Alberto Bresciani - Hidroavião

Poesia brasileira contemporânea
Alberto Bresciani - Hidroavião - Editora Patuá - 152 Páginas - Projeto gráfico e diagramação: Alessandro Romio - Capa: Mariana Castro e Filipe Bresciani - Prefácio por Adriane Garcia e Posfácio por Cinthia Kriemler - Lançamento: 2020.

Depois do excelente Fundamentos de ventilação e apneia, Alberto Bresciani consolida o seu nome no cenário da poesia brasileira contemporânea, lançando mais uma vez uma antologia com duas particularidades, um curioso título e um conceito bem definido. Hidroavião é dividido em três partes: Água, Terra e Ar, nos conduzindo por uma viagem onde sonho e realidade se confundem na rotina da nossa própria existência, como bem destacado pela também poeta Adriane Garcia em seu prefácio: "Exausto da luta diária de subir e descer a montanha, levando novamente a pedra, o poeta possui uma nave (poesia) incomum, com uma espécie de flutuador no casco. Do alto, a visão panorâmica permite que observe e registre os passos daqueles que o cercam – ou melhor – que partilham da mesma maldição: existir."

Em cada uma dessas partes – Água, Terra e Ar – o leitor se identificará com uma voz que, mesmo melancólica, não se conforma com o mundo hostil e injusto que nos cerca, uma vida triste e breve que não parece fazer sentido, de como, em alguns momentos, por mais estranho que seja, é necessário fugir de nós mesmos, nos isolar em algum remoto "telhado", a literatura quem sabe, para conseguir alguma possibilidade de alegria:

"Conheço muito bem esse homem / Sei nome, endereço, / número de identidade, / preferências musicais / e apatia. // Fujo dele algumas vezes, / como agora, / aqui no telhado, / atirando pedras / para cima. // Sim, escute, / aceito que desabem / um relâmpago, / anjos, tornados, / alguma alegria." - RADIOGRAFIA (p. 17)

No posfácio, preparado por outra grande escritora e poeta, Cinthia Kriemler, a certeza de estarmos sendo (bem) representados nos versos deste livro: "Muito se tem falado que a poesia de Alberto Bresciani tem como marca a simplicidade, porque é acessível a todos os leitores. Eu digo que é mais do que isso. Em 'Hidroavião', solidifica-se uma escrita cuja tessitura é a honestidade. Vem daí o diálogo fluido com o leitor. Uma conversa em versos na qual emissor e receptor se unem por meio de uma emoção íntegra. Esta obra, para além do seu conteúdo, estabelece a personalidade de um autor que se revela não apenas pelo domínio de técnicas, mas, antes, e principalmente, pelo respeito à poesia."

Deixo com vocês três exemplos da rica poesia de imagens e surpresas de Alberto Bresciani, essencial para sabermos que podemos encontrar refúgio na beleza e proteção da arte e, quem sabe, ainda sonhar nos dias de hoje, praticando "o milagre diário de andar por aí."


OBJETOS (p. 51)
(Parte I - Água)

Os objetos do quarto
mudaram muitas vezes,
mas, há muito, são os mesmos.

Mudar os objetos
não nos faz diferentes,
mas, ao acordar,
tento perceber
outra cadeira, mesas,
outro corpo, diverso,
despegado deste
que me deram à habitação.

Os reflexos da luz,
invadindo a janela da manhã,
de certo modo,
reconfiguram
a aparência dos objetos.

No entanto, são os mesmos.

Ao acordar, séculos antes,
esperava
que alguma coisa estivesse
por acontecer ao corpo,
este, o que levo.

Muito depois,
penso no que já lhe aconteceu
(tudo foi anunciado,
como a uma antiga abadia).

Estou de pé
e outro dia fugirá,
infinito, involuntário,
definitivo.

REFUGIADOS (p. 59)
(parte II - Terra)

No silêncio das florestas, 
na solidão da cidade, 

somos os refugiados 
de um tempo em cinzas. 

Desejamos tanto 
e é pouco o que passou. 

Sim, ouvimos vozes, 
um certo rumor impreciso. 

Chegamos a pensar 
que não queremos mais, 

apenas o sol onde está, 
pássaros nos binóculos. 

Este é um lugar 
onde nada nos sobra.

MANTRA (p. 126)
(parte III - Ar)

Estamos doentes,
cobertos de feridas
colecionadas com empenho.

Há flechas perdidas,
sacrifícios virtuais,
crianças mortas
antes do batismo
do mundo.

Tudo são armas,
as palavras, garfos,
esperanças, plantas,
o amor.

Subimos montanhas,
teimaremos muitas vezes.
Talvez encontremos a paz,
essa, a de quem não se importa
de falar a um outro
que dorme.


Sobre o autor: Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011), de Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura - Poesia de 2015) e de Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine (Revista Pessoa, edition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sites da internet e em revistas e jornais impressos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

20 grandes escritoras brasileiras

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa

As 20 obras mais importantes da literatura dos Estados Unidos

As 20 obras mais importantes da literatura francesa

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa