Antologia da Literatura Fantástica

Clássicos da Literatura Universal
Antologia da Literatura Fantástica - Organização de Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo - Editora Companhia das Letras - 448 Páginas - Capa e Projeto Gráfico de Daniel Trench - Ilustração da Capa de Marcelo Cipis - Tradução de Josely Vianna Baptista - Lançamento: 23/04/2019.

A literatura fantástica é uma referência constante na Argentina, escritores como Borges e Cortázar ajudaram a criar uma tradição neste gênero que tem se renovado ao longo do tempo, um bom exemplo desta nova geração é Samanta Schweblin, que foi finalista do Man Booker International Prize em 2017, juntamente com nomes já consagrados, em outros estilos, como Amós Oz e David Grossman. A Antologia, publicada originalmente em 1940 (mesmo ano do lançamento de A invenção de Morel de Bioy Casares), foi revista e ampliada em 1968, tornando-se um clássico da literatura hispano-americana, apesar das contribuições de várias nacionalidades.

Conforme o prólogo, escrito por Bioy Casares, a ideia do livro surgiu em uma noite de 1937, durante uma conversa com os amigos Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo sobre literatura fantástica, quando decidiram então preparar uma seleção de contos e fragmentos de romances e peças de teatro sobre o tema, com base somente em suas preferências estéticas. É claro que uma primeira dificuldade neste tipo de compilação é a própria definição do que seria o gênero fantástico (sem falar nas unidades de estilo e época): viagens no tempo, pactos com o demônio, assombrações e até mesmo fábulas do oriente, comprovam que as narrativas são bastante abrangentes e antigas – "Antigas como o medo, as ficções fantásticas são anteriores às letras" correspondendo ao "desejo inesgotável de ouvir histórias", de preferência boas histórias.

Uma nota importante sobre a tradução é que a mesma foi feita a partir das versões de Borges e Bioy Casares e não das fontes originais, uma decisão acertada tratando-se de antologistas conhecidos por suas transcrições e citações apócrifas. Outra peculiaridade, talvez o maior charme desta fantástica antologia, é a inclusão de autores clássicos como Edgar Allan Poe e H. G. Wells ao lado de outros desconhecidos, criando-se uma nova perspectiva para o leitor, inclusive dos textos consagrados. Neste caso, um bom exemplo é o conto Enoch Soames de Max Beerbohm (ler o trecho abaixo), sobre um escritor frustrado que  troca a sua alma pela chance de visitar o salão de leitura do Museu Britânico, cem anos depois, para saber se a sua obra resistiu ao tempo, um preço bem alto para satisfazer a sua curiosidade egocêntrica.
"Parecia-me estranho e monstruoso que Soames, em carne e osso, com sua capa impermeável, estivesse, nesse momento, na última década do outro século, folheando livros ainda não escritos e sendo olhado por homens ainda não nascidos. Ainda mais estranho e monstruoso era pensar que nessa noite e para sempre ele estaria no inferno. Não à toa dizem que a verdade é mais estranha que a ficção." - (p. 50) trecho do conto Enoch Soames de Max Beerbohm (1872-1956).
O humor não é incompatível com o gênero fantástico, como demonstra Bioy Casares no ótimo conto A lula opta por sua tinta, uma narrativa ambientada em uma pequena cidade do interior na Argentina na década de 1950. O protagonista, assim como toda a vizinhança, comenta sobre o desaparecimento do aspersor de irrigação do hotel local, um tremendo mistério que encontra explicação na visita de um ser do espaço que precisa ser regado constantemente, uma esperança de salvação para o planeta Terra, destinado a ser destruído pela própria humanidade ao fazer uso da bomba atômica, assunto sensível na época da Guerra Fria. Um texto bem ao estilo do mestre argentino, inteligente e carregado de sarcasmo e ironia.
"O tema desta crônica tem uma particularidade que não quero omitir: o fato não ocorreu em minha cidade, apenas: ocorreu na quadra onde passei toda a minha vida, onde fica minha casa, minha escolinha – segundo lar – e o bar de um hotel defronte da estação, no qual fomos, noite após noite, a altas horas, o núcleo inquieto da juventude do lugar. O epicentro do fenômeno, o foco, se preferirem, foi o armazém de d. Juan Camargo, cujos fundos limitam, pelo lado leste, com o hotel e pelo norte com o pátio de casa. Algumas circunstâncias, que nem todos relacionariam, anunciaram-no: refiro-me ao pedido de livros e à retirada do aspersor de irrigação." - (p. 97), trecho do conto A lula opta por sua tinta de Adolfo Bioy Casares (1914-1999).
Mesmo no caso de autores clássicos, como Edgar Allan Poe, a escolha do material não corresponde ao que seria previsível se a compilação fosse planejada por uma editora comercial. Contos como O poço e o pêndulo, O gato preto,  e O coração delator são bem mais conhecidos do que o mórbido e assustador Caso do Senhor Valdemar, uma experiência de hipnotismo no limiar da morte. "Até que ponto e por quanto tempo o hipnotismo poderia deter o processo da morte". Lembro de ter assistido na televisão, no final da minha infância, uma adaptação deste conto para o cinema,Tales of Terror (Roger Corman, 1962), estrelado por Vincent Price, e aprendendo na ocasião o significado de "putrefação", que nunca mais esqueci e como poderia?
"Agora chego à parte inacreditável de meu relato. Mesmo assim vou prosseguir. Já não restava em M. Valdemar o mais leve sinal de vida; pensando que estava morto, íamos deixá-lo aos cuidados dos enfermeiros quando observamos na língua um forte movimento vibratório. Isso durou um minuto, talvez. Depois, das mandíbulas dilatadas e imóveis brotou uma voz, uma voz que seria loucura tentar descrever. É verdade que há dois ou três adjetivos parcialmente aplicáveis: poderíamos dizer, por exemplo, que o som era áspero, e quebrado, e oco; mas o horroroso conjunto é indescritível, pela simples razão de que jamais som igual rangeu em ouvidos humanos." - (p. 374), trecho do conto A verdade sobre o caso de M. Valdemar de Edgar Allan Poe (1809-1849).
Uma Antologia reunindo 75 textos de Jorge Luis Borges (Tlön, Uqbar, Orbis Tertius), Julio Cortázar (Casa tomada), Macedonio Fernández (Tantália), Carlos Peralta (Rani), Silvina Ocampo (A expiação), para citar somente alguns dos escritores argentinos, é uma recomendação certa e que, definitivamente, não pode faltar em sua biblioteca. O livro foi resgatado do espólio da finada editora Cosac Naify e lançado agora pela Companhia das Letras com posfácios de Walter Carlos Costa e da escritora Ursula K. Le Guinn (publicado como introdução à edição norte-americana, The Book of Fantasy, pela editora Viking em 1988).

Comentários

sonia disse…
Uau!!! Acho que estamos todos precisando de um pouco de literatura fantástica. O real está insuportável, quase sempre!

Abraços, K.
Sônia
Alexandre Kovacs disse…
Sônia, tem toda razão! O real está insuportável mesmo!
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