Ney Anderson - O espetáculo da ausência

Literatura brasileira contemporânea
Ney Anderson - O espetáculo da ausência - Editora Patuá - 176 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

Esta antologia de contos, livro de estreia do escritor, jornalista e crítico literário Ney Anderson, vem com um invejável e duplo certificado de qualidade: uma elogiosa apresentação de Raimundo Carrero, assim como um prefácio de Luiz Antonio de Assis Brasil, dois dos mais conhecidos e renomados escritores e mestres de escrita criativa em oficinas literárias no nosso país. Neste livro, o Recife é apresentado como uma cidade sombria e chuvosa, cenário de histórias no gênero fantástico onde os personagens sofrem com a violência urbana e o próprio vazio existencial em um constante espetáculo da ausência no qual a vida se transforma às vezes.

Um corpo de mulher boiando no rio Capibaribe ou a misteriosa morte de um escritor que havia deixado um romance inédito em estilo hiper-realista, são exemplos de conexões entre os contos sutilmente deixadas pelo autor e que despertam a curiosidade, fazendo com que as narrativas apresentem diferentes pontos de vista ou interpretações e nem sempre uma única explicação.

Ney Anderson, que também escreve resenhas literárias, faz uma ótima estreia ao utilizar as suas próprias experiências e memórias na construção geográfica e ficcional dos contos, contudo sem cair na armadilha da autoficção, um perigo bem destacado por um dos personagens, professor de escrita criativa, durante uma aula: "[...] muitas vezes o escritor iniciante se coloca como modelo, aí começa a falar de si próprio e vira aquela merda de autoficção. Pouquíssimos escritores conseguiram algo realmente interessante trabalhando dessa forma. Mas são exceções." trecho de Por onde caminha o rascunho? (p.80).

Máscara rasgada
(um conto de Ney Anderson)

 Atravessou a Avenida Conde da Boa Vista à procura de divertimento. As esquinas guardavam segredos que poucos conheciam. Esperava encontrar algo novo, especial. Só via bêbados, putas, mendigos e alguns poucos ambulantes recolhendo as suas mercadorias. Subiu as escadas da sexy shop, comprou camisinhas de várias cores e formas, algemas e uma máscara.

 Entrou no bar mais próximo e sentou na mesa mais afastada. O garçom se aproximou enxugando a testa.

 – Vai beber alguma coisa?

 – Uma cerveja, por favor.

 O bar estava vazio, olhou para os lados. Os olhos atentos e as mãos suadas. Ninguém conhecido, graças a Deus. O garçom colocou a cerveja na mesa. Estava geladíssima. Bebeu com cerimônia. Não podia se dar ao luxo de tomar cervejas sempre. Levantou-se e foi ao banheiro. Olhou-se no espelho, lavou o rosto e organizou os cabelos. Ao retornar para a mesa, notou alguém encostado no balcão. Um rapaz jovem. Olharam-se por alguns segundos. Sorriram. Sentou à mesa e tomou mais alguns goles de cerveja. Percebeu o rapaz saindo do bar. Foi atrás. O carro estava com a porta do passageiro aberta. Entrou.

 – É perigoso ficar aqui sozinho, posso te dar uma carona?

 Ele balançou a cabeça afirmativamente.

 O rapaz arrancou pela avenida vazia e chegou até o endereço poucos minutos depois. Prédio novo, flores artificiais no hall de entrada. O porteiro cochilava, enquanto na tevê passava um programa evangélico.

 O apartamento estava sobriamente decorado, como ele observou atentamente. Poucos quadros, um pequeno aparador com livros e garrafas de bebida, a tevê em cima de um móvel moderno e o sofá de dois lugares. O rapaz perguntou se ele queria beber mais alguma coisa. Depois de alguns copos e conversas jogadas fora eles mudaram de cômodo.

 Acordou no meio da madrugada. Olhou ao lado, o jovem rapaz ainda estava dormindo. Levantou-se. As camisinhas no chão, a máscara rasgada. Vestiu-se e saiu. Já com o dia clareando, pegou o primeiro táxi que apareceu. Desceu na Avenida Guararapes.

 Andou. Devagar. Andou.

 A igreja já podia ser vista. Colocou as mãos nos bolsos. Retirou o terço. As algemas ainda estavam lá. Abriu a pesada porta de madeira. Fez o sinal da cruz. Rezou. Preparando-se para celebrar uma missa de sétimo dia.

Sobre o autor: Ney Anderson (Recife-PE, 1984) é jornalista, escritor e crítico literário. Tem contos publicados em diversas antologias. Entre elas, Contos de Oficina (Editora Bagaço,2007-2008-2009-2010), Livrinho de Papel Finíssimo (2011) e Carrero com 70 (Cepe Editora – 2018). Participou ainda da antologia Os novos escritores pernambucanos do século XXI (Diário Oficial de Pernambuco, 2008). Desde 2011 mantém o site Angústia Criadora, especializado em resenhas literárias. Já colaborou com artigos críticos para os jornais O Estado de S. Paulo e Estado de Minas. É também colunista de literatura da rádio CBN Recife. O espetáculo da ausência é o seu primeiro livro.  

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