Silvina Ocampo - A fúria e outros contos

Literatura argentina
Silvina Ocampo - A fúria e outros contos - Editora Companhia das Letras - 224 Páginas - Tradução de Livia Deorsola - Posfácio de Laura Janina Hosiasson - Capa de Elisa von Randow -  Ilustração de Cristina Daura - Lançamento: Agosto de 2019.

É difícil entender como uma autora tão importante na literatura latino-americana tenha permanecido inédita no Brasil até hoje. Considerada uma das maiores contistas argentinas, Silvina Ocampo (1903-1993) é dona de um estilo único que se situa em uma região imprecisa entre o surrealismo, o realismo mágico e a literatura fantástica, porém não se enquadrando em nenhuma dessas categorias. Esposa de Adolfo Bioy Casares e amiga de Jorge Luis Borges, que dedicou a ela o seu primeiro conto publicado, “Pierre Menard, autor do Quixote” na revista literária “Sur”, da irmã Victoria Ocampo, ela é considerada uma escritora para escritores, tendo sido citada como referência por autores tão diferentes quanto: Julio Cortázar, Tomás Eloy Martínez, Alejandra Pizarnik, Roberto Bolaño e Italo Calvino.

Não há como ficar indiferente à leitura dos contos deste livro. Perturbador é uma expressão adequada para o sentimento que a autora desperta com suas narrativas breves que parecem lidar com questões banais do cotidiano, mas em uma transição sutil – que nem sempre é claramente percebida pelo leitor – escapam para o domínio da estranheza, perversão e crueldade. A professora de literatura hispano-americana da USP Laura Janina Hosiasson ressalta muito bem no posfácio: "Como nos sonhos, aqui se está num mundo sem regra moral, no qual os impulsos não têm censura e não há espaço para a culpa. A aparente ordem das famílias é posta a nu pelo escancaramento de sentimentos obscuros, de taras e pulsões sexuais sem repressão, que pululam no interior de sua engrenagem." É o que ocorre no conto "A casa de açúcar", conhecido como sendo o preferido de Julio Cortázar, quando a nova inquilina, recém-casada, assume a personalidade da antiga moradora de uma casa, assim como seus amantes do passado, toda a narrativa feita em primeira pessoa pelo marido.
"As superstições não deixavam Cristina viver. Uma moeda com a efígie apagada, uma mancha de tinta, a lua vista através de dois vidros, as iniciais de seu nome gravadas por acaso no tronco de um cedro a deixavam louca de medo [...] Quando ficamos noivos, tivemos que procurar um apartamento novo, pois, segundo suas crenças, o destino dos moradores anteriores influiria sobre sua vida (em nenhum momento mencionava a minha, como se o perigo ameaçasse só a ela e como se nossas vidas não estivessem unidas pelo amor). Percorremos todos os bairros da cidade; chegamos aos subúrbios mais distantes, em busca de um apartamento que ninguém tivesse habitado: todos estavam alugados ou vendidos. Por fim, encontrei uma casinha na Calle Montes de Oca, que parecia de açúcar. Sua brancura brilhava com extraordinária luminosidade. [...]" - Trechos do conto "A casa de açúcar" (p. 32)
A tensão narrativa é amplificada pela presença constante de crianças, capazes de atos terríveis, o que só faz aumentar a sensação de perplexidade devido ao corte inesperado entre ingenuidade e perversão, ou ainda, horror e humor. No conto que empresta o título à antologia, por exemplo, uma menina incendeia as asas de anjo da colega com o seu círio durante uma celebração religiosa e, desde então, passa a cometer crueldades ainda maiores com as outras pessoas, para "redimir-se através da maldade". Em "As fotografias" (ler o trecho abaixo) comemora-se a festa de aniversário de uma menina paralítica, registrada em uma inusitada sessão de fotos com um final trágico, que parece não afetar os convidados ou o narrador.
"Cheguei com meus presentes. Cumprimentei Adriana. Ela estava sentada no centro do pátio, em uma cadeira de vime, rodeada pelos convidados. Vestia uma saia bem rodada, de organdi branco e com uma anágua engomada, cuja renda aparecia ao menor movimento, uma tiara de metal maleável com flores brancas no cabelo, umas botinas ortopédicas de couro e um leque rosado na mão. Aquela vocação para a desgraça, que eu tinha descoberto nela muito antes do acidente, não se notava em seu rosto. [...] Mostraram-me os presentes: estavam dispostos em uma prateleira do quarto. No pátio, sob um toldo amarelo, tinham posto a mesa, que era bem comprida: duas toalhas a cobriam. Os sanduíches de verdura e presunto e os bolos muito bem elaborados despertaram meu apetite. [...] Esperávamos a chegada de Spirito, o fotógrafo: não podíamos nos sentar à mesa nem abrir as garrafas de sidra, nem tocar nos bolos, até que ele chegasse." - Trechos do conto "As fotografias" (p. 74)
Publicado originalmente em 1959, o livro não perdeu nada do seu caráter provocador e moderno. Na verdade, Silvina Ocampo sempre assumiu um tom de mistério em torno da sua vida particular e de sua obra que vem sendo redescoberta nos últimos anos. No Brasil, até hoje só contávamos com uma tradução da autora, que organizou a "Antologia da Literatura Fantástica", juntamente com  Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares (ler aqui resenha no Mundo de K). “Vejo uma pessoa disfarçada de si mesma”, escreveu a sua irmã Victoria Ocampo na revista "Sur" em 1937, resenhando o livro de estreia de Silvina, "Viaje olvidado", infelizmente também não publicado em nosso país, uma falha que certamente será corrigida em breve. 

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