Marcela Dantés - Nem sinal de asas

Literatura brasileira contemporânea

Marcela Dantés - Nem sinal de asas - Editora Patuá - 232 Páginas - Capa de Leonardo Lott -
Lançamento: 2020.

O romance de estreia de Marcela Dantés tem como eixo central a morte de Anja Santiago, uma personagem rara que passou pela vida com uma "imensa vontade de ser invisível" no apartamento novecentos e dois do Edifício Hotel Lucas. Foram anos marcados por "uma eterna sucessão de solidões" e tendo como único companheiro o gato Rinoceronte, lento e desastrado, com quem ela compartilhava da mesma aversão por gente, "preferia o silêncio de uma noite escura". Morreu sozinha em um prédio com dezenas de pessoas e continuou sozinha até o seu corpo ser descoberto, cinco anos depois.

Pode parecer um argumento improvável, contudo, como ocorre tantas vezes, a realidade é mais surpreendente do que a ficção, uma vez que o romance foi inspirado em um caso real de uma mulher encontrada mumificada no próprio apartamento, cinco anos após sua morte, notícia do jornal “El País”, em 14 de julho de 2017, sobre fato acontecido na cidade de Culleredo (Espanha). Maria del Rosario Otero Vieites morreu solitária como sempre viveu e, o mais espantoso, ninguém notou a sua falta.

Em Nem sinal de asas, Anja Santiago, é a filha única de Dulce e Francisco. A mãe "branca como a neve enquanto cai" e o pai, "preto como chocolate amargo". Dulce esperava que a mistura dos dois resultasse em uma cor parda, um tom até bonito que não deixaria dúvidas de se tratar de uma pessoa branca, ainda que constantemente bronzeada. Era isso que ela esperava, mas idealizava mesmo uma criança branquíssima como ela" e, no entanto, "nasceu Anja, pretinha feito o pai." Dulce tentou remediar esta frustração passando algodão embebido em suco de limão no pequeno corpo da filha o que provocou queimaduras no bebê e manchas que acompanharam Anja por toda a vida, claro que ninguém nunca soube a origem da dermatose em uma pele que, obviamente, nunca embranqueceu.

"Já na própria iminente morte, Anja não se importa com nada disso. Ela simplesmente vai deixar de ser Anja Santiago, uma mulher um tanto calada que odeia o próprio nome. Fora Dulce que o escolhera, antes mesmo de ela nascer. Na verdade, tinha acontecido antes que se soubesse grávida: ela sempre desejara uma filha, uma menina que chamaria Anja. Dizia, orgulhosa da sua sagacidade e certa da inveja alheia, que era o feminino de anjo, uma história tão espalhafatosa quanto ridícula, todo mundo sabe que anjos não têm sexo. E é justamente por isso, porque odeia o seu nome e suas razões, que nas raras ocasiões em que alguém lhe pergunta, Anja diz que se chama Ângela." (p. 14)

Marcela Dantés demonstra muita segurança e criatividade com as soluções narrativas voltadas para um tema tão pesado. Com uma técnica que destaca aquilo que é absolutamente essencial para o entendimento da história, ela alterna parágrafos curtos em terceira pessoa com trechos narrados em primeira pessoa pelo porteiro Ramiro, uma espécie de vilão "humanizado" neste romance. O resultado é uma extraordinária sensação de intimidade e transparência com a história que está sendo contada e a protagonista, mesmo nas situações mais tristes o leitor fica encantado com a beleza do texto.

"Ela tinha poucos anos quando as brincadeiras começaram, as pessoas que diziam que seu nome era esquisito, que seu nome era engraçado, as pessoas que riam muito quando o seu nome era dito logo em primeiro lugar na chamada da escola e, depois, quando não havia escola, no jardim do prédio quando um amigo qualquer quisesse gritar por ela sempre tão bem escondida na hora do esconde-esconde e depois e todas as vezes que ela aparecia nos desenhos infantis com asas sendo que ninguém mais tinha asas e ela também não tinha, ela já tinha olhado as costas no espelho muitas e muitas vezes e não havia nem sinal de asas, crescidas ou em broto. E um dia uma versão adolescente dessa menina escutou Ângela e achou que fosse com ela, mas depois viu que não, que Ângela era uma mulher tão bonita e sorridente, uma adulta real de cabelos vermelhos e batom vermelho e dentes bonitos e caminhava como se soubesse aonde ia (e ia pra dentro do prédio em que ela morava) e desde então, pra quem era novo em sua vida e não sabia da história estúpida das asas, ela dizia – sorridente e como se soubesse aonde ia ­ – que o seu nome era Ângela" (pp. 75 e 76)

Um livro sobre solidão que incomoda e faz pensar, principalmente nesta época de pandemia em que forçosamente precisamos enfrentar nossos próprios fantasmas. Anja Santiago está morta, mas nós precisamos continuar.

Sobre a autora: Marcela Dantés nasceu em Belo Horizonte, em 1986. Estudou Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais e é pós-graduada em Processos Criativos em Palavra e Imagem, pela PUC Minas. Pela PUC Rio Grande do Sul, cursou a Oficina de Escrita Criativa de Luiz Antônio de Assis Brasil. É autora da coletânea de contos Sobre pessoas normais (2016), obra semifinalista do Prêmio Oceanos 2017. Em 2016, foi a autora residente do FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal. Nem sinal de asas é seu primeiro romance.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Nem sinal de asas de Marcela Dantés

Comentários

Kelly Oliveira disse…
Muito bom os seus comentários sobre livros. Esse especificamente conheci aqui e pretendo ler.
Alexandre Kovacs disse…
Obrigado pela visita e comentário Kelly!

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