Itamar Vieira Junior - Torto arado

Literatura contemporânea brasileira
Itamar Vieira Junior - Torto arado - Editora Todavia - 264 Páginas - Capa de Elisa v. Randow - Ilustração de capa de Linoca Souza - Lançamento: 07/08/2019

O romance de estreia de Itamar Vieira Junior já nasce com a força das obras clássicas, tanto na beleza e originalidade do texto quanto no caráter universal e humanista do tema, a história de gerações de uma mesma família de descendentes de escravos, vivendo em uma fazenda chamada Água Negra, na Chapada Diamantina, interior da Bahia, onde são mantidos outros trabalhadores rurais em regime de servidão, uma prática que, infelizmente, ainda permanece em muitas regiões formadas por latifúndios em nosso país. O livro vem preencher, portanto, uma lacuna de obras na literatura brasileira sobre essa ferida social que ainda não conseguimos curar.

A partir de um núcleo de personages formado pelas irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de Salustiana Nicolau e Zeca Chapéu Grande, assim como de sua misteriosa avó paterna Donana, o autor apresenta um painel mais amplo sobre os negros que não foram efetivamente libertados após a abolição e sua adaptação social e cultural. A manutenção de crenças religiosas como o jarê, típica dessa região, que incorpora elementos do catolicismo oficial às culturas negras e indígenas é um exemplo. Zeca Chapéu Grande é um "curador de jarê", indivíduo que tem a capacidade de curar o corpo e o espírito, atendendo às demandas da comunidade carente local, sem outras opções de ajuda. As festas de jarê são eventos onde ocorre a prática do Encantado que consiste na incorporação de entidades pelos praticantes.

O romance é dividido em três partes, cada uma narrada na voz de uma protagonista  feminina diferente. Na primeira, o ponto de vista é de Bibiana, a irmã mais velha, que dá início ao romance a partir de um acidente doméstico que provocou a mudez de Belonísia, quando as irmãs, então com seis e sete anos, descobriram o brilho de uma faca com cabo de marfim, escondida na mala de roupas da avó. O fio de corte dessa faca, ao amputar acidentalmente a lingua da pequena Belonísia, unirá para sempre a vida das duas irmãs, apesar de deixar uma delas isolada das outras pessoas e do mundo, na solidão do silêncio. Com o passar do tempo, Bibiana se envolverá politicamente com a luta dos trabalhadores pela posse da terra e contra as desigualdades sociais, casando-se com o primo Severo e fugindo da fazenda.
"Nos primeiros meses após perder a língua fomos tomadas de um sentimento de união que estava embotado com aquele passado de brigas e disputas infantis. No início se instalou uma grande tristeza em nossa casa. Os vizinhos e compadres vinham nos visitar, fazer votos de melhoras. Minha mãe se revezava com as vizinhas, que olhavam os filhos menores enquanto ela cozinhava papas, mingau de cachorro para ajudar na cicatrização, purês de inhame, batata-doce ou aipim. Nosso pai seguia para a roça ao nascer do dia. Rumava com seus instrumentos depois de passar a mão nas nossas cabeças com suas preces sussurradas aos encantados. Quando retomamos as brincadeiras, havíamos esquecido as disputas, agora uma teria que falar pela outra. Uma seria a voz da outra. Deveria se aprimorar a sensibilidade que cercaria aquela convivência a partir de então. Ter a capacidade de ler com mais atenção os olhos e os gestos da irmã. Seríamos as iguais. A que emprestaria a voz teria que percorrer com a visão os sinais do corpo da que emudeceu. A que emudeceu teria que ter a capacidade de transmitir com gestos largos e também vibrações mínimas as expressões que gostaria de comunicar." Trecho da Parte I - Fio de corte (p. 23)
Na segunda parte, ficamos conhecendo o ponto de vista de Belonísia que se identifica mais do que Bibiana com o trabalho no campo e as crenças religiosas dos pais. Ela permaneceu na fazenda Água Negra, aprendendo a conviver com a natureza e a escapar de um destino de submissão imposto por uma sociedade controlada por homens, ainda mais no caso de uma mulher negra. Nessa luta desigual pelos direitos mais elementares, ela herdará a coragem e determinação da avó Donana, simbolizada pelo seu punhal de cabo de marfim. Bibiana e Belonísia, por meio de caminhos muito diferentes não aceitaram a escravidão como destino.
"Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos de arroz em torrões marrons e vermelhos revolvidos. Gostava do som redondo, fácil e ruidoso que tinha ao ser enunciado. 'Vou trabalhar no arado.' 'Vou arar a terra.' 'Seria bom ter um arado novo, esse arado está troncho e velho.' O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada. Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo para ser a Belonísia de antes, mas logo me vi impelida a desistir. Nem mesmo quando o edema se desfez consegui reproduzir uma palavra que pudesse ser entendida por mim mesma. Não iria reproduzir os sons que me provocavam desgosto e repulsa e ser alvo de zombaria para as crianças na casa de Firmina, ou para as filhas de Tonha." Trecho da parte II - Torto arado (p. 127)
Na terceira e última parte, uma nova entidade encantada, Santa Rita Pescadeira, assume o controle da narrativa e de alguns personagens também. Uma solução original que permite ao autor a adoção de um narrador onisciente, altenando as vozes em primeira, segunda e terceira pessoas, e conduzindo a trama para o seu final com uma visão geral e independente. A beleza do texto contrasta com uma ficção que tem o gosto amargo da realidade, herança de um passado colonial que precisamos transformar, e para isso também serve a literatura.
"Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons, porque não havia mais chicote para castigar o povo. Como eram bons, por permitirem que plantassem seu próprio arroz e feijão, o quiabo e a abóbora. A batata-doce do café da manhã. 'Mas vocês precisam pagar esse pedaço de chão onde plantam seu sustento, o prato que comem, porque saco vazio não fica em pé. Então, vocês trabalham nas minhas roças e, com o tempo que sobrar, cuidam do que é de vocês. Ah, mas não pode construir casa de tijolo, nem colocar telha de cerâmica. Vocês são trabalhadores, não podem ter casa igual a dono. Podem ir embora quando quiserem, mas pensem bem, está difícil morada em outro canto.'" Trecho da parte III - Rio de sangue (p. 204)
O romance foi o vencedor em 2018 do tradicional prêmio literário português LeYa que resumiu da seguinte forma a justificativa pela escolha: “pela solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade patriarcal”. Não deixa de ser surpreendente que um livro inspirado em um universo tão regionalista do nosso sertão baiano tenha sido escolhido por uma premiação portuguesa, o que só se justifica, como citei na abertura, pelo caráter universal e humanista da obra. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar muito de Itamar Vieira Junior.

Sobre o autor: Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA. Publicou os livros de contos Dias (2012, Editora Caramurê) e A oração do carrasco (finalista do Prêmio Jabuti 2018, Editora Mondrongo), além de outros textos ficcionais em diversas publicações nacionais e estrangeiras.

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