edição esgotada e fora de catálogo).

Jules Michelet (1798-1874) foi um historiador que, por meio de estilo pessoal e humanista, chamado muitas vezes de romântico, marcou a sua obra por descrições apaixonadas de eventos da história da França, o seu legado é importante não somente do ponto de vista da ciência histórica, mas também literário, já que muito do que ele escreveu pode parecer hoje pura ficção. Esta "História da Revolução Francesa", por exemplo, redigida originalmente no período entre 1846 a 1853, não se limita somente a citar fatos, estatísticas ou biografias de personagens ilustres, embora o faça também, mas concentra o seu foco principalmente nas causas e efeitos sobre o cotidiano do povo. É o povo, portanto, o principal personagem e herói no texto de Michelet.

Não há dúvida de que a Revolução Francesa é uma das passagens mais lindas e terríveis da história universal. O lema de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" inspirado pelos ideais iluministas de Montesquieu, Voltaire e Rousseau, assim como a crise fiscal e a depressão econômica sem precedentes, originaram a revolta popular e seus desdobramentos. Contudo, na causa raiz de todo o movimento estão os privilégios da monarquia e da igreja e os séculos de exploração do povo, a herança de um sistema feudal injusto e corrompido. É particularmente contra a igreja católica que Michelet inicia a sua análise, comparando as consequências violentas do radicalismo pós-revolucionário com os séculos de perseguição religiosa instituída pela Inquisição na Europa.
"Que o terror revolucionário se precavenha de comparar-se à Inquisição. Que jamais se vanglorie de ter, em seus dois ou três anos, devolvido ao velho sistema o que ele nos fez por seiscentos anos!... Como a Inquisição teria direito de rir!... O que são os dezesseis mil guilhotinados de um diante diante desses milhões de homens decapitados, enforcados, despedaçados, dessa piramidal fogueira, dessa massa de carnes queimadas, que a outra ergueu até o céu? Só a Inquisição de uma das províncias da Espanha estabeleceu, em um documento autêntico, que em dezesseis anos queimou vinte mil homens (...) A história dirá que, em seu momento feroz, implacável, a Revolução temeu agravar a morte, suavizou os suplícios, afastou a mão do homem e inventou uma máquina para abreviar a dor." (Pág.51) - Introdução - Primeira Parte - Da Religião da Idade Média.
Esta edição reúne os três primeiros livros da obra completa, cobrindo o  período da Queda da Bastilha (1789) até a Festa da Federação (1790). Para um melhor aproveitamento da leitura, vale a pena relembrar alguns marcos da Revolução, tais como a formação da Assembleia dos Estados Gerais de 1789 e a Assembleia Nacional Constituinte que aprovou a legislação pela qual era abolido o regime feudal e senhorial, suprimido o dízimo e, finalmente, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Contudo, o grande marco deflagrador de todo o movimento e que acabou provocando o isolamento, afastamento e posterior execução de Luis XVI foi mesmo a Queda da Bastilha, antiga prisão política do regime, em 14 de julho de 1789, uma data que será lembrada para sempre.
"A Bastilha, embora sendo uma velha fortaleza, não deixava de ser inexpugnável, a menos que na sua conquista se gastassem vários dias e muita artilharia. O povo não tinha, nessa crise, nem tempo nem meios de fazer um cerco regular. Se o tivesse feito, a Bastilha não precisaria temer, tendo víveres suficientes para esperar um socorro tão próximo, e imensas munições de guerra. Seus muros de dez pés de espessura no topo das torres, de trinta ou quarenta na base, podiam rir por muito tempo das balas, e suas baterias, cujo fogo mergulhava sobre Paris, poderiam enquanto esperava, demolir todo o Marais, todo o Faubourg Saint-Antoine. Suas torres varadas de estreitas janelas e seteiras, com grades duplas e triplas, permitiam à guarnição fazer com toda a segurança uma terrível carnificina dos atacantes. O ataque à Bastilha não foi de maneira nenhuma refletido. Foi um ato de fé." (Pág. 154) - Capítulo VI - Tomada da Bastilha (14 de Julho de 1789).
Um livro atualmente esgotado e que merece ser relançado, principalmente porque vivemos um tempo difícil em que os movimentos de extrema-direita parecem avançar em todo o mundo, inclusive no Brasil, e os direitos civis e liberdades individuais são constantemente ameaçados por questões de ordem política, econômica ou de segurança nacional. Talvez seja um bom momento para relembrar o esforço de gerações passadas que lutaram para conquistar e manter os ideais de justiça e democracia. Quem sabe o lema de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" possa ainda representar uma chance para iluminar as trevas neste início de século.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visitadas deste blog

Albert Camus - A Morte Feliz

Penguin Little Black Classics

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

Geny Vilas-Novas - Fazendas ásperas

Milton Hatoum - A Noite da Espera

20 grandes escritoras brasileiras