Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira - As Mãos Ásperas

Literatura brasileira contemporânea
Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira - As Mãos Ásperas - Editora Patuá - 148 Pág. - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

Ao focar as narrativas de seus contos em uma pequena cidade – Cataguases, no interior de Minas Gerais – com personagens simples que resistem à violência diária de uma vida sem perspectivas, o autor nos ensina, assim como outros exemplos na literatura que, quanto mais regional e intimista o recorte, maior o caráter universal da obra. O desafio é mostrar nesses protagonistas de "mãos ásperas" os traços de uma humanidade ainda possível, que não se deixa eliminar apesar de tudo, seja pelo preconceito racial ou pela exclusão social.

O escritor e crítico Ronaldo Cagiano resumiu muito bem a força universal dos contos no texto de apresentação do livro, pequenas jóias sob a aspereza das vidas ordinárias: "[...] O que temos aqui são protagonistas vivendo sua realidade de limbo, de ruínas emocionais, enovelados em camisas-de-força e conduzidos a becos-sem-saídas. Não há como escapar aos paradoxos nesse tempo-lugar sem qualquer expectativa, metáfora da própria condição individual. Ao comunicarem embates e dilemas ancestrais, a universalidade temática dessas histórias, com suas verdades, tensões e apreensões, transforma-se tanto em bússola quanto âncora para questionamentos mais fundos acerca das injustiças e dos passivos que enfrentamos."

É o caso do goleiro Capiva do primeiro quadro, do Americano de Vista Alegre, "negro retinto, esguio, bem feito do corpo" que aprendeu desde cedo as mazelas da vida. Primeiro, abandonado pelo pai por ocasião do seu nascimento e, logo depois, morta a mãe que era uma esponja para qualquer tipo de álcool "que compusesse abstenção da razão ou das dores". Capiva precisou superar muita coisa para encontrar o lado certo da cerca que separa os mundos, "com mãos imensas dando no fecho dos braços, que perfazem longos, instrumentos guiados pelo olhar esbugalhado, de muito concentrado e confiante nas certezas sinuosas daquelas trajetórias, das constantes, bolas em curvas ou em direção certeira, carreadas, todas elas, pelos impulsos dos efeitos, variados, pés em chuteiras nos domingos à tarde."

Uma vez senhor dos seus domingos livres, Capiva quis experimentar a cachaça do Monteiro, a sinuca, o víspora a valer, dinheiro casado. E ia se deixando ficar nesses aconchegos de um lenga-lenga postergado, adiado para o vindouro, quando ouviu do Melro, um especialista nos tratos dos melindres, umas palavras dirigidas, no específico, para ele: "As cercas separam mundos, Capiva. É bom não esquecer o lado certo de estar". Conhecia o Melro, tinha amizade, de recíproca correspondência, que era quase um acontecimento, pois "o Melro sabe selecionar bem os seus". "Não era homem de abrir muito o leque dos contatos". Não apreciava o convívio "da arraia" dos frequentadores da mercearia do Monteiro. Estava lá, todos os dias, mas não se misturava em meio, nem com os pinguços, nem com os peões do campo, nem com os desocupados do Cambalacho, nem com os meeiros de roça de milho. Também não apreciava tomar assento em mesa "dos doutores da Companhia de Água e Esgoto". Cultivava um exclusivo de estar sempre sozinho, ainda que estivesse "no miolo das gentes todas". - Trecho de "A História do Goleiro Capiva" (p. 38).

Já em "Os  Subterrâneos", o protagonista vem "exilado" para Vista Alegre, distrito do município de Cataguases, como diretor da Companhia de Água e Esgoto para "manipular o material indesejado das pessoas", nesta posição ele se torna um observador ideal para, tomando uma cerveja na mercearia do Monteiro, mostrar o movimento dos trabalhadores do turno da noite chegando até a Kombi que transporta a mão de obra para alimentar a indústria textil local, assim como as relações clandestinas que ocorrem na cidade neste período. Logo o leitor percebe que o narrador do conto é bem mais do que um mero observador, ele já faz parte do inventário de ruínas da cidade, enquanto aguarda a Kombi contornar a praça.

Ainda que o álcool me fornecesse algum impulso, minha mudança para Vista Alegre remexeu minhas convicções. Em pouco tempo, removi uma trava que não me permitia o sono solto. Escavar entranhas, manipular o material indesejado das pessoas, transformá-lo, tratar da água que elas consomem para manterem-se vivas fez-me imaginar poder definir a própria extensão das minhas molduras. Que armadilhas aguarda o homem que se enquadra nos limites de uma vida ordinária? Que riscos apostam aqueles, cujos espaços não comportam suas escuras e estreitas lacunas? Há uma "alma" nesses fotogramas? Ou emprestamos a nossa às suas exigências de sentido? Insisto apenas em desejar seguir pelo beco, um pouco trôpego, um pouco descarnado das minhas máscaras, dessas que o dia propõe em benfício próprio. E eu, que por acaso me encontro nesta terra, disperso da vida passada em outros lugares, como numa liturgia profana, encaminhava meu desejo para um corpo. No frio da noite, eu descobria, na inutilidade, no tédio, as razões pelas quais não despimos a alma de todas as ilusões. Porque elas, e só elas, possuem, na sua insignificância, nos sentidos que atribuímos ao ínfimo, o poder de nos manterem vivos. - Trecho de "Os Subterrâneos" (p. 72)

A cidade de Cataguases já foi cenário de uma importante obra da literatura nacional, Inferno Provisório, de Luiz Ruffato (ler resenha no Mundo de K), uma responsabilidade ainda maior para Marcos Vinícius que demonstra, nesta antologia de contos, estilo próprio com segurança e requinte narrativo, vale a pena conhecer essas mãos ásperas.

Sobre o autor: Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira nasceu em Cataguases, em 1969. É professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem publicados os livros Uma ou outra forma de tirania (contos) e E se estivesse escuro? (novela), pela Editora 7 Letras, e Tecido em ruínas – fabricação e corrosão das Cataguases no Inferno Provisório de Luiz Ruffato (ensaio), pela Editora Intermeios.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar As Mãos Ásperas de Jeferson Tenório

Comentários

Marcos Vinícius é mais um ótimo escritor de Cataguases,lugar onde por décadas operários tecem o algodão e seus filhos tecem as palavras.
Alexandre Kovacs disse…
Chicos, obrigado pela visita e bonito comentário! Grande abraço

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