Roger Lombardi - Primeiros dias do verão eterno

Literatura contemporânea brasileira
Roger Lombardi - Primeiros dias do verão eterno - Editora Patuá - 184 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2018.

Os oito contos desta antologia de Roger Lombardi apresentam uma personalidade própria no amplo gênero que se convencionou chamar de literatura fantástica. Na verdade, sem que o autor indique uma localização precisa no tempo e no espaço, algumas das narrativas assemelham-se a fábulas religiosas, contudo, essa impressão é desfeita ao percebermos como não existe qualquer conceito moral ou místico norteando as ações de todos os personagens, que se tornam reféns de situações insólitas, algumas vezes violentas, como se fossem prisioneiros de um destino implacável do qual não há escapatória.

No conto de abertura, Josué tem certeza de que as três maçãs que encontrou penduradas nos galhos de sua macieira – grandes como abóboras e vermelhas como sangue – só podem ser um presente de Deus que ele, infelizmente, não consegue entender. O milagre inesperado provoca uma série de ações agressivas do protagonista enlouquecido em sua obsessão de proteger os frutos, pretensamente divinos, de outros moradores das redondezas, inclusive do amigo Samuel que é injustamente acusado de ladrão quando a primeira das maçãs desaparece.
"Lentamente, Josué se levantou e caminhou em direção à macieira. Aproximou-se da maçã gigante mais próxima e, suavemente, encostou seu dedo indicador na pele lisa e vermelha do enorme fruto. Seus olhos se encheram de lágrimas. Era real. Os galhos não vergavam. Josué percebeu que elas possuíam o mesmo peso das outras maçãs. Não conseguia compreender ou sequer assimilar todas essas informações. Apenas repetia para si mesmo: 'É um milagre'". (p. 8) - Trecho do conto A Macieira.
E o que pensar de Klaus, um pobre pai que precisa acreditar que existe alguma alternativa para a dor de enterrar o filho ainda bebê, decidindo enfrentar a cólera de todo o vilarejo e tentar a impossível ressurreição do pequeno corpo que carrega em sua mochila com base apenas em uma lenda local. Em uma jornada na qual só dependerá da própria fé, e mais três amigos que decidiram acompanhá-lo apesar de tudo, ele precisa vencer agora a perigosa escalada para chegar em uma caverna no alto da montanha, uma parábola sobre esperança, vida e morte.
"A cada passo que dava para se afastar do vilarejo, Klaus ganhava olhares ainda mais furiosos do que aqueles recebidos no quintal de sua casa. Aos poucos, os gritos apareceram. 'Herege', vociferou uma senhora da janela de sua casa. 'Adorador do diabo', gritou outra, apoiada na cerca de seu jardim. Uma pedra passou zunindo pela sua orelha esquerda. Virou-se, mas ninguém se manifestou. Achou melhor continuar andando, mas com passos mais apressados. Temia que pudessem retirar seu bebê da mochila ou mesmo machucar seu pequeno corpo. Tinha pressa, também em iniciar logo sua jornada." (p. 28) - Trecho do conto A Luz no Topo da Montanha
Em Morangos, o autor desenvolve um texto que, apesar de ainda relacionado ao gênero fantástico, é carregado de sensualidade, com um estilo que me lembrou muito de Arthur Schnitzler e as alucinações descritas em Traumnovelle (Breve Romance de Sonho). Neste conto, a protagonista já chegando aos quarenta anos e sempre sem grandes desejos ou fantasias sexuais, se surpreende com o despertar da sua libido por influência de uma antiga amiga de escola que não via há muitos anos e a convida para uma misteriosa festa particular.
"[...] O suco vermelho da fruta já escorria em tanta quantidade pelo seu queixo que a blusa ficou completamente encharcada. Quanto mais exagerado o modo como agia, mais rápido batia seu coração, fazendo-a exagerar cada vez mais. Estava como que possuída e experimentando um prazer inenarrável. Queria testar seus limites, indo até o ponto de não conseguir mais respirar ou mastigar, e não se deu por satisfeita até chegar ao fim da caixa de morangos. Quando terminou, ficou cerca de cinco minutos apenas ofegando, completamente suja. Estava feliz. Mais do que feliz, até. Provavelmente, foi a primeira vez em sua vida que tinha feito algo exagerado, extravagante, completamente gratuito. Entrou no chuveiro de roupa e tudo e ficou lá por mais de 40 minutos, apenas deixando a água quente escorrer pela cabeça. Mal conseguiu dormir à noite, pensando no que havia feito. Ria à toa." - (p. 144) Trecho do conto Morangos
Sobre o autor: Roger Lombardi nasceu na cidade de São Paulo em 1981. Autor do romance O Serviço (Editora Patuá, 2016) e da peça Dele, encenada pela Cia. Club Noir em 2017. Pós-graduado em Teoria e Práticas da Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero, possui extensa experiência no jornalismo musical, onde atuou como editor-chefe e crítico em publicações especializadas em rock, jazz e blues. Como cantor e compositor, atualmente é integrante do grupo Goatlove, que lançou dois álbuns, The Goats Are Not What They Seem e Guadalajara. Inspirado por nomes como Nelson Rodrigues, Herman Melville e Nikolai Gogol, apresenta em seu segundo livro, Primeiros dias do verão eterno (Editora Patuá, 2018), uma coletânea com oito contos de mistério e realismo fantástico.

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