Paulo Scott - Marrom e Amarelo

Literatura brasileira contemporânea

Paulo Scott - Marrom e Amarelo - Editora Alfaguara - 160 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Pintura em guache de Sidney Amaral - Lançamento: 12/08/2019.

O escritor gaúcho Paulo Scott volta a abordar a questão da crise de identidade com personagens envolvidos em um contexto político e social adverso, assim como fez no seu mais premiado romance Habitante irreal (Editora Alfaguara, 2011), no qual o encontro entre uma adolescente indígena de catorze anos chamada Maína e Paulo, um estudante de Direito desiludido com a militância política, servia como ponto de partida para falar sobre a invasão das terras indígenas e da destruição da cultura nativa por conta dos interesses da invasão latifundiária e do agronegócio, como se percebe, um assunto bastante recorrente. Agora, em seu mais recente lançamento, Marrom e Amarelo (Editora Alfaguara, 2019), além da crise existencial do protagonista, o contexto passa pela discriminação racial e os seus efeitos na grande população de excluídos, sejam eles negros, pardos ou indígenas em nosso país, uma herança histórica que a nossa sociedade prefere ignorar (apesar de todas as evidências em contrário), ou ainda pior, se possível perpetuar por muitas gerações no futuro.

Em Marrom e Amarelo, acompanhamos a trajetória de dois irmãos, sendo a narrativa feita em primeira pessoa por Federico, o mais velho, com fenótipo claro, e Lourenço, mais jovem e com pele retinta, assim como o pai. Eles crescem em um bairro carente chamado Partenon, na periferia de Porto Alegre, porém conseguem atingir posições de destaque em suas áreas de atuação – Federico é um conhecido militante político das causas negras, convidado a tomar parte em um grupo de trabalho em Brasília sobre seleção de cotistas em universidades federais, Lourenço se tornou treinador de basquete em um clube de Porto Alegre. Apesar das diferenças na aparência, ambos cresceram marcados pelo ambiente de violência e discriminação racial e assimilaram essa formação, cada um a seu modo, de acordo com o próprio temperamento. Dos dois irmãos, é Federico, o de tonalidade de pele mais clara, que sofreu um forte trauma no passado, resultando em um constante estado de revolta.

Após dezenove anos morando em Brasília, então com 49 anos, em 2016, Federico é convidado a participar de um absurda comissão de trabalho governamental para estudar a "elaboração de software de avaliação e padronização para fins de seleção em primeira instância administrativa dos candidatos pretos, pardos e indígenas a vagas reservadas para cotistas no ensino público federal", ou seja, um aplicativo com a pretensão de funcionar como uma "régua de cor, um negrômetro" de forma a evitar a influência da subjetividade no processo atual de concessão do benefício de cotas que, segundo consta, estaria provocando uma enorme confusão porque alguns alunos negros argumentavam que os pardos não eram suficientemente pardos, "eram pardos de araque" ou simplesmente brancos, segundo a avaliação da militância negra: "brancos safados que, aproveitando a exclusividade do critério de autodeclaração racial, pegando umas sessões de câmara de bronzeamento, aplicando autobronzeador spray na pele, pintando a pele, fazendo permanente no cabelo, preenchimento labial, alegavam ser negros [...]"
"Não guardei na memória o que eu disse no início da minha fala, mas lembro quando, depois duns minutos, percebendo nos olhares deles que, feito eu, não tinham muita certeza do que estavam fazendo naquela comissão, atalhando a ritualística da primeira interação, respirei fundo, que eu só estava autorizado a me apresentar diante dos oito porque teve um dia, um implacável dez de agosto de mil novecentos e oitenta e quatro, que, apesar dos anos que se passaram, continuava girando dentro da minha cabeça, turbilhão num eterno tempo presente, um dia em que testemunhei e vivenciei, como nunca tinha testemunhado e vivenciado, toda a covardia da hierarquização das cores de pele praticada no Brasil, toda a covardia dum massacre psicológico, dum distúrbio psíquico de larga abrangência social, que não ia acabar tão cedo, um dia que tinha me deixado louco por um bom tempo, mas depois tinha me feito reagir com violência e depois com alguma lucidez. Foi quando os oito começaram a me escutar." (p. 15)
O implacável dia de 10 de agosto de 1984, que tanto marcou a adolescência de Federico e vem assombrá-lo sempre "em um eterno tempo presente", motivando o constante estado de raiva que se incorporou à sua personalidade, é relembrado ao longo do romance em um criativo jogo narrativo que alterna o avanço do tempo presente com os eventos do passado em flashbacks retroativos que partem do final até o início desse dia fatídico de 1984 que terminou em um evento trágico, motivado por insultos racistas em uma clube elegante de Porto Alegre. Quando Federico é chamado com urgência para retornar à sua cidade natal, pelo irmão Lourenço, descobre que as consequências do passado ameaçam a sobrinha Roberta que foi presa por resistir à violenta ação de reintegração de posse de um prédio ocupado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

A discussão sobre o atual sistema de cotas raciais é uma pequena parte da complexa questão do racismo em nosso país, que apresenta distintas formas de expressão em cada região brasileira, principalmente em uma época de polarização política, na qual tanto se fala em esquerda e direita, pobres e ricos, brancos e pretos, não pode ser tratada como uma exercício de graduação cromática. Afinal, como um dos personagens nos ensina no trecho abaixo, a questão do racismo não se resolve simplesmente com a adoção de uma "régua racial".
"Estamos falando de régua de cor, se atravessou Mauro, quarenta e dois anos, diretor-adjunto da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Não tem como criar uma régua de cor, um negrômetro, uma régua racial para inserir num programa de computador, e se contorceu na cadeira puxando pra perto o bloco de anotações com o timbre da secretaria que foi disponibilizado pra cada um de nós, Enquanto Beatriz lia, disse ele, entrei aqui nas páginas das Tintas Suvinil só pra consultar o que eles chamam de leque de cores, e anotei os nomes de algumas delas, só de algumas, as que podem ser variações disso que vocês chamam de pardo claro, pardo médio e pardo escuro, pegou o bloco, As claras intermediárias são, ajeitou os óculos sobre o nariz, Flor da Pele, Nata, Marshmallow, Coquetel de Lichia, Glacê de Limão, Amêndoa, Pele Delicada, Feixe de Luz, Flan de Baunilha, Areia Maranhense, Palha Antiga, Creme de Ovos, Palha Suave, E as médias e mais escuras, Estrada da Terra, Cajuzinho, Pele Bronzeada, Banana com Canela, Nozes, Castanha-do-Pará, Canela Natural, Noz-moscada, Cravo-da-Índia, Grão de Café, Chocolate em Pó, Canela em Pó, Mogno, Chocolate Meio Amargo, Cuia de Chimarrão, Todos esses nomes, e é só vocês conferirem depois no site, poderiam ser cores de pele humana, Será mesmo que é por aí que esta comissão irá, carregando no sarcasmo." (p.29)
Os temas abordados nos romances de Paulo Scott estão, infelizmente, cada vez mais inseridos nas questões sociais e políticas brasileiras atuais – apesar dos riscos de se escrever sobre uma história que ainda está acontecendo neste exato momento – e nos lembram da urgência de iniciarmos a construção de um país melhor para todos, sem polarizações e com imparcialidade. O corajoso romance é muito bem-vindo porque ajuda a delimitar um espaço histórico importante na encruzilhada social e política que vivemos hoje, indispensável para os amantes da literatura e cidadãos de uma forma geral que ainda se preocupam com justiça e dignidade. E para isso também serve a arte e a literatura, sempre.

Sobre o autor: Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966. Escritor e professor universitário, publicou doze livros: cinco romances, um livro de contos e seis de poesia. Recebeu os prêmios Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, APCA, Açorianos de Literatura, entre outros, e foi finalista de prêmios como Jabuti, Prêmio São Paulo de Literatura e Prêmio de Literatura Casa da América Latina (Portugal).

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